Opinião

Meu pai, colega e grande amigo

Edna Cauxeiro

Poucos tiveram o privilégio de sentar-se na mesma carteira que o seu progenitor. Eu sou uma dessas. Faço parte do grupo restrito de filhos que já tiveram o pai ou a mãe sentados numa sala de aula consigo.

15/05/2022  Última atualização 06H45

Acredito que não seja a única. Ainda disse-me há dias a dona Josefa (Zé) Cauxeiro, minha mãe, que algumas vezes assistiu a aulas no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL) no qual concluiu, com êxito, o curso de Contabilidade e Gestão (COGEST), com a minha irmã mais nova, Djamila Elisandra, nos braços. E valeu a pena o esforço e determinação. Hoje a minha rainha é licenciada em Economia pela Universidade Agostinho Neto. Coincidência, ou não, anos mais tarde passei eu a levar a minha irmã às aulas de educação física, no período da tarde, no IMEL, onde fiz o Curso Médio de Jornalismo.              

Regresso, entretanto, à minha infância e ao meu progenitor, colega e grande amigo. O senhor Inácio Simão Cauxeiro Neto, que descansa junto do Senhor desde o ano 2000, era irmão gémeo de Joaquim Gomes Cauxeiro e um pai carinhoso.

Os primeiros meses da minha vida estudantil foram marcados por choros e pânico na hora em que ele me levasse a escola. Eu, simplesmente, me recusava a ficar sozinha. Queria-o ao meu lado do início ao fim das aulas. Provavelmente porque quando comecei a estudar, contou-me a minha mãe, já os meus pais estavam separados.            

Os encontros com o meu pai eram, portanto, uma oportunidade de usufruir um pouco mais do direito que me foi retirado pela vida: o de conviver diariamente com o meu pai. Talvez ciente disso, o Kota Inácio, como era tratado pelos jovens do Mártiris do Kifangondo, enchia os filhos de mimos. Sobretudo a sua quinta filha, que o amava mais que a tudo no mundo. Um amor recíproco.                           

Para não me deixar na escola a chorar, o meu pai se permitia entrar comigo para a sala de aulas, com a devida autorização do professor, e sentava-se na minha carteira. Assistia às aulas comigo e no fim levava-me ao seu trabalho, na extinta empresa Dinama.                

Na prática, fui colega dele em dose dupla. Na minha  escola e no trabalho dele.  Não me lembro quantas vezes isso aconteceu. Era muito pequena. Mas a minha memória tem registados os desenhos que eu fazia em folhas brancas A4, enquanto ele trabalhava. Eu interrompia-o constantemente para mostrar os desenhos. Mas ele, dono de uma paciência que nunca mais vi noutro ser humano (pelo menos comigo) sequer se zangava. Nos dias em que tivesse reuniões, mas não só, entregava-me ao cuidado de dona Aurora. Uma senhora que marcou-me pela positiva, fruto da maneira carinhosa como cuidava de mim na empresa em que trabalhava com o meu pai. Onde andará? Estará viva? Várias vezes perguntei a mim mesma. Sem resposta, só posso agradecer a Deus e ao meu pai por me terem colocado diante de um anjo em forma humana.                       A última vez em que vi dona Aurora foi no dia do funeral do meu pai, no ano 2000. De lá para cá passaram 22 anos. Inacreditável! Nesse dia estava triste demais para me lembrar de pedir o seu contacto e procurá-la posteriormente. Mas não me esqueço do facto de ela ter perguntado quem era a menina de quem cuidara anos atrás, a pedido do seu chefe e amigo. Onde quer que esteja, eterna gratidão, dona Aurora. Foi, de facto, para mim, uma "claridade visível no céu antes do nascer do sol e que indica o nascer do dia. A deusa do amanhecer, na mitologia romana”, tal como a ciência define o seu belíssimo nome. 

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