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Meta global de fome zero até 2030 “mal encaminhada”

A meta global de erradicar a fome até 2030 está “perigosamente mal encaminhada” devido à “combinação tóxica” provocada pela crise climática, pela covid-19 e por conflitos violentos cada vez mais graves e prolongados, alertou hoje um relatório internacional.

15/10/2021  Última atualização 21H18
© Fotografia por: DR

"O progresso em direcção ao objectivo da Fome Zero até 2030, já demasiado lento, está a dar sinais de estagnação ou mesmo de ser revertido”, lê-se no Índice Global da Fome (IGF) de 2021, documento hoje divulgado que é elaborado anualmente pelas organizações não-governamentais (ONG) Welthungerhilfe e Concern Worldwide para analisar o estado da fome no mundo.

Os dados e as projecções do IGF apontam que o mundo como um todo - em particular 47 países, grande parte localizada na África subsaariana e no sul da Ásia -, não conseguirá atingir um baixo nível de fome até 2030, ou seja, a meta global da erradicação da fome, um dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 traçada pela Organização das Nações Unidas (ONU), estará comprometida.

"Conflitos, alterações climáticas e a pandemia de covid-19 - três das forças mais poderosas e tóxicas que impulsionam a fome - ameaçam destruir qualquer progresso que tenha sido feito contra a fome nos últimos anos”, sublinha o documento, frisando que os conflitos violentos, "que estão profundamente interligados com a fome”, não mostram sinais de abrandamento.

Em relação às consequências negativas das alterações climáticas, as ONG autoras do documento apontam que estas estão "cada vez mais aparentes e onerosas”, mas, segundo advertem, "o mundo não desenvolveu nenhum mecanismo eficaz para mitigar e muito menos para inverter essa situação”.

Já sobre a pandemia do novo coronavírus, que ainda marca o quotidiano a nível mundial, o relatório afirma que esta crise mostrou os quão vulneráveis são os países e as respectivas populações "ao contágio global e aos danos para a saúde, sociais e consequências económicas”.

"Como resultado destes factores - bem como de uma série de factores subjacentes, tais como a pobreza, a desigualdade, os sistemas alimentares insustentáveis, a falta de investimento na agricultura e no desenvolvimento rural, as redes de segurança inadequadas e uma má governação - o progresso na luta contra a fome mostra sinais de estagnação ou mesmo de retrocesso”, reforçam as ONG.

Apesar de o relatório mostrar que a fome global tem estado em declínio desde 2000, as ONG alertam que estes sinais "sugerem problemas futuros”.

"Em 2020, 155 milhões de pessoas encontravam-se em situação de grande insegurança alimentar, um aumento de quase 20 milhões de pessoas em relação ao ano anterior”, aponta o documento, advertindo que a desigualdade do estado nutricional das populações dentro dos países é generalizada e que há crianças a sofrerem "com dietas inadequadas e saúde deficiente em todos os cantos do mundo”.

Na análise das ONG, esta desigualdade persistente mesmo dentro das fronteiras dos países tornou-se mais premente devido às restrições de movimento e perturbações dos serviços associadas à pandemia ainda em curso.

"O impacto desproporcionado da pandemia sobre as pessoas pobres e vulneráveis está a agravar o fosso entre ricos e pobres”, vincam as organizações.

Entre os 135 países analisados na edição de 2021 do IGF (dos quais 19 não dispunham de dados suficientes), um país, a Somália, apresenta um nível de fome "extremamente alarmante”.

Em outros cinco países - República Centro Africana, Chade, República Democrática do Congo, Madagáscar e Iémen – foram identificados níveis alarmantes de fome.

A estes juntam-se o Burundi, Comores, Sudão do Sul e a Síria, países onde a fome é provisoriamente classificada como "alarmante”.

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