Opinião

Mexeu morreu (II)

Carlos Calongo

Jornalista

A escura madrugada cede, de forma muito tímida, o lugar à manhã, que se advinha muito cinzenta e nublada, capaz de dificultar a vida ao “pássaro de ferro”, que levará o chefe do Estado-Maior às zonas do Sul do país, a fim de cumprir, dentre várias, a missão de falar para a tropa em parada. O objectivo é elevar o moral do efectivo, tendo em atenção a operação de grande vulto que está na forja.

17/05/2022  Última atualização 07H35

As nuvens, em abundância considerável, não permitem que o rei sol mostre a sua força. Como uma  adolescente envergonhada perante as primeiras paqueiras de um ngombiri famigerado, as estrelas apresentam-se em quantidades reduzidas. Motores ligados. Tropa em prontidão. O chefe dá entrada no Quartel da Força Aérea , totalmente mobilizada, ao grito de firmeza do oficial dia, ladeado do  comandante daquele ramo militar.

-Unidadeeeee, firmeeeeeeeeee!.. O eco irrompe as casas dos moradores das cercanias do aeroporto, delimitado por arame farpado. Luanda está acordada, aliás a sua fama é de uma cidade madrugadora, com zonas que "não dormem”.

Comandante Nato Kaínga, um dos mais destemidos, experientes e craques pilotos do MI-8 é o aviador indicado para a missão. Aguarda-se o embarque do chefe do Estado-Maior, que está a passar as últimas orientações ao subordinado que nada mais faz senão acenar a cabeça em sinal de concordância e, quanto mais, dizer "ordem, meu general”, postura típica de quem, de facto, encarna o espírito de escola da vida que é as Forças Armadas.

-Ora bem, forte abraço. Despediu-se e o chefe, dando entrada no "pássaro” que está pronto para o levar à posição guarnecida pelos "muchachos do Comandante Imortal, que nem faz a mínima ideia de que a acção de limpeza da área, num raio para lá do orientado, lhe valerá a promoção ao grau de capitão, patente que, na altura, era muito rara e só repousava no ombro de uns poucos calejados comandantes de batalhão.

O universo de botões sob controlo da dupla de pilotos está operacional. Portas trancadas, o helicóptero começa a "tirar os pés do chão”, num espectáculo acrobático e agradável de ser visto.

Com o polegar em riste, o chefe do Estado-Maior ordena a recolha do pessoal, que não mais deve voltar às casernas, cumprindo o chavão militar segundo o qual "se o inimigo madruga, nós não dormimos”.

Pouco mais de duas horas, com um sol algo tímido, mas dando ar da sua existência, o MI-8 inicia as manobras de descida à posição militar controlada pelo mapa em mãos do co-piloto, que ao longo da caminhada ainda confundiu algumas posições, gafe que não foi atendida pelo Comandante Nato Kaínga, que tem os céus do sul de Angola, na palma da mão, como ele mesmo se gaba.

Pressionado pela força da hélice, o capim inclina-se em obediência a lei natural em que o mais fraco sucumbe ante o mais forte. Num raio de pouco mais de 30 metros é visível o cordão de militares bem aprumados, cartucheiras ao peito, metralhadora AK nas mãos, prontos para repelir qualquer tentativa que perigasse a presença do general Quinino,  recebido com a maior descrição e total protecção.

Na linha da frente está o ainda tenente comandante Imortal, que dentro de poucos minutos será capitão, patente a ser imposta como estímulo da boa acção que tem desenvolvido no controlo militar da zona sob sua jurisdição, que todos os dias recebe populares idos de várias partes, constantemente assoladas pelas forças hostis. Nas posições controladas pelo Imortal, a segurança, ao estilo de tropa, é um facto.

general Quinino, chefe do Estado-Maior, nem deixou que o Comandante Imortal fizesse às honras de casa. Com passos firmes dirigiu-se ao tenente e respondeu a continência. Tirou da pasta os passadores de capitão "na altura eram três estrelas brilhantes”, e os colocou sobre os ombros do comandante, com as seguintes palavras:

"Pela sua sagacidade, tenacidade, espírito destemido e de um verdadeiro valoroso combatente pela Pátria, eis o estímulo, bastante gratificante para a sua idade (23 anos)”.

-Não são muitas as pessoas que atingiram este grau com a sua idade, disse o chefe do Estado-Maior para o agora capitão, à quem perguntou se não tem nada para "lavar” as patentes.

-Isso é o que nunca falta meu general. Temos uma "matabela” de pacaça abatida pelos meus muchachos, mandioca e ginguba fervida, café torrado e, com todo o respeito Whisky tradicional (que na verdade é água do chefe ou, se preferirem, kaporroto da ponteira).

-Tudo a mercê do chefe, disse o agora capitão Comandante Imortal.

E lá foram para o interior do jango improvisado como salão nobre para receber a informação da situação operacional no terreno.

Sem muitas formalidades, típico dos militares, o chefe do Estado-Maior explica as razões da sua visita arriscada àquela região militar que o inimigo tem nas contas para tomar e asssim forçar um arranque para outras posições vantajosas, na ânsia de, se um dia haver negociações, e porque se fala que a guerra está no fim,  elas serem realizadas com base numa correlação de força a pender para as tropas hostís, situação que o Comandante Imortalrecusa-se aceitar, nos seguintes termos: "Só se passarem por cima do meu corpo, já em forma de cadáver, depois de cravadopor um mar de balas. Menos do que isso, nunca que never Eu sou o Comadante Imortal”.

-Até mesmo o chefe do Estado-Maior General não se conteve ao ouvir a destreza do Comandante, e perdeu-se em aplausos, acto seguido pela tropa, que entre assobios, palmas e danças, garantiam lealdade aos Chefes e à Pátria que as seus filhos não implora! Ordena. (Continua).

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