Cultura

“Memórias / soldado da pátria”: Por que recomendo a leitura do livro de Higino Carneiro

“Meu caro Higino Carneiro, Foi para mim uma surpresa, quando me pediste para apresentar o teu livro. Questionei-te porque não davas essa grande honra a um dos teus muitos companheiros de armas e disseste-me logo que as tuas memórias eram muito mais abrangentes, que cobriam toda as facetas da tua vida. Em homenagem à nossa amizade, aceitei prontamente o desafio e logo percebi que estas tuas memórias eram o teu retrato de corpo inteiro.

13/06/2021  Última atualização 11H04
© Fotografia por: DR
Li o teu livro com particular atenção e logo me entusiasmei numa longa viagem pela história de Angola desde as guerras contra a ocupação colonial na bacia do rio Kwanza até às terras de Ambaca, em finais do século XIX, aos combates de milhares de camponeses do Libolo contra a expropriação de suas terras originais, às guerras de libertação nacional, às batalhas que tivemos de enfrentar para preservar a soberania e a integridade territorial.

O General Higino Carneiro, com quem, nas sessões do Conselho de Ministros, coube-me sentar ao lado, dá-nos a ler o percurso desde a sua infância feliz em Calulo até aos dias de hoje. Desvenda-nos o soldado humilde que, valente e brioso, caminha contra ventos e tempestades até à vitória final. E a vitória, aqui, não é só o calor das armas, mas também a gesta a que se consagrou de corpo e alma para a reconstrução do país.

Quando estávamos juntos no Governo, via-te percorrer o país de lés a lés como "Ministro da Reconstrução Nacional”. Era imperativo restaurar a circulação de pessoas e bens da capital para todo o país e a ligação entre todas as sedes capitais de província e destas para os municípios e comunas.

No teu consulado, sob a orientação estratégica do Presidente José Eduardo dos Santos, foram reabilitados noventa mil quilómetros de estradas secundárias e terciárias, reconstruídas pontes e passagens hidráulicas, reabilitados aeroportos que estavam inoperacionais, construídas milhares de escolas, centros de saúde e hospitais, inúmeros viadutos, vários estádios de futebol, dezenas de infra-estruturas administrativas e económicas. Foi organizado, projectado e conduzido todo o processo de restauração dos grandes edifícios dos centros políticos e administrativos das cidades do Huambo, de Ndalatando e do Kwitu (Bié).

No teu consulado como "Soldado da Reconstrução Nacional”, sob a liderança do então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, ergueram-se, pela primeira vez em Angola, os principais projectos habitacionais e investiu-se na formação na China e no Brasil de mais de mil licenciados, sobretudo em engenharia.

O "Soldado da Pátria”, que o Povo passou a designar como "4x4”, foi intrépido, ousado e corajoso não só como militar, mas também como governante, diplomata e hábil negociador. Com efeito, o General Higino Carneiro, nas vestes de Embaixador, participou em inúmeras missões diplomáticas; tomou parte activa nas actividades que resultaram no reconhecimento do Governo Angolano pelos EUA, em 1993; esteve nas principais negociações que viriam a desembocar nos Acordos de Bicesse, no Protocolo de Lusaka e na conquista da Paz em 2002.

As memórias aqui reunidas em livro e a cuja apresentação vimos hoje testemunhar, levam-nos igualmente às acções que o General empreendeu no domínio da diplomacia económica. Nesse âmbito, deu o seu apreciável contributo na promoção das relações financeiras e comerciais com a China, numa altura em que nos faltavam recursos financeiros para viabilizar a implementação do Programa de Reconstrução Nacional.

Numa linguagem simples, estas memórias de Higino Carneiro são um contributo inestimável para a preservação da nossa memória histórica e colectiva. Fiel à verdade histórica, o General conta o que tem que ser dito ainda que tal incomode os que ontem remavam contra a maré. E revela, por exemplo, como foram dizimados no sul de Angola mais de 100.000 elefantes, como os nossos diamantes foram levados para Pretória e o marfim para Hong Kong, tudo num esforço para financiar a guerra que então se movia contra o povo angolano.

Com esta obra, o "Soldado da Pátria” dá o seu contributo à construção social da memória e à transmissão da memória social. Estas memórias ficam definitivamente registadas para a História, antes que o esquecimento tente apagar os trilhos dos bravos heróis da Pátria. Como disse há dias o Dr. João Lourenço, Presidente de todos os Angolanos, "a História não se apaga”.

O General Higino Carneiro, nestas páginas memoráveis, revela-se-nos para além de patriota, um bom chefe de família. E também um humanista pela solidariedade e apreço que expressa pelos companheiros de armas - os antigos combatentes e veteranos da pátria - para quem suplica que sejam criadas condições mínimas para que possam desfrutar de uma vida condigna em companhia de suas famílias e descendentes.

E esse humanismo não se confina aos patriotas angolanos como ele, mas toca igualmente os internacionalistas cubanos que combateram em Angola de armas na mão contra a invasão sul-africana e seus aliados internos. E recorda a bravura e o heroísmo do comandante Raul Arguelles, tombado na Grande Batalha do Ebo, em Dezembro de 1975.
Com eloquência, o "Soldado da Pátria” escreve com letras de ouro: "Não esquecerei nunca os que se bateram comigo nos campos de batalha”.

Recomendo vivamente a leitura desta obra, em particular aos historiadores e investigadores de outras disciplinas, por ser um valioso contributo à história política e diplomática.

Recomendo este livro aos jovens para que saibam quanto custou a luta pela Independência Nacional, quantas batalhas tiveram que ser travadas na segunda guerra de libertação, entre o 25 de Abril de 1974 e o 11 de Novembro de 1975, em defesa da integridade territorial e da soberania nacional; os sacrifícios que tiveram de ser consentidos para travar os invasores sul-africanos no Ebo, em Mavinga e no célebre "Triângulo do Tumpo”.

Os jovens precisam de saber que houve tempo em que a nossa integridade territorial esteve ameaçada quando a oposição militar tinha zonas sob seu controlo, quando a circulação pelo país só se fazia de avião, quando os acessos à capital do país pelo litoral e ao centro sul estavam fechados. Os jovens precisam de saber, como diz o poeta, "como se ganha uma bandeira” e quanto custou a liberdade.

Recomendo a todos os interessados em geral esta obra memorialística na certeza de que a memória do que fomos é indispensável para prepararmos o futuro. E termino esta apresentação recorrendo às palavras do "Soldado da Pátria” quando nos diz com justeza que "Ninguém constrói o futuro destruindo a memória do passado e ignorando a obra feita, que tantos sacrifícios custou ao povo angolano”. Tenho dito.”

* Escritor  membro da Academia Angolana de Letras. Texto lido no acto de lançamento do livro "Memórias / Soldado da Pátria”, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, no dia 03-06-2021

 Boaventura Cardoso |*

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