Opinião

Ministro da Cutura

Sousa Jamba

Jornalista

Aqui na Zâmbia, num encontro na semana passada, fui apresentado como antigo ministro da Cultura de Angola. Havia, neste encontro, vários antigos colegas meus da Mwinilunga Secondary School, onde estudei; uma boa parte deles foram profissionais — oficiais do exército, professores, chefes de departamentos em empresas e agora quase todos empresários.

19/11/2021  Última atualização 06H20
Os zambianos, curiosamente, seguem atentamente os acontecimentos no Governo angolano; isto é em parte por haver uma parte de zambianos que têm ligações zambianos de sangue angolano. Parte das etnias Luvale, Tchokwe, Lunda, Luchazi, Mbunda também estão em Angola.

Um jovem  da etnia Chokwe pode sair de Lusaka até Malanje por terra e encontrar sempre gente que fala uma língua que ele entende. Vi isto quando me encontrei com jovens zambianos em Saurimo; eles sentiam-se mais em casa do que em certas partes da Zâmbia. O mesmo pode ser dito de angolanos nas áreas perto da fronteira com a Zâmbia, que fazem os seus estudos superiores aqui.

Antes de eu responder que nunca fui ministro da Cultura em Angola ou qualquer outro país do mundo, os antigos colegas tentavam dar-me palestras sobre o que eles viam como um apego fortíssimo à herança portuguesa em detrimento da herança Bantu; há mesmo quem insistia que os angolanos sentiam uma certa vergonha de ser africanos.

No fim, eu tentei explicar que as coisas não eram assim tão simples, mas nunca me era dada a oportunidade; os angolanos, segundo as acusações, tinham abandonado a sua cultura africana. Claro que estávamos a lidar com estereótipos — mas estes são muitas das vezes úteis porque servem como ponto de partida da análise de fenómenos.

Temos aqui dois aspectos muito importantes da cultura angolana.  O que temos em Angola são culturas — o que é normalíssimo; um Reino Unido é uma fusão de culturas; um Canadá é uma fusão de culturas; mesmo uma França, país que tanto se orgulha de ter uma cultura refinada, é uma fusão de culturas.

É por isso que ultimamente estamos a ver confrontos de ideias na França sobre, por exemplo, o lugar do Islão na cultura francesa. Em Angola é que nunca houve uma estratégia para celebrar e propagar estas culturas seriamente!

Tudo começa com a educação. É através da educação que se cria a cultura de curiosidade. Muitos jovens nas áreas urbanas em Angola sonham é um dia ir para Portugal, Brasil ou Estados Unidos. Quantos deles já ouviram falar de Muculu Wa Ngola, o local no interior de Malanje onde Ngola Kiluanji e Rainha Ginga estão enterrados? Eu já estive lá por duas vezes.

O meu irmão mais velho, Jorge, que foi militar das FALA, as forças armadas da UNITA, passou uma parte da guerra no interior da província de Malanje, sob comando do falecido General António Dembo.

O meu irmão contou-me que no local onde a Rainha Ginga está enterrada ninguém pode chegar lá armado. Se alguém fugisse para o pomar onde a rainha estava enterrada ninguém a podia perseguir; aquele local era de paz! Todos os exércitos que passavam por lá, soube, tinham que respeitar vários rituais.

Quando visitei a campa da Rainha Ginga tive que descalçar; jovens que nunca tiveram filhos não se podiam aproximar da campa. Curiosamente, a campa estava rodeada de palmeiras e plantações de ananás, bananas, etc. Periodicamente, certos membros da família real vão ao local para limpar o pomar e manter a campa. Cá estava uma parte da herança e cultura angolana que muito pouca gente sabia.

Outro aspecto é que faltam agências de cultura no terreno com o papel de identificar, preservar e sensibilizar (através do Ministério da Cultura) os vários aspectos da herança cultural. Deveria, por exemplo, haver uma agência de museus. No Bailundo há um museu que no passado coleccionava muitos artefactos interessantíssimos.

Notei, uma vez, que alguns artefactos já não estavam lá; informaram-me que quando figuras pesadas da província visitavam a localidade e se engraçavam com certos artefactos eles levavam os mesmos consigo. Ninguém, claro, tinha a coragem de contrariar um grande chefe!

As agências locais de cultura poderiam, também, actuar como instituições  de turismo. Isto tudo só iria funcionar se houvesse uma estratégia sólida para a promoção da cultura e tácticas no terreno para as implementar. Para isso, o ministro de Cultura teria mesmo que ser levado a sério; além dele ou ela ter que ser alguém com uma paixão pela cultura, ele teria, também, que ser um bom gestor. Claro sei que no terreno a situação deve ser completamente diferente do que nós, que um indivíduo como eu, que nunca pisou um único ministério em Angola, pode imaginar.

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