Mundo

Michel Temer pode ter o mesmo destino de Lula

A partir do momento em que passar a faixa verde e amarela a Jair Bolsonaro, o ainda Presidente do Brasil, Michel Temer, perde a imunidade que o cargo lhe confere e passa a estar sob a alçada dos tribunais comuns, revela artigo publicado pelo jornal Diário de Notícias.

30/12/2018  Última atualização 12H53
DR

Lá, pode responder por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução à justiça, num total de seis inquéritos e três denúncias, a última das quais entregue no dia 19 último, por Raquel Dodge, à Procuradora-Geral da República, que o coloca como \"epicentro de um esquema criminoso\". Não será surpreendente, portanto, que, como Lula da Silva, o actual Chefe de Estado se torne um ex-Presidente na cadeia.
\"Se a última denúncia for aceite, considerando o que temos visto em processos de corrupção no Brasil, há uma possibilidade alta de que ele seja preso\", disse Thomaz Pereira, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, para quem o caso de Temer se assemelha não só ao de Lula, mas também ao de Eduardo Cunha, seu colega de partido no MDB, que patrocinou o impeachment de Dilma Rousseff e está hoje a cumprir pena de cadeia.
A última denúncia, relativa ao chamado caso do \"Decreto dos Portos\", refere-se à edição de um projecto de lei que ampliou por até 70 anos a concessão entre o poder público e as empresas ligadas ao sector. Essas empresas, segundo a denúncia, serviriam para os seus sócios captarem recursos ilícitos destinados a Temer.
A Procuradoria-Geral pede o pagamento de uma multa de mais de 32 mi-lhões de reais (cerca de sete milhões de euros) e a perda de função pública de todos os envolvidos, entre eles, além do actual Presidente, também está Rodrigo Loures, o assessor especial filmado a carregar uma mala de dinheiro num outro processo.
Esse outro processo, que se refere ao pagamento de subornos pela JBS, empresa cujo dono gravou Temer na cave do seu palácio oficial a pedir para manter mensalidades a Eduardo Cunha, e um outro que fala em 1,4 milhões de reais (mais de 300 mil euros) pagos pela construtora Odebrecht ao actual Chefe de Estado, são a segunda e a terceira denúncias contra o político do MDB. Estas duas foram rejeitadas em plenário da Câmara dos Deputados, ao longo do mandato de dois anos do sucessor de Dilma, mas agora estarão sob a alçada de juízes de primeira instância.

Além das três denúncias, correm mais seis inquéritos contra Temer, sob investigação em São Paulo, Brasília e no Rio de Janeiro, incluindo um que envolve Maristela Temer, uma das filhas.

São Paulo, Roma e Lisboa

Temer, que na transição para o Governo Bolsonaro se mostrou muito disponível e elogioso para com o sucessor, pode entretanto ser contemplado com cargo público e garantir imunidade. Para o cientista político Oliver Stuenkel, ouvido pelo portal Terra, \"fala-se da possibilidade de ele vir a desempenhar funções de embaixador em Roma\", o que o manteria sob foro privilegiado, \"mas é difícil que Bolsonaro, cujos eleitores esperam que se diferencie dos velhos políticos, o nomeie\". O Presidente eleito disse, a propósito, que \"quem não estiver devendo à justiça pode conversar\".
Para alimentar a especulação sobre o cargo diplomático, ajudou o caso em torno do terrorista italiano de extrema-esquerda Cesare Battisti, condenado a prisão perpétua no seu país e que Temer mandou extraditar nos últimos dias - uma medida que Bolsonaro prometera em campanha. Battisti, porém, está foragido.
Na imprensa, entretanto, amigos de Temer revelam que o político, após a passagem de testemunho, pretende trocar Brasília por São Paulo, dedicar-se à literatura - é autor da obra de poesia Anónima Intimidade - e emitir pareceres jurídicos. O jornal Folha de S. Paulo avançou mesmo que o Presidente brasileiro, um constitucionalista, havia recebido convite do homólogo português Marcelo Rebelo de Sousa, para leccionar em Lisboa.
Da boca do próprio Temer, no entanto, não se ouviu qualquer pista sobre o seu futuro. A não ser que vai sentir saudades de tudo no cargo, mesmo da sua proverbial impopularidade, traduzida no coro \"fora Temer\", com que costuma ser brindado.
\"Terei saudades até do \'fora Temer\' porque, pelo menos, era sinal de que eu estava lá dentro.\"


Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo