Desporto

Mendinho: “Lamento não ter ganho nenhum título no Interclube”

Com uma recepção marcada por muita emoção, a entrevista agendada com Mendinho, uma referência do futebol nacional, para falar das suas vivências como desportista, fez-nos recordar o programa 'Nação Coragem', pela forma comovente como fomos recebidos na sua residência. Com lágrimas nos olhos, agradeceu a nossa presença e com uma voz tremula disse: “obrigado senhor jornalista por se terem recordado de mim”.

08/08/2020  Última atualização 12H21
Kindala Manuel| Edições Novembro


Hoje, nas vestes de funcionário do Ministério do Interior, é o responsável do Desporto nos Serviços Prisionais. Formado na escola do Sporting Clube do Maxinde, foi com a camisola do Interclube que ganhou maturidade e atingiu o ponto alto da sua brilhante carreira, não obstante às passagens com notoriedade pelas equipas da Marinha FC e 1º de Agosto.

Contou que começou a dar nas vistas nos jogos inter-turmas na então Escola Emídio Navarro, no Bairro Rangel, catapultando-o para o mundo da fama. “Comecei a minha carreira oficial no Sporting Clube Maxinde do Marçal, onde joguei cinco épocas como juvenil, júnior e sénior. Em função da situação militar vigente no país fui para a Marinha FC, e logo em seguida o 1º de Agosto foi à minha busca”, referiu.

Enaltece e agradece a influência que “ a equipa do Maxinde teve na minha carreira, desde os escalões de formação, sob o comando de Sousa Neto, o 'olheiro que me viu a jogar na escola Emídio Navarro e falou com os meus pais. A partir daí foi o trampolim para projecção daquilo que foi a minha carreira no futebol nacional e internacional”, reconheceu.
Com um brilho nos olhos, considerou a “intromissão” do então técnico Severino Miranda Cardoso “Semica” na sua vida, como uma bênção de Deus. “Muito daquilo que sou hoje devo-o também a ele. Não foi apenas um treinador, mas sim um segundo pai, e não foi por acaso que foi o meu padrinho de casamento”, enalteceu.

“Recordo-me que, mesmo abrangido para o Serviço Militar Obrigatório (SMO), convenceu o falecido Comandante Orlogue para que jogasse mais uma época no Maxinde, o que não era fácil naquela altura. Além de treinador, era pai e um verdadeiro líder de homens”, destacou.
A passagem pelo então 'todo poderoso 1º de Agosto', ao contrário do que muitos podem pensar, não foi um mar de rosas. Confessou que as recordações não são muito boas, embora tenha ganho dois títulos de campeão nacional com a camisola rubro e negra (os únicos na carreira), e ter feito muitas amizades.

“Fui para o 1º de Agosto em 1981, onde joguei duas épocas, mas a última ficou marcada por muitos percalços, deixando-me bastante triste e muito em baixo. As oportunidades que davam aos outros colegas da mesma posição, e que não tinham o meu valor, mexeram comigo”, lamentou.
Despido de qualquer sentimento xenófobo, Mendinho evitou citar o nome dos técnicos, mas acusou-os de apostarem mais nos jogadores oriundos do Zaire, actual República Democrática do Congo, em detrimento de muitos bons angolanos e no auge das suas carreiras. “A aposta estava centrada nos colegas contratados na actual RDC”, sublinhou.

E como há males que vêm para bem, “com o surgimento do Interclube, acabado de subir a I divisão, o Comandante Quim Ribeiro foi à minha busca e, em seguida, recebi logo o apartamento de que tanto precisava, o que não aconteceu no 1º de Agosto, onde preferiram priorizar o N'suka e outra malta que vinha de fora”, recordou com certa mágoa.
Considera que o Interclube surgiu na jogada no momento certo e na hora exacta. “Não era justo que um atleta no auge da sua carreira, na altura tinha por aí 23 anos, fosse tratado da forma como o 1º de Agosto agiu comigo. São águas passadas e não pagam dívidas. Para a frente é o caminho”, defendeu.

“ O Interclube marcou a minha carreira, apesar de não ter ganho nenhum Campeonato Nacional com a camisola do clube do coração. Vivi momentos muito felizes, e tenho muitas boas recordações. Éramos um grupo muito unido, talvez por sermos poucos no balneário e tornávamo-nos mais próximos. Repare que, por vezes, o técnico não tinha hipótese de fazer substituições”, frisou.

Profissionalismo

Medinho, à semelhança de muitos craques da sua geração, despontou numa altura em que o sistema político vigente no país era o mono- partidarismo, e tudo o que faziam em prol da Nação era tido como um dever revolucionário.
Por culpa da política que vigorava, muitos bons e brilhantes atletas viram gorada a possibilidade de rumarem para o exterior em busca de melhores remunerações, antes da casa dos trinta anos, embora tivessem surgido depois algumas excepções.
“O falecido árbitro internacional Júlio de Aveiro, que Deus tenha a sua alma em descanso, quis levar-me para Portugal em 1981, mas eu não podia sair sem autorização, porque senão teria problemas no futuro. O Clube Nacional da Madeira estava interessado nos meus préstimos, mas acabei por continuar em Angola”, afirmou.

Com um semblante de quem ainda estivesse a viver este momento marcante na sua vida, acrescentou que volvidos alguns anos “viajei de férias e aproveitei para fazer os testes. Por sorte, aprovei. Mas, não me deixaram ficar. Alegaram a minha condição militar ”, deplorou.
“ Eles não desistiram. Quando fui jogar no Interclube continuaram a manifestar o interesse que eu regressasse, mas a situação manteve-se inalterável. Depois de várias épocas ao mais alto nível em Angola, quando completei 31 anos surgiu o Alverca, numa altura em que já havia uma maior abertura, isto em 1989”, recordou.

Mendinho revelou que aguardou com ansiedade a terceira oportunidade, que felizmente aconteceu, mas não gostou da forma como foi despachado. “Lembro-me como se fosse hoje, foi numa quarta-feira, logo após o jogo da última jornada do Girabola frente ao Sagrada Esperança, que vencemos por 2-1. Colocaram-me no avião, como se fosse um saco de fuba”, criticou.

Disse que o facto de ser um homem mentalmente forte, e a vontade de abraçar uma nova experiência na carreira tornaram-no mais valente. Defendeu que, se fosse mais cedo, não teria jogado na II Divisão, mas sim na primeira e talvez num dos grandes da Liga Portuguesa.
“ Cheguei a Portugal em Dezembro com muito frio, mas a minha adaptação foi fácil. Joguei três épocas no Alverca FC, uma cidade pequena onde até hoje continuo a ser muito querido, assim como os meus filhos. Por último, fiz um ano no FC Mangualde, uma equipa do Centro”, explicou.

“Malabarismo nos momentos de apuro”

A falsa confissão aos adversários nos momentos de “apuros”, em determinados jogos, era o drible que Mendinho utilizava com uma certa frequência para levar a melhor sobre o oponente, quando os recursos técnicos eram sobrepostos ao rigor táctico ou à superioridade contrária.
Defendia que, para vencer, todos os truques eram válidos, “menos colocar em causa a vida de outrem”.Foi com esta táctica “sui generis” que conseguiu nalgumas situações suplantar os concorrentes, mas as reacções dos colegas contrários nem sempre foram as melhores.
“A mais curiosa aconteceu no Huambo, num jogo frente ao Mambroa, e a vitima foi o Kota Mascarenhas. O jogo estava 0-0 e muito complicado. A única saída era dar uma mexida ao mais velho. ‘Kota estou rebentado e ele disse, eu também', confessou inocente do que vinha por detrás da sua honestidade.

“Em seguida fui ter com o capitão Raúl e disse-lhe 'lança as bolas do meu lado por que o Kota aqui está cansado'. Num dos lances ganho a linha do fundo, cruzo e o Mingo marca o golo. O mais velho ficou zangado e chamou-me de traidor, 'você afinal está bem e a correr muito, já não vais a minha casa'”, recordou com risos.
Admitiu que, apesar de terem ganho o jogo, sentiu que traiu a confiança de alguém que acreditou nas suas palavras. “Tive peso de consciência, mas é a vida. E como era uma rotina, quando fossemos jogar noutras províncias, no fim da partida ir a casa dos ex-colegas e amigos, o Mascarenhas anulou o convite e não me levou à sua casa”, contou.

Garantiu que em momento nenhum sentiu-se arrependido das malabarices que fazia, pois cada um defendia a sua dama em busca do melhor resultado. “Tinha outras façanhas, como dizer ao adversário olha os teus atadores podes cair e quando ele se agachasse para atar eu desmarcava e a bola era lançada para mim.  Eram truques muito bem combinados com os colegas”, revelou.
Recorda com emoção o emblemático 'trio maravilha' que deu muitas alegrias aos adeptos do Interclube. “Raúl, Quinito e Mendinho. Éramos uma marca no futebol nacional. Foram poucos os defesas que conseguiram travar este trio. A nossa combinação era simplesmente fantástica. Depois surgiram outras, com Túbia, Mingo, mas a primeira foi a mais perigosa”, sublinhou.

“O número oito era da sorte"

A força mental e a capacidade de motivar os colegas em campo quer nos momentos de tristeza quer de alegria, fizeram do antigo camisola número oito, dos clubes que representou, Sporting Clube do Maxinde, Marinha FC, 1º de Agosto, Interclube, Alverca FC e Mangualde FC, com excepção do Progresso Sambizanga, onde terminou a carreira e alternava a 4 e 6, um atleta ímpar.
O espírito de competição, capacidade de liderança, poder, responsabilidade e a busca incessante pela vitória, são atributos que representam o número oito, segundo a numerologia bíblica. “Com duas bolas escrevia o meu número da sorte”, risos.

“Fui sempre um incentivador para os colegas em campo e eles sabem disso. Mesmo em fim de carreira, dizia aos mais jovens, 'meus kandengues vamos correr porque é aqui onde sai o nosso dinheiro para comprarmos peixe, fuba e tomate para não faltar nada em nossa casa'”, motivava
“As pessoas que me conhecem sabem que sou sério e muito responsável, quando se trata de trabalho. O Túbia, o Mingo e tantos outros sabem disso. Nós jogamos num período em que, por vezes, o prémio era uma lata de leite Nido e mais algumas comprinhas que íamos à busca na Cantina da Polícia. Eu dizia, 'é pouco mas é nosso'”, recordou.
Com orgulho, diz que tudo que “consegui na minha vida foi graças ao desporto. Dizer que me sinto realizado, estarei a mentir, porque o ser humano é egoísta e quer sempre mais. Ainda assim, confesso que o pouco que tenho foi conquistado com muito sacrifício, e o que falta vou adquirindo aos poucos”, destacou.

Mendinho considerou a passagem pelo Progresso Sambizanga, clube onde terminou a carreira, como mais uma experiência que valeu a pena e agradece a direcção dos sambilas pelo convite. Reconheceu que, mesmo sem o fulgor do outro tempo, ainda ajudou a sua última equipa a competir ao mais alto nível diante dos adversários.
“Após o meu regresso ao país e a convite do Sr. Galvão Branco, na altura presidente do clube, ainda fiz uma ‘perninha' no Progresso Sambizanga. Devo dizer que aproveitei mais esta oportunidade, para transmitir a minha experiência aos mais jovens. E fui muito bem recebido”, avaliou.

“Regressei do hospital e marquei o golo da vitória”


Mendinho deixou as impressões digitais na galeria da equipa da Polícia. Entre momentos maus e bons, o antigo médio ofensivo que fez furor naquela que considera ser a sua equipa do coração, lamenta o facto de não se ter sagrado campeão nacional com o seu Interclube.
“Dei sempre o meu melhor no clube que marcou a minha vida como desportista, mas até hoje o que me entristece é o facto de não conseguir vencer nenhum Girabola. Fui três vezes vice-campeão, ganhei uma Taça de Angola e uma Supertaça, mas soube a pouco”, comentou.
No auge da sua carreira e forma desportiva os jogos frente ao Petro de Luanda continuam a ser os mais marcantes na competição doméstica, um pela positiva e outro pela negativa. Recorda como se fosse hoje de um episódio que considerou de caricato e talvez inédito.

“Foi num dérbi frente ao Petro de Luanda, jogo disputado à noite no Estádio dos Coqueiros, em que saio lesionado num choque com o lateral esquerdo N'sumbo. Fui levado ao Hospital do Prenda, onde me suturaram no sobrolho, com três pontos”, explicou com nostalgia.
Com um sorriso no rosto, disse que para o seu espanto “quando regresso ao estádio, o Mister Semica não mexeu na equipa e mandou-me entrar em campo, ante o protesto do banco do adversário. Minutos depois marco o golo da vitória e ganhámos por 2-1”, rematou.

Acrescentou que volvidos alguns dias no reencontro com o técnico António Clemente, na altura seleccionador nacional, os colegas do Petro chamaram-no de feiticeiro por aquilo que aconteceu no jogo. “Cara você é um feiticeiro, conseguiste nos ganhar e de uma forma estranha”, afirmou.
Confessou que o jogo que não gostaria de recordar foi a humilhante goleada sofrida diante do Petro, por 7-0. Disse que embora não tenha jogado, testemunhou a derrota nas bancadas, sem poder fazer nada ante a fúria do adversário e a fraca capacidade de reacção dos colegas.
“Metade da equipa titular estava em greve, porque não nos tinham dado os electrodomésticos prometidos. Sabe que naquela altura receber uma motorizada, arca ou um televisor era algo de extraordinário. Exigimos que nos dessem, caso contrário não jogaríamos e foi o que aconteceu”, sublinhou.

Salientou que, nem mesmo o facto do Interclube ser um clube afecto à Policia Nacional, os inibiu de exigirem o que lhes era devido. “A união faz a força. Depois de a direcção honrar o compromisso, fomos a Benguela impor um rigoroso empate a uma bola ao poderoso 1º de Maio, em pleno Estádio do Arregaça, onde na altura ninguém passava”, destacou.

Maldição de jogar na Zona IV

Sem remorso, mas com sentimento do dever cumprido, não obstante o seu potencial e poderio futebolístico, foi apenas cinco vezes internacional, ainda assim o suficiente para guardar boas recordações das passagens pelos Palancas Negras.

“Joguei na selecção ao lado dos melhores que o país teve no pós independência. Kota Garcia, Luvambo, Jesus, Ndungidi e tantos outros. A concorrência era forte, porque talentos é que não faltavam. Sinto-me feliz por ter jogado ao lado destas grandes feras e referências do futebol angolano”, exaltou.
Reconheceu que a sorte, aquele que por vezes acompanha os audazes, no momento em que os angolanos mais precisavam esta deu-nos as costas. “Faltou-nos sorte e melhores condições para alcançarmos melhores resultados nas competições africanas, quer a nível de clubes quer de selecção”, avaliou com bastante convicção.

Mendinho admitiu, por outro lado, que o facto de estarmos inseridos naquela altura da Zona IV pesou de que maneira nos resultados e, por conseguinte, no desfecho das campanhas nas competições africanas, ditando assim a nossa sorte.
“Tínhamos qualidade futebolística e talentos para ombrear de igual para igual com os nossos adversários, mas não era fácil travar selecções como as dos Camarões e ou Nigéria com as feras que tinham. Aliado a este factor, faltou-nos melhores condições”, comentou.

Reconhece que hoje o cenário é completamente diferente. “As condições actuais, postas à disposição dos atletas não têm comparação com as nossas. Tínhamos uma Casa dos Desportistas com bastante mosquito e lençóis em mau estado. Hoje o estágio é feito em hotéis de luxo. Ainda assim, foram momentos alegres”, avaliou.
“Na minha geração todos os atletas tiveram escola. Começaram nos escalões de formação e atingiram patamares que orgulham a todos. Repare que na década de oitenta tínhamos as Selecções de Esperança e de Seniores em todas as províncias e muito fortes, que jogavam entre si”, sublinhou.

Defendeu que todos os atletas que despontavam “eram seleccionados e tinham a oportunidade de justificarem a convocatória. Actualmente, o que é feito dos talentos que despontam? Os jogos entre selecções provinciais eram muito salutares e lançaram muitos atletas, o que permitiu os seleccionadores terem opção de onde ir buscar os melhores”, precisou.

Mendinho reconheceu que, não obstante os parcos recursos que o país dispunha, os dirigentes conseguiram massificar o futebol a todos os níveis e bairros. “Naquela altura, primeiro semeava-se. Por isso é que se colheram muitos bons frutos, mas hoje a realidade é outra”, referiu.
“Os dirigentes do outro tempo, se tivessem as condições que os actuais têm, acredito que os resultados seriam outros, quer a nível de selecções quer de clubes. Hoje estaríamos longe, mas a realidade que tínhamos travou em certa medida os projectos. Quero enaltecer a geração que conseguiu a inédita qualificação para o Mundial”.

Em gesto de remate final recordou a final perdida nos III Jogos da África Central, disputados no Congo Brazzaville, diante dos Camarões, em que Jesus aos 29 minutos falhou uma grande penalidade.
“O nosso prémio de jogo, se não estou em erro, seria uma motorizada, mas em conversa com os nossos colegas a recompensa deles foi monetária e foram muito bem remunerados”, comparou o desnível que havia em algumas circunstâncias.

Perfil

Nome
António Mendes da Silva

Data de Nascimento
4-3-1959

Estado Civil
Casado

Clube do Coração
Interclube

Cidade que mais gosta
Lubango

Títulos Conquistados
Dois títulos de campeão nacional pelo 1º de Agosto(80-81 e 81-82), uma Taça de Angola e uma Supetraça pelo Interclube

Ídolo
Assumane Mané do Liverpool

Ocupação nos tempos livres
Ouvir música em companhia da família e amigos

Cor preferida
O azul, porque representa para mim alegria e amor.

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