Cultura

MIRANTE DO ÍNDICO: “Macacos” utilitários!

No mundo das cantigas, e a nossa África não é excepção, houve sempre a tendência de se idolatrar tudo ou quase tudo quanto provém do estrangeiro, relegando para plano secundário os estilos autóctones, mais afeitos às nossas raízes

04/07/2021  Última atualização 08H25
© Fotografia por: DR
Nas emissões radiofónicas, e falando concretamente da minha terra, não raras vezes se tem de esperar pelo fim de uma canção, altura em que se anunciam os intérpretres, para lhe conhecermos as origens. E quando entrevistados, não se esquecem de enumerar a bateria de estilos que dizem sustentar as suas cantigas: fusion, afro-rock, rithm & blues...


Ainda que me desagrade, o que não quer dizer que defenda o barramento das artes a influências externas, sem o que não poderemos esperar por evoluções, posso porém dizer que alguns decalques, desde que bem orientados por produtores responsáveis, são um prestimoso contributo à fixação de valores na sociedade, e também ao reforço da economia dos países. E os exemplos dessa postura responsável vêm de muitas partes do mundo, mesmo entre nós, africanos. Vou tentar falar de um desses exemplos, para o caso até caricato.


Os Beatles


O surgimento dos Beatles, mas mais os fenómenos que acompanharam a sua carreira, terão sido a face mais visível das estratégias que visaram, ou travar a alienação que a banda provocava no seio da juventude norte-americana, ou atenuar a exportação de capitais para a Inglaterra, a pátria da banda de Liverpool.


Quando John Lennon e Paul McCartney escreveram a canção "I want to hold your hand” e os Beatles a gravaram em Outubro de 1963, mal podiam imaginar o que ela provocaria na sociedade norte-americana que, pouco depois, em 22 de Novembro de 1963, viu um seu presidente, John Fitzgerald Kennedy no caso, ser assassinado em Dallas, Texas.


Dois meses depois, mais concretamente em Fevereiro de 1964, um Boeing 707 ostentando na sua fuselagem a inscrição The Beatles aterra em Nova Iorque. Dele saiu o mítico quarteto de Liverpool, marcando assim a sua primeira digressão pelas terras do Tio Sam. Por esse então, aquele país andava em curativos visando debelar o choque e o consequente tédio provocados pelo assassinato de Kennedy, e nada melhor do que atacar as mentes e colocar no pedestal novos heróis, inventar um qualquer  "Amor nos tempos de cólera”, para usar o título de uma das maiores obras de Gabriel Garcia Marquez. E o amor até podia vir do outro lado do Atlântico, como, aliás, viria a acontecer com o desembarque dos Beatles.


Tudo calculado ao mais ínfimo pormenor, a banda actuou no mais popular e disputado programa televisivo norte-americano de então, o "The Ed Sullivan Show”, que teve lugar dois dias depois, na Broadway, a 9 de Fevereiro de 1964.
Seis dias antes do desembarque, "I want to hold your hand” atingira o primeiro lugar nas principais paradas de sucesso norte-americanas, isto sem contar com o vendaval de acções de marketing. Imagine-se: vinha do quadragésimo lugar!
A seguir ao programa televisivo, aconteceu o que nunca tinha antes acontecido: trinta e dois shows em vinte e quatro cidades norte-americanas.


A "invasão”

Uma análise fria aos acontecimentos de Fevereiro de 1964 levou a crítica a concluir que a ida dos Beatles aos Estados Unidos não foi apenas uma digressão artística, mas antes uma invasão, uma invasão cultural, entenda-se, e logo à maior potência mundial.


Com efeito, após a digressão de Fevereiro de 1964, os Beatles voltaram aos Estados Unidos em Agosto do mesmo ano e em Agosto do ano seguinte. Em 1966, a banda faz-se de novo àquele país, numa digressão apimentada por declarações polémicas de John Lennon, segundo o qual os Beatles eram mais importantes que Jesus Cristo, e ainda por se terem recusado a actuar em Las Vegas quando lhes foi informado que os organizadores separariam o público negro do branco.


De qualquer forma, as sucessivas digressões dos Beatles aos Estados Unidos contribuíram, com o tempo, para a vulgarização da  música pop norte-americana de então. A beatlemania tinha-se instalado nas rádios e televisões: cantigas simples, letras coloquiais e eivadas de lugares comuns, mas suficientemente fortes para adoçarem as bocas de uma geração que virava as costas ao country, ao blues e ao soul. Todos queriam escutar e dançar "All my lovings”, "Till there was you”, "She loves you”. Mas lograra-se o objectivo de fazer tábua rasa à morte de John Kennedy. Impunha-se, agora, encontrar uma estratégia de reversão da situação criada e reencontrar o emblemático nacionalismo americano, assim como travar a excessiva saída de divisas que enriquecia as discográficas inglesas e recolocar a música yankee nos ouvidos da sua juventude.


A reversão

A primeira acção escrutinada com vista a conter a "invasão” inglesa pareceu, a princípio, ir de encontro ao desejo de ofuscar os Beatles, desde logo porque usou o mesmo formato numérico (quarteto), as mesmas sonoridades e vozearias (yé-yé-yé), as vestimentas (camisetas pretas e golas subidas) e as parecenças. O talento não parecia ser um grande requisito.
Primeiro, criou-se uma série televisiva, e depois uma banda residente, ambas com a mesma designação: The Monkees – Os Macacos.


O projecto foi de tal sorte elaborado que até comportava um supervisor, Dolenz, componente dos Monkees, que mais tarde declararia que a série televisiva era um show com uma banda imaginária, o mesmo que dizer que eles eram actores projectados como uma caricatura dos Beatles. Nós, adolescentes por então e bem manipulados, chegámos a pensar que era indiferente escutar os Beatles ou os Monkees. Os menos avisados, porém, e principalmente com o lançamento do êxito que foi "I’m believer”, acreditavam que os Beatles e os Monkees eram uma e a mesma coisa.


Ainda que a "macaquice” tenha tido alguns resultados, a verdade é que se tornou necessário conceber algo com mais substância, algo mais do que uma simples caricatura. Era preciso pôr as melhores vozes americanas a cantar as melhores cantigas dos Beatles, dar de beber ao "inimigo” do seu próprio "veneno”. Num universo de grandes talentos, o escrutínio era fácil: Roberta Flack e José Feliciano gravaram álbuns integralmente compostos por êxitos dos Beatles, e, de forma ainda mais contundente, Ray Charles a registar as cantigas que marcam o mundo até aos dias que correm: "Yesterday” e "Imagine”.

E a pergunta, para terminar: não precisaremos de fazer o mesmo para conter as "invasões” a que andamos sujeitos no campo musical?
Luís Loforte
.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura