Especial

Milhares de fiéis acorrem a Roma para prestar última homenagem a Bento XVI

Augusto Cuteta

Jornalista

Milhares de pessoas, algumas saídas de outras partes do mundo, começaram, desde segunda-feira, a acorrer à Roma, sede do Vaticano, para participar das cerimónias fúnebres do Papa Emérito Bento XVI, falecido no último sábado.

03/01/2023  Última atualização 08H58
© Fotografia por: DR

Apesar de a cerimónia ser, inicialmente, restrita e bastante simples, tal como a queria o próprio Bento XVI, o cenário na capital italiana e, particularmente, na Praça de São Pedro, é diferente, principalmente, horas depois de se iniciarem os actos de homenagem a Joseph Ratzinger.

Até ao funeral do ex-bispo de Roma, marcado para quinta-feira, às 9h30 (locais), nas Grutas Vaticanas, onde se encontram os túmulos dos papas, prevê-se que a Cidade do Vaticano vai continuar a receber muitos fiéis.

Enquanto isso, informações do Vaticano dão conta que as cerimónias fúnebres de Bento XVI vão ser presididas por Francisco, um acto histórico, tendo em conta que será a primeira vez que um líder mundial da Igreja orienta o funeral de outro Papa.

Até lá, as ruas próximas da Santa Sé vão registando uma grande movimentação de pessoas, ávidas em prestar a última homenagem ao Papa Emérito, considerado um dos maiores teólogos dos últimos 100 anos, um homem que dominava perto de dez línguas, tinha cinco doutoramentos e leu a Bíblia nas versões originais.

Assim como cresce o número de fiéis e do reforço da segurança policial nos arredores do Vaticano, assiste-se a uma maior presença da imprensa mundial.

Aliás, até segunda-feira, estava definido o lugar onde os media passam a se concentrar para transmitir a cerimónia exequial. Um perímetro da Praça de São Pedro, de frente para os 130 metros de altura da cúpula da Basílica de São Pedro é onde as televisões e rádios vão estar.

Por exemplo, quer no interior, quer na parte externa da Praça de São Pedro, as forças da Ordem continuam a reforçar a segurança por meio de mais efectivos e de meios, com vista a permitir um funeral tranquilo para Joseph Ratzinger, que morreu aos 95 anos.

Até quinta-feira, as portas da Basílica de São Pedro vão estar abertas a certas entidades para, entre às 09h00 e as 19h00, prestarem homenagem ao primeiro Papa que renunciou ao cargo, nos últimos 600 anos da história da Igreja Católica.

 

Mais de 60 mil pessoas no funeral

A Cidade de Roma, desde segunda-feira, vive um clima de agitação, em consequência das cerimónias fúnebres do Papa Emérito Bento XVI, falecido no dia 31 de Dezembro do ano recentemente findo.

Para o velório do Papa Bento XVI, as autoridades locais esperam receber cerca de 35 mil pessoas e mais de 60 mil outras podem estar em Roma, para o o funeral de quinta-feira, que começa com uma missa exequial às portas da Basílica.

Neste momento, o corpo de Joseph Ratzinger, depois de deixar a capela do Mosteiro Mater Ecclesiae, está exposto, em câmara ardente, na Basílica de São Pedro, para veneração e último adeus dos fiéis. Nessa cerimónia fúnebre, esperam-se, entre outras entidades, a presença de Chefes de Estado e de Governo. E, por questões de segurança, prevê-se que o espaço aéreo sobre a Praça de São Pedro esteja interdito nesta quinta-feira.

  Momentos da cerimónia antes do funeral do Papa

Francisco vai presidir a uma cerimónia, na Praça de São Pedro. No final da celebração eucarística, vão decorrer os actos de ‘Ultima Commendatio’ (último elogio) e de ‘Valedictio’ (despedida), sendo, posteriormente, o caixão do bispo Emérito de Roma levado para Basílica de São Pedro e depois às Grutas do Vaticano, para o sepultamento.

As disposições canónicas e litúrgicas para as exéquias de um Papa foram determinadas por São João Paulo II, na Constituição Apostólica ‘Universi Dominici Gregis’ (1996).

O documento não prevê, contudo, uma situação como a do Papa Emérito Bento XVI, que morreu com o seu sucessor ainda vivo. Salienta-se que a última renúncia a um pontificado tinha acontecido em 1415, com Gregório XII, mas o seu sucessor foi escolhido apenas após a sua morte, em 1417.

Dado que as disposições em vigor dizem respeito ao período de Sé Vacante (entre a morte de um Papa e a eleição do seu sucessor), os rituais devem ser adaptados pelo Departamento Litúrgico para as Celebrações do Sumo Pontífice.

Pelas regras da Igreja Católica, o funeral de um Papa ocorre entre quatro a seis dias após a morte.

Fontes próximas ao Papa Emérito Bento XVI revelam que o ex-líder católico desejava ser sepultado no piso inferior da Basílica de São Pedro, as Grutas do Vaticano, no túmulo que recebeu São João Paulo II, antes de ser transferido para uma capela perto da ‘Pietà’ de Michelangelo, após a sua canonização.

Embora persistam incertezas quanto aos dados dos pontificados dos primeiros séculos, Bento XVI ultrapassou, em longevidade, os Papas que mais anos viveram, até hoje: Celestino III (1105-1198) e Leão XIII (1810-1903), pontífices que faleceram aos 93 anos.

O Papa Emérito será enterrado em cripta na Basílica de São Pedro, conforme informação divulgada pela assessoria de imprensa da Santa Sé.

Chefe de Estado manifesta pesar

O Presidente da República, João Lourenço, enviou uma mensagem de pesar ao Papa Francisco, na sequência do falecimento, em Roma, de Bento XVI.

"Tenho a honra de me dirigir a Vossa Santidade para lhe dizer que recebi com bastante pesar a notícia do falecimento do Papa Emérito, Sua Santidade Bento XVI”, escreveu o Chefe de Estado angolano.

João Lourenço escreveu ainda, na sua mensagem, que os católicos e o mundo em geral perdem uma figura que prestou um significativo contributo ao papel positivo e notavelmente construtivo que a Igreja vem desempenhando em prol de um hu-manismo cada vez mais necessário nos tempos que correm, na relação entre povos, Nações e indivíduos.

"Apresento por isso, neste momento de dor e de luto, em nome do Executivo angolano e no meu próprio, as nossas mais profundas e sentidas condolências a Vossa Santidade e aos católicos espalhados pelo nosso universo”, salientou o Chefe de Estado angolano.

O Governo de Angola e a Santa Sé assinaram, em 2019, no Vaticano, o Acordo-Quadro que define o seu relacionamento bilateral. Redigido em italiano e português, o documento é composto por um preâmbulo e 26 artigos.

O Acordo-Quadro é um tratado internacional celebrado entre a Santa Sé e um determinado Estado, usualmente com a finalidade de assegurar os direitos dos católicos ou da Igreja Católica naquele Estado.

Para o caso específico angolano, o documento a assinado contempla, entre outros, o reconhecimento da personalidade jurídica da Igreja Católica em Angola, a titularidade de todos os seus imóveis, incluindo escolas e centros de saúde, e a expansão do sinal da Rádio Ecclésia por todo o território nacional. Outra questão está relacionada com o compromisso das autoridades angolanas de trabalhar para a modernização do Santuário da Muxima, para que tenha uma melhor imagem.

No quadro deste acordo, em Julho do ano passado, o Presidente da República, João Lourenço, lançou a primeira pedra na construção e requalificação da Basílica da Muxima, na vila com o mesmo nome, em Luanda.

A infra-estrutura vai dispor de uma capacidade para albergar quatro mil fiéis. Os primeiros três lotes da empreitada compreendem a reabilitação da antiga Igreja de Nossa Senhora da Muxima, do Forte da Muxima e a construção da ponte cais.

O projecto contempla também a construção de um centro médico, administração local, Comando da Polícia Nacional, escola, centro

comunitário, edifício do clero, área de loteamento para residências familiares e campo de campismo na Muxima, situada a 130 quilómetros da cidade de Luanda.

O Presidente João Lourenço autorizou, por despachos, em 2018, a requalificação da vila e do Santuário da Muxima, num orçamento total próximo dos 91 mil 620 milhões 393 mil e 916 kwanzas.

A maquete para a construção da Basílica de Nossa Senhora da Muxima chegou a ser apresentada ao Papa Bento XVI, por ocasião da visita de Joseph Ratzinger a Angola, em 2009. A Basílica vai ficar em frente a antiga capela, edificada em 1.645 e dedicada à Nossa Senhora da Conceição.

 

A Visita a Angola

O Papa Bento XVI chegou a pisar o solo angolano, durante a visita apostólica, ocorrida entre 20 a 23 de Março de 2009, cujo ponto mais alto foi uma missa a céu aberto, realizada no largo defronte à Nova Cimangola, em Luanda, para quase um milhão de pessoas provenientes de todas as províncias e de outros países africanos.

Bento XVI foi recebido em Luanda pela maior multidão numa viagem à África, que envolveu os Camarões, com muitos cruzando o país para receber a bênção na tradicional missa de domingo. Depois, o Papa era aguardado para a visita a um centro de defesa das mulheres, na capital do país.

Nas mensagens que dirigiu à nação, nos três dias de visita, o pontífice pediu que Angola lutasse contra a pobreza, solicitou aos líderes africanos que permitissem uma maior liberdade de imprensa, condenou o aborto e a violência contra as mulheres em África.

As relações diplomáticas entre Angola e o Vaticano foram formalizadas a 8 de Julho de 1997, com a nomeação do primeiro embaixador, não residente, junto da Santa Sé, Domingos Quiosa, acreditado no dia 7 de Fevereiro de 1998, tendo exercido a função até Dezembro de 2000.

 

Gratidão da Igreja angolana

O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), Dom Manuel Imbamba, disse que a Igreja angolana se manifesta bastante gratidão ao Papa Emérito Bento XVI.

O arcebispo considerou que Joseph Ratzinger uma figura incontornável da história angolana da igreja e da humanidade, por ter deixado um grande legado como pessoa, bispo, cardeal e Papa.

"É um legado que tem a ver com o cultivo da humildade e sentido de humanidade”, avançou que "a sua morte deixa um grande vazio, mas, ao mesmo tempo, um sentido de gratidão a Deus, por tudo aquilo que ele fez pelos homens e pela igreja”.

Em Angola, disse, todas as dioceses estão a rezar pelo Papa Bento XVI em missas específicas, enquanto na Nunciatura Apostólica abre, hoje, o livro de condolências, para os angolanos possam prestar homenagem.

Quanto às transformações operadas durante o papado de Bento XVI, Dom Manuel Imbamba referiu-se a vários exemplos. "Mas, a presença da Igreja no mundo é fermentadora, educadora, interpelativa e profética”, ao destacar os grandes apelos à paz, à justiça e ao respeito da ecologia, bem como o sentimento de amizade, trabalho para debelar toda a espécie de amizade e miséria humana, valorização da cultura como algumas marcas de Bento XVI.

"Ele tinha uma posição de pastor, de construtor de pontes para ligar nações, para interpelar chefes de Estados, no sentido de se criar uma cultura de paz, amor, da sã consciência e o respeito do direito internacional. Por isso, mundo vai ressentir-se deste vazio do intelectual e ortodoxo da sã doutrina católica”.

Para a nossa igreja o papa Bento XVI visitou-nos em 2009 e a mensagem que nos deixou, é uma mensagem muito forte que todos nós acatamos e abraçamos, e boa parte de nós enquanto bispos, fomos nomeados por ele, de maneira que os ensinamentos os seus ensinamentos, sua proximidade, conselhos e preocupação por uma Angola justa, em paz e que saiba distribuir as suas riquezas por todos os seus cidadãos e por uma Angola que todos os seus governadores estejam virados para o bem comum e da dignidade.

 

Funeral sem bispos angolanos 

Questionado sobre uma possível participação de bispos da CEAST na cerimónia fúnebre de Bento XVI, o presidente da instituição religiosa disse que essa possibilidade está descartada.

Esclareceu que a Santa Sé publicou uma nota a anunciar que o funeral seria simples e de carácter privado, sem grandes delegações. "Não é proibido que se façam delegações, mas se tiverem serão a título particular. Ou seja, nós em Angola, em todas as dioceses, estamos a ter celebrações específicas pelo Papa Bento XVI”, disse.

Quanto à cerimónia da assinatura do livro de condolências da Nunciatura Apostólica, o arcebispo garantiu que este acto é livre, não restrito a católicos.

  Bispo metodista: Bento XVI foi um grande cristão

Unida, Gaspar João Domingos, considerou que Bento XVI não pode ser visto apenas como o Papa católico, numa altura em que a sua morte afecta todo o mundo cristão, por se tratar de um líder carismático, estudioso e teólogo de primeira craveira.

A Igreja Metodista sente-se orgulhosa, por Deus ter dado ao mundo e à Igreja um homem com alguma sabedoria para olhar profundamente para o mundo cristão e levar a missão que o Pai concedeu aos pastores.

"O Papa Bento XVI foi um verdadeiro intérprete deste conhecimento como ninguém”, disse, para lamentar a morte do Sumo Pontífice e realçar os ensinamentos constantes nas suas obras.

Quanto às relações entre a Igreja Católica e a Metodista Unida, o bispo Gaspar João Domingos afirmou que são boas, numa altura em que decorre o processo de unificação, para que uma reconheça o serviço de outra, ao ponto de participarem juntas em acções ecuménicas.

"Por causa dessa relação, nós podemos visitar o Vaticano, num período em que Bento XVI tinha sido muito recentemente para o cargo. Fomos recebidos pessoalmente pelo Papa e isso foi marcante, até agora”, rematou.

O bispo metodista realçou que, quando visitou Roma, fez o convite ao Papa para visitar Angola, o que veio a acontecer depois. "Nós tivemos esse papel diplomático, mesmo não sendo católicos. E a vinda de Bento XVI foi uma vitória para todos os cristãos angolanos", afirmou Gaspar João Domingos.

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