Entrevista

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Memórias de um fotojornalista que se notabilizou em coberturas de actividades políticas e desportivas

Um fotógrafo de imprensa polivalente e a todo o terreno, com mais de trinta anos no exercício do jornalismo, Rogério Tuty notabilizou-se nas categorias de política e desporto. O fotógrafo que trabalhou nas ruas de Luanda como ambulante, é detentor de três prémios de jornalismo, na categoria de Fotojornalismo

19/08/2020  Última atualização 11H11
DR © Fotografia por: Quer como homem, quer como profissional, Rogério Tuty é excepcional

Quando é que entra para a fotografia?

Entrei na fotografia incentivado por um primo, que trabalhava numa casa fotográfica na era colonial e que via a fotografia como arte. Comecei como aprendiz de laboratório no Estúdio Foto Quimuanga, no Negage, em Agosto de 1976. Em 1977, frequentei um curso de Fotografia por correspondência, na Escola ÁlvaroTorrão, com sede em Portugal.

Como era ser fotógrafo no período em que começou?

Nos anos 70, para que um indivíduo fosse considerado fotógrafo, precisava antes de aprender as técnicas de laboratório, devido à complexidade técnica do material na altura. No meu caso, só depois de dominar as técnicas de laboratório, o que levou três anos, é que passei à categoria de fotógrafo ajudante de estúdio.

Como o impressor normalmente é um indivíduo que se mantém no estúdio, comecei a fazer fotografia tipo passe na rua, no sentido de ganhar mais visibilidade. No Negage, fazíamos fotografia a preto e branco. Só no início dos anos oitenta é que se começou com as fotos a cores, mas estas eram impressas em Luanda, na Foto Filme, Carmona, Kodak e outras casas.

Na minha peregrinação como fotógrafo na província do Uíge, para além dos trabalhos de estúdio e de rua, reportei actividades desportivas, com destaque para os jogos de futebol. Os vários arquivos fotográficos das equipas, dos Construtores do Uíge, 21 de Janeiro, Clube Desportivo do Negage, assim como os cadetes do primeiro, segundo e terceiro curso de Pilotagem, na Escola de Aviação Comandante Bula do Negage, foram reportados por mim.

Em busca de novos horizontes como chega a Luanda?

À procura de novas conquistas, em 1985 entendi vir para Luanda mas, pelo caminho, na zona de Camabatela, fomos atacados pelas tropas da UNITA. Fui atingido com cinco tiros, tendo fracturado o braço direito e a perna esquerda. Fiquei internado durante seis meses no Hospital do Uíge e, depois de recuperado, decidi seguir para Luanda.

Em Luanda trabalhei no Estúdio Foto Filme, depois na Casa Feliz, actual Foto Ngufo, na Baixa de Luanda, onde permaneci apenas três meses. Na época, insatisfeito com o que ganhava, abandonei o estúdio, preferindo apostar na fotografia ambulante. Nas ruas de Luanda, fazia fotos nas empresas, unidades militares, bairro Hoji ya Henda e Ilha de Luanda, mas, em vez de dinheiro, cobrava alimentos em produtos não perecíveis como pagamento, que depois a esposa vendia-os no mercado, pois, era mais rentável. Para ganhar confiança dos clientes, fazia fotos a crédito.

Fotografava e o cliente só pagava no momento da entrega. Nos anos 80 não havia muitos fotógrafos nas ruas de Luanda devido ao custo do material e o seu manuseio. Contrariamente à época actual, estávamos na era da fotografia analógica, e naquela altura a fotografia era considerada uma arte criativa.Tirar fotografia era propriedade exclusiva de fotógrafos. Depois de ganhar a confiança dos clientes, passei a ser contratado para a cobertura de casamentos e aniversários. Depois de um ano a trabalhar duro como ambulante, nos vários pontos de Luanda, voltei a sentir dores fortes no braço e na perna em que tinha sido alvejado com tiros durante o ataque, e nessas condições tive de procurar um trabalho fixo.

Depois da fotografia ambulante, como é que ingressa no Jornal de Angola?

Em 1986, ingressei na Revista Novembro, na altura o chefe de Redacção era o Mário Campos, já falecido. O fotógrafo Lousada foi quem me fez o teste de laboratório fotográfico. Na Revista Novembro, trabalhei como fotógrafo de estúdio e impressor. Um ano depois, fui enviado ao Jornal de Angola para um estágio de seis meses.

Logo no primeiro dia deparei-me com uma situação que tirava sossego à Redacção. Na época, José Ribeiro, chefe do Departamento Informativo e Pedro Salvador, fotógrafo já falecido, tinham feito uma entrevista exclusiva ao ex-Presidente José Eduardo dos Santos, mas no acto da revelação as fotos saíram com mancha na testa. Tirar a mancha foi a condição que me foi atribuída como teste para ser admitido como estagiário. O impressor principal era o respeitado mais velho Pedro de Oliveira, a quem chamávamos de Avô. O director geral era Adelino Marques de Almeida e David Mestre chefe de Redacção.

Usando as técnicas de dez anos de experiência que obtive em trabalho no laboratório, em menos de uma hora tinha as fotografias da entrevista feitas sem manchas. Esta acção na altura foi tida quase como um milagre e a direcção do Jornal de Angola entendeu integrar-me como funcionário efectivo a partir daquele dia. Encontrei na altura os fotógrafos Pedro Salvador, então chefe da área, Almeida Tota, João Gomes, Paulino Damião (50) e Lousada.

A sua carreira ficou marcada pela cobertura de actividades políticas e desportivas. Como é que conciliava o seu tempo?

Em termos de coberturas, fui um repórter fotográfico polivalente e a todo o terreno. No tempo em que entrei, só existia o Jornal de Angola, generalista, que abordava todas as categorias de fotojornalismo, desde política, sociedade, cultura, desporto.Os restantes títulos apareceram mais tarde e o repórter fotográfico tinha de se adaptar a tudo.

Em 1987, o Jornal de Angola só tinha uma viatura de marca Land Rover verde que servia para a recolha dos jornalistas e que também era usada para as reportagens. Devido à fraca remuneração e o momento democrático que se avizinhava, no início dos anos 90, o Jornal de Angola sofreu desfalque com a saída de vários jornalistas que emigraram para outros órgãos, como a Lusa, Voz da América e outros órgãos, mas nós aguentámos.
Na véspera das eleições de 1992, o Jornal de Angola destacou, numas das suas capas, uma foto em que Jonas Savimbi, no seu primeiro comício realizado no largo 1º de Maio, em que parecia estar a sacar a pistola.

Na altura das eleições em 92, fiz inicialmente a chegada do Dr. Savimbi a Luanda, no aeroporto 4 de Fevereiro e em seguida o primeiro comício no largo 1º de Maio. A famosa foto estampada na capa do Jornal de Angola no dia seguinte, derivou do sentido de oportunidade do fotógrafo Luciano, um dos elementos que integrou a nossa equipa de cobertura das eleições. Estava nesse dia e a foto em que Savimbi aparece com as mãos em direcção à pistola não foi montagem, como na altura se dizia.

Tratou-se simplesmente de uma perspectiva estética, que aconteceu quando ele, num movimento espontâneo, procurava endireitar o cinto que trazia o colder da pistola. A linguagem fotográfica tende para os níveis da objectividade e subjectividade e, neste caso, cabe ao leitor interpretar da maneira possível. Só que a leitura subjectiva feita por algumas pessoas na época fazia crer que o homem estava mesmo a sacar a pistola em pleno comício.

Como estavam distribuídos nas eleições de 1992?

Durante as eleições as equipas de jornalistas por norma são distribuídas pelos partidos políticos e devem reportar as suas campanhas. Nas eleições de 1992, fiz parte da equipa constituída por Luísa Rogério, Diogo Paixão, Garrido Fragoso e fomos indicados para acompanhar os candidatos José Eduardo dos Santos (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA).

Durante a campanha eleitoral viajei por 17 províncias com o candidato do MPLA e doze com o presidente da UNITA. No Moxico, Luena, em companhia do jornalista Pandi Santana, vivenciámos algo que nos traumatizou nesse dia. Durante o comício da UNITA, um jovem foi brutalmente linxado por ter aparecido no local com um chapéu do MPLA. No Soyo, na companhia do Diogo Paixão, fomos fortemente maltratados, acusados de fornecermos informações ao partido MPLA e obrigaram-nos a reportar somente o que pretendiam.

Que coberturas de relevância marcaram a sua carreira na política?

Já em 1988, fui adaptado ao desporto e à política, começando a partir do Futungo de Belas, e só em 2007 é que passei a repórter permanente da Presidência da República com a categoria de editor. Tive várias coberturas de relevância, mas, a nível internacional, tenho em memória o momento em que entrei na sala oval da Casa Branca em Washington, em Maio de 2004, por ocasião da visita do ex-Presidente José Eduardo dos Santos aos Estados Unidos da América.

Nessa missão, fui com o Caetano Júnior, na altura editor de Política, actualmente administrador para a Área de Conteúdos da Edições Novembro EP e director adjunto do Jornal de Angola. Por norma, nas audiências onde se encontram dois Chefes de Estado, por questões de segurança, as coberturas são restritas a fotógrafos, câmaras presidenciais e de imprensa, os restantes jornalistas prosseguem nas coberturas de continuidade, como entrevistas e reportagens nos locais em que o Presidente efectua visitas depois da audiência. O fotógrafo do Presidente nesta missão foi o Bernardo Sobrinho, já falecido.

Logo à entrada, constatou-se um problema com o seu passaporte, e tive que substituí-lo. No encontro entre José Eduardo dos Santos e George Walker Bush, só tiveram acesso fotógrafos, um de cada lado. Foi tudo muito rápido, os meus dedos tremiam e quase não conseguia apertar o obturador. Senti satisfação no rosto do ex Presidente ao aperceber-se que havia aí a imprensa angolana a testemunhar o aperto de mão com Bush, pois, ficámos a saber que em Angola, nessa altura, alguns deputados da oposição haviam desencadeado uma campanha para desacreditar o encontro. Mas, a foto estampada na capa do Jornal de Angola no dia seguinte caiu como um balde de água fria, dissipando desta forma as dúvidas.

Como actua a imprensa em missões presidenciais?

Pela experiência de mais de trinta anos de fotojornalismo, dos quais quase centenas de viagens presidenciais nos vários pontos do globo, devo dizer que a presença da imprensa na caravana presidencial, para além de servir de testemunha dos acontecimentos, constitui, em certa medida, o segundo grupo de segurança da presença do Chefe de Estado em solo estrangeiro e, aliás, passa a ser um sentimento que cada jornalista encarna, pois, o sucesso da visita reflecte-se em todos.

Nestes casos, a imprensa viaja com antecedência de três dias e isso mexe directa ou indirectamente com o visitado. Quando o país a ser visitado se apercebe da presença da imprensa que acompanha a caravana, os cuidados são milimétricos, sobretudo no que diz respeito à imagem. Por norma, no primeiro e segundo dia, a imprensa in loco, depois de ser acreditada, em seguida radiografa o programa e as previsões da missão do Chefe de Estado e desta forma os serviços de informação da Embaixada do país a ser visitado ficam confortados com o desempenho da imprensa. Por isso é que em alguns jogos que as equipas angolanas participavam, os anfitriões não deixavam entrar a imprensa, sobretudo o câmera e o fotógrafo, ou só deixavam entrar no segundo tempo, depois de já terem manietado o adversário.

Durante o tempo que andou no jornalismo teve problemas com colegas?

Felizmente não tive tantos problemas de relacionamento, porque desde muito cedo aprendi que o repórter fotográfico orienta-se pela pauta jornalística e, por sua vez, deve cumprir com as técnicas do fotojornalismo. Em reportagem, deve-se andar em espírito de equipa com o colega redactor, pois, em coberturas jornalísticas por norma a visão textual é do colega de texto, e nisso, deve haver comunicação entre ambos.

O repórter fotográfico não deve ser visto como um complemento do trabalho jornalístico, mas sim como parte do jornalismo. Uma equipa de jornalistas em reportagem por norma é composta por repórter redactor e repórter fotográfico. Acontece que o redactor informa os acontecimentos a partir das palavras (texto), enquanto o fotógrafo de imprensa o faz na vertente visual (foto), trabalhos que se unificam nas páginas numa só notícia -com texto e foto.

Como descreve a retirada - que acompanhou - das tropas angolanas da Guiné-Bissau?

Nesta missão, estava com o colega Bernardino Manje. A MISSANG foi estabelecida ao abrigo da ajuda ao povo irmão da Guiné-Bissau que vivia um momento de crise política. A ajuda angolana incluía o desarmamento militar, reorganização administrativa, formação técnica, reparação de quartéis militares e esquadras policiais, assim como a formação de efectivos em instituições militares e policiais em Angola.

A conclusão da retirada do último contingente aconteceu a nove de Junho de 2012, e os militares angolanos deixaram Bissau com um forte dispositivo de segurança da missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que substituiu a MISSANG na defesa e segurança da Guiné-Bissau. O tenente-general Gildo dos Santos, comandante da MISSANG, disse, na hora do adeus, que o efectivo da MISSANG saía de Bissau com o sentido do dever cumprido, desejando paz e progresso ao efectivo das Forças de Defesa e Segurança da Guiné-Bissau, incluindo os golpistas.

A forma como os guineenses contestaram a saída das tropas angolanas foi tão forte que até comoveu a comunidade internacional. Houve guineenses que pediam aos soldados angolanos para que os levassem consigo, provavelmente devido à atenção que os angolanos tiveram com o povo irmão.

O momento parecia mais de um salvador a se despedir do seu povo. Para os guineenses, com a saída da MISSANG, começava o sofrimento de muitos, pois, havia guineenses que trabalhavam no Estado-Maior da MISSANG e perderam o em-prego com a interrupção da missão. Um soldado das tropas angolanas, em plena missão, contraiu matrimónio com uma jovem guineense e na retirada, trouxe-a para Angola. O Jornal de Angola na época passou uma fotoreportagem que espelhou pessoas a chorarem durante a despedida dos soldados angolanos.

Qual foi a tua estreia em coberturas desportivas?

Em 1990, em companhia de António Ferreira (Aleluia), já falecido, fomos indicados para cobrir o Mundial de Basquetebol na Argentina. Era a minha primeira viagem de serviço ao exterior e como sofria de gastrite, não podia comer no avião. Durante a viagem, o Aleluia, que tinha um grande sentido de humor, ao aperceber-se que eu tinha negado a comida servida pela hospedeira do avião, fez questão de, no gozo,dizer-me que “a comida servida no avião não era para ser paga e que podia comer à vontade”. Em Buenos Aires, na quadra dos jogos, eu era o único fotógrafo negro a reportar os jogos.

Era bastante importunado porque quase todos os jornalistas queriam tirar fotos comigo. Na quadra de jogos virei atracção para cadeias de televisão e jornais. Na segunda presença em mundiais, Angola teve uma participação aceitável, alcançando em oito jogos três vitórias, até então o seu melhor registo em provas do género.

“Ficava aos gritos a clamar por golo”

Como foi testemunhar o apuramento de Angola ao Mundial da Alemanha?

O dia 8 de Outubro de 2005 mudou de forma marcante a história do futebol angolano. Embora estivéssemos a jogar no terreno do adversário, nesse dia pairava o clima de confiança no seio da imprensa angolana presente no Estádio Amahoro, em Kigali, Rwanda. Acreditávamos na vitória e na qualificação dos Palancas Negras ao Mundial de Futebol da Alemanha 2006. Em partidas de futebol, por norma o repórter fotográfico posiciona-se no lado da baliza que a sua selecção ataca.

Nesse dia de sábado, o Estádio, com capacidade para 25 mil pessoas, estava engalanado por excursionistas angolanos, a emoção tomou conta de todos. Nos momentos em que os Palancas invadiam a pequena área dos rwandeses, a ansiedade era tanta que, em vez de "engatilhar" a máquina, ficava aos gritos a clamar por golo. Foram precisos 84 minutos para os Palancas Negras virarem o jogo, no qual a Nigéria, em sua casa, estava em vantagem diante do Zimbabwe.

O cruzamento de Zé Kalanga valeu o cabeceamento de Akwá, que rubricou o golo na baliza dos rwandeses e Angola venceu por 0-1. A nossa selecção terminou no topo do grupo IV da zona africana de apuramento ao Mundial e CAN de 2006, com 21 pontos, os mesmos que a sua similar nigeriana, que venceu o Zimbabwe por 5-1.Seguiu-se o clima de festa dentro do relvado, palco que presenciou o feito mais importante do futebol do país, que durou aproximadamente uma hora, já que os excursionistas invadiram o estádio para saudar os seus heróis.

Neste jogo histórico estava na companhia do jornalista Honorato Silva e, se tivesse que atribuir o “prémio de sentimento patriótico”, eu daria a ele. Desde a nossa chegada ao Rwanda, alimentou sempre a crença na vitória de Angola sobre os rwandeses. O momento foi tão emocionante que no final do jogo, enquanto eu editava as fotos, ele escrevia o texto lacrimejando, ninguém conseguia acalmar o Honorato. Ele dizia ser o choro de um angolano orgulhoso pela sua Pátria. Naquele momento não consegui segurar a emoção e as lágrimas de satisfação começaram a escorrer também no meu rosto.

O sentimento nutrido em Kigali funcionou na Alemanha?

No jogo de estreia com Portugal, tinha consciência que os Palancas Negras iriam dar o seu melhor, porque naquela altura, o Figo e Pauleta estavam em boa forma e o Ronaldo estava a emergir. Para além do futebol, Angola investiu em grande medida do ponto de vista cultural e na gastronomia. Sabe-se que os mundiais de futebol têm a capacidade de juntar povos de várias origens, passando a ser um encontro de diversidades culturais.

Antes e depois de cada jogo, os excursionistas estrangeiros cruzavam com os angolanos, conviviam e tiravam fotografias para a posteridade. A equipa de jornalistas do Jornal de Angola foi liderada pelo então director geral, Luís Fernando, actual secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e de Imprensa do Presidente da República.

Em coberturas desportivas sempre me apresentei com vestes similares a dos militares "comandos", do chapéu às botas, com um aparato de material fotográfico de quase trinta quilos de peso, desde teleobjectivas de longo alcance, lentes diversas, flashes, cantil de água na cintura e mochila. É uma marca criada por mim e sempre atraiu turistas, órgãos de comunicação e até jornalistas estrangeiros, por onde passei. No percurso para os jogos, a nossa caravana teve de ser interrompida várias vezes, porque jornalistas e indivíduos de diferentes nacionalidades paravam-me para tirar fotos.

A Selecção Nacional de Angola no Mundial de Futebol da Alemanha esteve inserida no Grupo D, disputando a primeira fase com Portugal, Irão e México. No dia 11 de Junho de 2006, os Palancas Negras perderam por 0-1 diante de Portugal, na estreia da competição, em Colónia. Em 16 de Junho, no Estádio de Hannover, empatámos a zero diante do México. O último jogo contra o Irão, a 20 de Junho no Estádio de Zentralstadion, Leipzig, os Palancas voltaram a empatar (1-1), com golo de Flávio Amado, o primeiro angolano a marcar um golo numa fase final do campeonato do mundo, enquanto Zé Kalanga voltou a ser o autor do cruzamento, tal como no golo da qualificação no Rwanda.

Trinta anos depois vai à reforma, que caminho a seguir?

O desejo de seguir o caminho do evangelho nasceu desde muito cedo. Mesmo a trabalhar no Jornal de Angola, sempre frequentei a igreja. Enquanto adolescente pertenci à Igreja Evangélica Reformada de Angola (IERA) no Uíge, no Dimuca, onde fui responsável de grupos corais. Em Luanda, passei a frequentar a Igreja Assembleia de Deus Pentecostal, sede Maculusso, onde casei e fui consagrado a diácono em 2005. Em 2012, já na Igreja Pentecostal Combatentes na Fé, frequentei o curso bíblico para pastores, na escola Gamael, sobre responsabilidade do Instituto Bíblico de Angola (IBA), onde também fiz o curso de Teologia.

Depois de exercer com êxito durante três anos as funções ministeriais do evangelho, em 2013, fui consagrado pastor. Actualmente sou pastor na Igreja Pentecostal Combatentes na Fé, onde exerço também as funções de secretário geral da igreja, conselheiro geral, líder da Sociedade de Homens, conselheiro de casais e responsável do coral de homens e director de Gabinete de Missões. O segredo para servir a Deus reside na obediência às Suas leis e a entrega total de corpo e alma. Ter uma mulher de fé que ajuda o ministério do homem de Deus é um grande suporte.

Que lição carrega ao longo dos 35 anos de fotojornalismo?

Sempre disse às pessoas que o jornalismo não dá dinheiro, mas deu-me oportunidades e indicou-me caminhos para vencer na vida. Conservo no meu escritório centenas de credenciais das coberturas internacionais que fiz nos vários pontos do mundo. Conheci vários países, fiz muitas amizades com gente que provavelmente jamais voltarei a ver, mas que carrego na memória. Entre as várias coberturas feitas, ao nível desportivo, destaco os campeonatos africanos de futebol, Afrobásquetes, Mundial de Andebol, Mundial de Futebol e de Basquetebol.

A nível da política, aponto as cimeiras da OUA e da ONU,visita do Presidente ao Vaticano, cobertura do lançamento do Angosat, na Rússia, e várias outras visitas presidenciais em vários pontos do mundo. Cobri o Girabola e todas outras modalidades ao longo do exercício do fotojornalismo. Ao longo de vários anos, servi como fonte de trabalhos de investigação de estudantes universitários que sempre quiseram saber sobre a história da fotografia angolana e do fotojornalismo no contexto do Jornal de Angola.

Profissionalmente, saio de cabeça erguida e com o sentido de dever cumprido, sustentando-me com a máxima do apóstolo Paulo que diz, na sua palavra: “Combati um bom combate, acabei a carreira, guardei a fé e desde agora, a coroa da justiça me aguarda”.

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