Opinião

Mexeu morreu (I)

Carlos Calongo

Jornalista

A maneira impressionante e bastante admirada como, desde a infância, driblou os desafios mais arrojados da vida, valera a Jacinto Filipe, o nome fictício, o apelido de “Imortal”, que evoluiu para “Nada é Impossível”, apenas conhecido pelos mais próximos que, na gíria lá do bairro, são os amigos de “dedo e unha”.

30/04/2022  Última atualização 07H55

Também conhecido por Man Jaci Filas, foi sempre uma referência para os amigos da sua meninice, adolescência e juventude, fases vividas entre os becos, largos, curvas, praças, bares e lagoas da parte mais rústica do município do Cazenga, que já foi tratada por Cazenga Popular, onde os irmãos Dilangue e David Zé, para além de tantos outros, também inscreveram os seus nomes e façanhas na lápide dos melhores filhos daquela banda.

Filho de uma cozinheira dos Caminhos-de-Ferro de Luanda, concretamente da Estação dos Muceques, num dos pontos de divisão entre os território do Rangel e Cazenga, Jacinto Filipe nasceu de um parto precoce, realizado aos sete meses de gravidez da mãe, facto que os seus amigos classificaram como o primeiro obstáculo driblado pelo kamba para quem tudo era possível.

Nem mesmo a percentagem de células falciforme que lhe foi diagnosticado em tenra idade, colocou impedimento na sagacidade e intensidade com que vivia a vida, enfrentando alguns riscos que, só por milagre, não o terão levado desta vida para a terra dos pés juntos,  de forma prematura.

Nas filas, aliás eram bichas, verdadeiras anacondas nos estabelecimentos comercias e de diversão, como eram os casos das padarias, peixarias, talhos, cinema e até mesmo da conduta em que se buscava a água, tão santa e indispensável à vida,  Jacinto Filipe sempre triunfou, conquistas que confirmavam, cada "dia nascido e morrido”, o seu apelido de "Nada é Impossível”, ou seja o que consegue tudo.

Conta-se que a sua ida a Cuba foi um acaso daqueles que ocorrem uma vez por século, por se dar numa circunstância em que tinha ido acompanhar o Matateu, amigo de infância, no embarque para aquele país da América Latina, beneficiando de uma bolsa do INABE na versão daqueles tempos em que reinava alguma desordem em certos sectores da vida social, e o aeroporto não foi excepção, Man Jaci Filas meteu-se também no avião, contando apenas 16 cacimbos, nenhum deles comemorado com bodas de rachar, conforme é moda nestes dias.

E assim mesmo bazou para as terras cubanas. Em solo pátrio de El Comandante Fidel, Jacinto formou-se  em táctica de guerrilha urbana e suburbana, obtendo a classificação excelente, com a recomendação dos "irmanos” para que, tão logo regressasse a Angola, fosse destacado na primeira linha dos campos de batalha nas províncias do Cunene e Cuando Cubango, em que eram travados encarniçados combates.

Nas referidas batalhas, mesmo naquelas em que caiu na armadilha do inimigo, Jacinto confirmou o apelido que ganhou na infância, tendo adoptado como nome de guerra, acrescido à função Comandante "Imortal”.

Sempre foi um osso duro de roer para as tropas adversárias. Quem tivesse o azar de chocar com a agrupação por ele comandada, a primeira coisa que fazia era tirar a farda, esconder as armas e embrulhar-se na população da aldeia mais próxima pois, enfrentar o Comandante Imortal era candidatar-se à derrota rápida que, em termos mais práticos,  é mesmo morte.

Estava-se no pico do conflito armado que dilacerou Angola. A época era de muita chuva, com trovoadas à mistura, que se confundiam com o ribombar dos canhões que, como cantou Matadidi, "Não metiam medo” ao Comandante Imortal.

É nesse clima que o comandante, forjado na atmosfera do Cazenga, recebeu a missão de limpar o perímetro de uma das bualas de Xangongo, pois o Chefe do Estado-Maior General iria visitar as tropas, a fim de elevar o seu moral, em vésperas de preparação de operação militar de grande envergadura, visando alterar, de uma vez por todas, a posição das tropas no palco da batalha, que pendia para o adversário.

Intimado a fazer um cordão de apenas 25 quilómetros, Comandante Imortal, mais do que cumprir a ordem com zelo e prontidão, alterou o raio de acção, dirigindo as operações num raio de aproximadamente 90 quilómetros, empurrando as tropas hostis para muito longe das posições guarnecidas pelos seus "muchachos”, conforme tratava os integrantes das brigadas sob seu mando.

Informado do sucesso da operação que deixou limpa e segura a zona, o Chefe do Estado-Maior General, admirado, ordenou a elaboração de uma ordem de patenteamento ao grau de capitão, com o qual iria "louvar” a tenacidade, coragem, espírito de entrega e bravura do Comandante Imortal, jovem de apenas 23 anos.

Com o rigor e disciplina típica das FAPLA, que fez dela uma escola da vida, o amanuense, em pouco mais de meia hora, irrompeu o gabinete do chefe, levando consigo a ordem e as dissapas/passadores/patentes, que seguiriam nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, marcado para a missão do Chefe do Estado-Maior General na zona de combate em que estava destacado o Comandante Imortal.                                                                                                                         (Continua)

 

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