Opinião

Meu amigo Orlando e a amizade quântica

Manuel Rui

Escritor

Em Nova Lisboa, eu andava no Colégio D. João de Castro do professor Cabral, maçon convicto que tinha vindo para Angola a fugir de Salazar. Não pagava, meu pai compensava com serviços ao colégio.

16/09/2021  Última atualização 05H00
Do outro lado da linha do comboio, perto da casa do Sebastião Coelho, era o Colégio Adamastor, do "careca”, um ex-oficial português também anti salazarista que andava de bicicleta. Um dia caiu em desgraça e só tinha um aluno, Orlando Rodrigues a quem o "careca” ministrava todas as disciplinas, Orlando fazia as refeições com o diretor e a esposa, estudava em família, claro que fez um quinto ano exemplar até ir para  o 6º e sétimo a Sá da Bandeira.Um dia o sétimo ano de Orlando veio de excursão  de finalistas a Nova-Lisboa, foram experimentar os famosos pregos da pastelaria Diana, na Baixa, no prédio do alemão. O gerente expulsou um negro, era Jonas Savimbi, Orlando Rodrigues levantou-se e chefiou um motim e Savimbi ficou com os colegas. Mas eu só havia de conhecer o Orlando quando cheguei a Coimbra.

Ele vivia na "Republica dos Mil-y-onários”,fundada pelo Guerra Marques que havia de ser pai da nossa diva da dança, a Clara. Aquela casa, com biblioteca, violão, achar de manga de Moçambique, abrigando estudantes vindos do "Ultramar” quase serviu de modelo para a nossa de estudantes chegados de Angola, "O Kimbo dos Sobas.” Orlando, das conversas noturnas nas  férias. Contavam, o grupo do papo, ficou três dias e três noites a conversar, pararam para comer e fechar um olho, política, futebol, tudo foi falado e, quando se fez silêncio, Orlando terá perguntado: "e agora o que é que vamos conversar?” E por rapar os papos todos passaram-lhe a chamar Orlando Rapapo!Um dia o carro celular passou no Kimbo e fomos presos cinco. O carro já trazia da cidade do Porto uma jovem detida, depois passámos na casa do Orlando, esperámos. Finalmente o Orlando entrou na "ramona,” era assim que chamavam a uma carrinha com grades que nos levaria a Lisboa. Tal o cuidado do silêncio que só depois de sairmos da cadeia Orlando contou que meteu a papelada clandestina dentro das calças do pijama, amarrou-se num roupão e pediu para ir à casa de banho, fechou a porta à chave, começou a rasgar os papéis, puxou o autoclismo e a papelada não descia, "vamos depressa,” gritava o pide, "desculpe, é uma diarreia,” e Orlando foi empurrando com as mãos até não ficar nenhum pedaço de papel à vista. Se a PIDE tivesse apanhado aqueles papéis nem dá para pensar.  Em Lisboa, Luciano Cordeiro, sede da Gestapo tuga, medidas, fotografias, impressões digitais, em jejum. Avisaram:vem aí o diretor nacionalsó ele tratava de "terroristas”. Era o célebre Saqueti célebre em Coimbra contra a luta estudantil. Só de ouvir o nome eu tremi. Chegou e logo Orlando ergueu a voz "queremos saber porque é que estamos aqui presos.” Foi a coragem da ousadia, quase ameaço e Saqueti começou a rebentar o saco contra o "terrorismo.”

Na tortura do sono eu não confessei nem sabia. A PIDE queria apanhar a cabeça da cobra, mas a nossa organização clandestina funcionou. Só o Orlando sabia, de dentro da cadeia conseguiu pôr a irmã em campo e com a ajuda de um francês dar fuga à cabeça que era o Henrique Abranches. A PIDE perdeu e mandou-nos para a rua, sem atacadores e sem cinto para segurar as calças mas em consanguinidade, nossas veias eram, pela física quântica, vasos comunicantes.

Era dez de Novembro. Eu tinha a cabeça num  caldeirão. Com Carlos Rocha Dilolwa, retocávamos o texto da Proclamação da  Independência para Agostinho Neto ler no dia seguinte. Era um texto histórico. Não devíamos omitir quem nos invadia com os blindados de Mobutu. Mas também não queríamos manchar, em nosso entender, o texto com o nome da pessoa. Dilolwa roía as unhas e Orlando descobriu a fórmula: "aquele que por pudor aqui se não refere…”

Passaram os anos. O Orlando foi de serviço militar por imposição para Timor Leste. Levou a esposa, que por lá trabalhou no rádio clube. Orlando liberou o furriel Xanana Gusmãopara a rádio onde beneficiou da "conversa” ideológica.

Quando regressou de Timor, para concluir o curso foi delegado de propaganda médica, conversávamos com frequência e ele é que me falou no "fotógrafo orador.” Havia um tasco em Pombal, na curva, onde hoje se implanta um grande restaurante do arroz de tomate, nessa curva, Orlando fez um acidente com o fusca, fui a correr para o hospital da Universidade de Coimbra e tudo correu bem tirando a cicatriz na testa. Esquecia-me de dizer que Orlando era do Chinguar, terra à beira da linha do comboio que trazia peixe do mar em grandes caixas com barras de gelo, além da corvina seca de Benguela. O peixe era frito e guardado em escabeche que deu fama como a doçaria que os italianos levaram para lá e depois as meninas e senhoras mestiças aprenderam e espalharam por Angola a doçaria do Chinguar, terra dos morangos.

Um dia eu regressava dos Estados Unidos e parava em Lisboa para o lançamento de um livro na célebre libraria alemã que tinha a particularidade de deixar as pessoas sentar-se e ler, soube que Orlando estava na cidade do Porto hospitalizado. Fiz uma ligada para a esposa. Então não é que o Orlando se meteu a caminho com a irmã já médica experiente, com o  intestino de fora, casaco sobretudo e veio ao lançamento.

Perguntam porque falo assim de um amigo que eu fui visitar, esticado numa poltrona. Doente. Os lábios parados, de vez em quando um sorriso. Fui com o grande amigo da FRELIMO, Óscar Monteiro. Falei com os olhos dele e por detrás dos olhos. Na perda da minha mãe eu fazia esforço para não chorar, Orlando deu-me uma ordem: chora! Um dia estávamos em Hamburgo no tribunal marítimo, o juíz brasileiro armou-se dizendo que tinha acabado de conhecer o presidente português Jorge Sampaio, Orlando ripostou que também o conhecia mas da luta académica, a Reunião Inter Associações. Paulo Jorge, Pela Casa dos Estudantes do Império, encontrava -se com Sampaio, líder associativo, contou-me, na Almirante Reis em  Lisboa.

Aqui, faculdade de direito. Um aluno mais velho foi entregar a casa do Orlando uma caixa de uísque velho. Orlando levou a caixa na mala do carro. O aluno chumbou por não saber. Orlando chamou um empregado, chave do carro e para trazer uma caixa. "Leve, ofereço-lhe uma caixa de uísque.”Essa sala deveria ter nome: Sala ORLANDO RODRIGUES.

Vejo nos olhos do meu amigo que ele hoje não me deixa chorar. E fico a pensar naquele mais velho escritor brasileiro com noventa anos que me dizia conhecermo-nos fazia mais de mil anos, pela quântica, forças invisíveis do universo, o arco-íris só existe se houver observador, pensar é agir, o magnetismo entre as pessoas, os eletrões da nossa matéria, o princípio da incerteza, era isso que eu estava a sentir na fala por detrás dos olhos do meu amigo: os eletrões de uma amizade quântica, milenar.

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