Entrevista

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Médico faz abordagem sobre ambiguidade sexual

Alguns anos depois de, à nascença, lhes terem sido determinado o sexo, por sugestão da comunidade científica, com a aprovação dos pais, os agora adultos, na África do Sul, sentem-se revoltados e indignados com as decisões tomadas. Nalguns casos, pessoas a quem foi atribuído o sexo feminino continuam a sentir-se homens e vice-versa. Em entrevista, em Joanesburgo, para o Jornal de Angola, o Dr. João da Fonseca, médico-cirurgião luso-sul-africano, falou da sua experiência em operações para separação de bebés siameses, esmiuçou o conceito de medicina regenerativa e o projecto que tem a respeito. Fez ainda abordagens sobre a ambiguidade sexual, a determinação ou atribuição de sexo a recém-nascidos e como essas operações eram realizadas na África do Sul

14/12/2019  Última atualização 08H54
Edições Novembro © Fotografia por: CirugiãoI João da Fonseca

Pode começar por ajudar-nos a compreender a questão em torno da desqualificação, pelo Comité Olímpico Internacional (COI), da atleta sul-africana CasterSemenya, alegadamente por ter elevados índices de testosterona :

Esta é realmente uma grande temática que veio ao de cima na África do Sul e em todo mundo. Apesar do sexo feminino, a atleta sul-africana Caster Semenya é portadora de níveis de testosterona muito altos, próprio de um ente do sexo masculino. Presumo que ela tenha (não sei, nunca a examinei) uma ambiguidade sexual em qualquer uma das variantes, masculina ou feminina. Casos como o dela em bebés recém-nascidos tive imensos ao longo da minha vida clínica e como cirurgião. Eu fazia parte de uma equipa que se chamava clínica do Intersexy, que funcionava no meu hospital, o hospital de Paraguana, onde, ao longo de muitos anos, acompanhámos muitas pessoas com esse tipo de problemas.

Existem resultados concretos em relação a esse acompanhamento?
Esta é uma pergunta interessantíssima, para a qual não existem ainda grandes respostas. Quando era mais jovem e interno de Cirurgia Pediátrica, altura em que comecei a me interessar por esses casos, o que acontecia a essas crianças que nasciam com ambiguidade sexual e o que a ciência ditava era aconselhar aos pais que elas fossem investigadas, por formas a lhes ser atribuído um sexo, baseado numa série de parâmetros biológicos, análises de sangue, níveis de hormonas femininas ou masculinas, caracteres anatómicos dos genitais dos doentes, da presença ou ausência de tecidos testicular ou ovárico na criança dentro do abdómen. Enfim, uma série de parâmetros que eram avaliados, incluindo os genéticos, de cromossomas do tipo masculino ou feminino.

Como é que era determinado o sexo a atribuir a cada criança?
Com base nesses parâmetros, escolhíamos um sexo para dar à criança, já que externamente ele não tinha a definição se era rapaz ou rapariga e procedíamos a correcçãocirúrgica, retirando mais tecido do clítoris, se fosse superdesenvolvido, no caso de se constatar que aquela criança seria melhor servida se fosse do sexo feminino. Ou tirava-se o tecido produtor de testosterona, naquilo que se chama ovo testeis, que são glândulas mistas que estão dentro do abdómen, habitualmente não descem, e que são parte ovário, parte testículo. Portanto, tirava-se a parte que não correspondia ao sexo que se iria atribuir à criança.

Mas o que pensa a sociedade sul-africana em relação ao assunto?
O assunto veio novamente à imprensa. Mas o que acontece é que não existe um consenso em relação ao mesmo. O problema que se põe é que, ao longo destes anos, o que era, na altura, esse sexo, com que a criança iria viver o resto da vida, era uma atribuição. Era o consenso na altura, feito tão cedo quanto possível. Tornava-se uma urgência cirúrgica adaptar essa criança antes do primeiro ano de idade, quanto mais cedo melhor, se possível dentro dos primeiros meses, de maneira a que a criança fosse criada como rapaz ou rapariga, de acordo com o sexo que lhe tivesse sido atribuído, por consenso. Não eram só os médicos que decidiam.

Consenso?
Antes da atribuição do sexo, para além da autorização dos pais, a decisão final passava pela aprovação de uma vasta equipa multissectorial, integrada por médicos, sociólogos, psicólogos e os assistentes sociais.

Nunca houve reclamações das pessoas que foram submetidas a esse tipo de operações?
No início estava todo mundo satisfeito. Íamos fazendo as transformações necessárias. Até que as crianças começaram a crescer e a se tornar adolescentes. Quando atingiram esta fase da vida, começaram a se mostrar extraordinariamente insatisfeitas com o sexo que tinham, que, obviamente, não era delas. Tinha sido dado por aquela equipa vasta. Havia raparigas que eram tratadas como raparigas e elas contestavam, dizendo "eu não sou rapariga, sou rapaz. Eu gosto de raparigas, gosto de mulheres. Eu não quero ser rapariga, sou rapaz"

E o que é que aconteceu depois?
Começaram a aparecer os erros, que era um ajustamento inadvertido por nós, naquela altura, em face daquilo que se sabia, que nós pensávamos que sabíamos, mas afinal não sabíamos nada. Essa é uma das coisas que a medicina tem, que nos faz humildes, constantemente e cientes de erros tremendos. Porque essas crianças mostraram-nos que estávamos completamente errados. Como acontece em qualquer parte do mundo, existe na África do Sul uma associação de pessoas com ambiguidade sexual, o que considero um campo de investigação altamente fascinante.

Isso explica, por exemplo, uma pessoa ser gay?
Não sabemos! Até hoje, não existe uma razão biológica que determine que aquela pessoa é Gay.

Serão desvios?
Não sabemos!. Desvios porquê? Muitas destas crianças, agente sabe, em retrospectiva, que, desde cedo, não se conformavam com o estereotipo de um rapaz, por exemplo. Eram crianças efeminadas, que preferiam brincar com bonecas, em vez de carrinhos, e quando cresciam eram gays. Porquê? ninguém sabe!

O que é que dizem os estudos científicos em relação ao assunto?
O problema é que, ao longo dos anos, esta investigação tem continuado intensivamente e até agora continuamos a não saber por quê é que as coisas acontecem assim.

Podemos falar de cura?
É evidente que é impossível tratar uma doença, se não tivermos um diagnóstico preciso em relação a mesma. O que acontece é que - e isso foi uma alteração fundamental - quando eu era jovem cirurgião pediatra, o que eu aconselhava àqueles pais e o que a comunidade científica internacional determinava era que fizéssemos a transformação da criança para o sexo que iria ser definido por nós, os pais da criança e a comunidade científica, o mais cedo possível, para não dar tempo à criança de criar para si os prototipos de sexologia masculina ou feminina.

Continua a ser realizado esse procedimento?
Hoje em dia já não fazemos esse tipo de operações, devido à pressão que nos foi imposta pelos próprios doentes. Continuamos a fazer as investigações, procuramos ter tantos parâmetros quantos possíveis em relação à determinação que vai haver do ponto de vista de aconselhamento médico. Mas esperamos que estas crianças cheguem até à adolescência, já numa fase quase adulta, para nos dizerem como é que realmente se sentem e o que realmente querem ser, se mulher ou homem. Mas só operamos muito mais tarde e nunca mais fizemos operações em recém-nascidos, como fazíamos anteriormente.

Havia angolanos entre os recém-nascidos submetidos à intervenção?
Havia pacientes de países vizinhos, como o Zimbabwe, a Zâmbia, a Tanzânia e outros que mandavam os seus cidadãos para aqui, mas não há registo de angolanos.

Essas situações referidas podem ser consideradas "casos de hibridez"?
Chamam-se a esses casos hermafroditas. Existem três grandes categorias. Há uma quarta categoria que tem a ver com crianças que têm gónadas, órgãos sexuais pouco desenvolvidos. As outras três são os hermafroditas verdadeiros, as crianças que nascem com dois órgãos sexuais. Uma mesma pessoa produz hormonas masculinos, a testosterona, e feminina, estrogénios. Há ainda os chamados pseudo-hermafroditas, que são já fruto de anomalias de constituição endócrina, mas que podem ser realmente estudados, devem ser estudados, mas quando chegam à altura da puberdade têm que escolher o que vão ser (menina ou rapaz) ou continuarem a manter a ambiguidade do ponto de vista sexual.

Este é um campo científico extremamente desafiante...
É um campo fascinante e, realmente, daqueles que põem à prova a nossa humildade, a humildade que devemos ter e dizer para nós próprios, nós não sabemos nada disto. Temos realmente a consciência de que não temos ainda o conhecimento próprio para dar curso a uma terapêutica como deve ser, bem estabelecida e, realmente, que vá ao encontro dos anseios da própria pessoa.

Constatei que dedica muito do seu tempo ao estudo da Medicina Regenerativa...
A Medicina Regenerativa está ainda muito na sua infância. Não é algo que esteja bem estabelecida. É uma medicina que se baseia em coisas que, genericamente, todos conhecem ou já ouviram falar que são as células estaminais. São células que todos nós temos, extremamente indiferenciadas e que são percursoras de qualquer coisa que podem se formar em qualquer parte do tecido do nosso corpo. Vamos falar, por exemplo, de uma coisa que já está a ser feita, mas que se encontra ainda na sua fase inicial.

O que é que está a ser feito?
Por exemplo, diabetes é uma doença que é determinada pela ausência de células muito especializadas no pâncreas. Ora, se conseguirmos colher células estaminais e induzi-las a colonizar em pâncreas e a se transformarem em células produtoras de insulina, esse é um exemplo notável da utilidade das células estaminais e da Medicina Regenerativa.

Em que consiste concretamente a Medicina Regenerativa?
A Medicina Regenerativa é no fundo aquilo que o próprio nome indica: regenera tecidos danificados; regenera, por exemplo, as células específicas do músculo cardíaco que foi afectado, por exemplo, por um enfarte. As células estaminais vão regenerar o músculo morto, o músculo que foi danificado e o coração passa a ser novamente um órgão saudável. Apesar de estar a ser feito em fase experimental, este trabalho decorre há já algum tempo.

E num quadro de bastante complexidade…
Ora, a Medicina Regenerativa tem também as suas vertentes muito mais simplificadas do que as células estaminais. As células estaminais ainda são técnicas extraordinariamente caras e ainda não popularizadas ao nível mundial, se tivermos em conta que muito do trabalho que está a ser feito encontra-se em fase experimental. Mas já temos vias abertas no sentido de compreender que elas vão ser o futuro da Medicina ou um dos futuros possíveis da Medicina.

São tratamentos que devem demorar a chegar aos nossos países ...
As técnicas estão a evoluir de tal forma que um dia vamos poder ter as células estaminais à nossa disposição, se calhar até em massa. Desde que o custo desça, obviamente, encontram-se formas viáveis de tratamento. O problema que se põe é que elas são ainda muito caras. E, depois, essas células estaminais poderão ser produzidas em massa, mas, antes da fase em que são induzidas a transformar-se nisso ou naquilo: em células do pâncreas ou em células musculares do coração, células do fígado, do cérebro, do tecido nervoso ou seja o que for. Há estudos muito avançados com ratos em laboratórios. Corta-se a espinhal medula, que fica paralisada a partir do sítio em que foi feito o corte, são injectadas células estaminais e ocorre a regeneração da espinhal medula. Portanto, o tecido nervoso é passível de ser também regenerado por células estaminais.

O que pode vir a acontecer nos próximos tempos?
O que nós estamos a fazer neste momento é utilizar percursores de células estaminais. Coisas que possam induzir as células estaminais no corpo a estímulos que fazem parte das técnicas que não vale a pena estar aqui enumerar, mas que vão realmente fazer com que as células que já estão no nosso corpo reajam com sucesso ao tratamento.

* Especial para o Jornal de Angola

Pacientes angolanos no Instituto

Condecorado várias vezes pelas autoridades sul-africanas e portuguesas, o senhor já pensou alguma vez em estender as suas actividades ...
Estou neste momento na fase de relançamento do Instituto Médico Português, com parcerias de Angola e de Moçambique, se manifestarem o interesse. Com muito êxito, o Instituto actuou nesta faixa de interesses, entre Angola e Moçambique e outros países da região, que enviavam doentes para um centro mais diferenciado como é este aqui em Joanesburgo e seria muito bom tê-los de volta. Tínhamos contactos com importantes instituições e empresas em Angola, como a Sonangol, a Ensa, a Televisão Pública e muitas outras, que mandavam os pacientes para nós. Com o encerramento do Instituto, estas empresas deixaram de mandar doentes, mas mantenho o vínculo com algumas individualidades e mesmo empresas que, no foro pessoal, continuam a enviar doentes.

Em que período funcionou o Instituto?
Funcionou de 1993 a 2000.

Eram muitos os pacientes angolanos?
Muitos angolanos e moçambicanos também, mas vinham mais angolanos, porque havia neles um maior poder de compra.

Na possibilidade de parcerias em Angola consta a área da docência?
Não. Mas são coisas que podem sempre evoluir para esse ramo, desde que haja interesse entre as partes. É sempre possível aproveitar esse intercâmbio para a transmissão de conhecimentos para os jovens médicos angolanos.

Tem vínculos em Angola?
As minhas relações com os angolanos foram sempre extremamente cordiais. Tenho muitos amigos em Angola e sempre que vou para lá tento reforçar estes vínculos e espero reforçar estes laços com a reabertura do Instituto.

Notabilizou-se em cirurgias para separação de bebés siameses. Pode falar um pouco deste domínio?
Quando se fala de casos de separação de siameses, estamos a falar de algo complicado e nada fácil de realizar. Há entre eles os que consideramos extremamente complicados, como, por exemplo, os casos onde os bebés nascem com um só coração e a separação é praticamente impossível.

Continua a haver muitos casos desses na África do Sul?
Houve tempos em que era muito comum a ocorrência desse tipo de casos, provenientes de vários países, como o Congo, Moçambique e Angola. Com a evolução das coisas, a procura reduziu substancialmente. Hoje, já é possível, com uma ecografia, detectar, de forma precoce, uma gravidez de risco durante o período de gestação e, em tempo útil, decidirmos se a gravidez deve ser impedida ou deixar que a criança nasça.

Dirigiu ou participou em oito operações para separação de siameses...
Houve casos com muito êxito. Na realidade, a maior parte das operações tiveram êxito, embora um êxito limitado. Podemos considerar êxito limitado as cirurgias que realizamos, porque houve casos em que os bebés sobreviveram e outros em que não tiveram a mesma sorte. Tivemos um caso que foi muito mediático na África do Sul, o de duas meninas que nasceram com as cabeças ligadas, em 1986. Apesar de ter participado na operação, era júnior e estava a iniciar no ofício. Um médico neurocirurgião, ligado à cirurgia pediátrica, dirigiu a operação. Era uma operação considerada na época como pioneira em todo o mundo. Não havia ainda uma experiência do género.

Os bebés sobreviveram à operação?
Infelizmente, uma das meninas morreu um mês depois do parto e a outra um ano e meio após o nascimento.

Quantos siameses angolanos ajudou a separar?
Operei dois bebés que nasceram ligados pelo tórax e que, à altura, foi considerado pela equipa de médicos como um caso fora de hipótese. Ou melhor, os bebés não tinham qualquer possibilidade de sobreviver e acabaram por falecer aqui mesmo na África do Sul.

É cidadão sul-africano e português. Onde é que nasceu?
Nasci há muitos anos em Lourenço Marques, hoje Maputo, Moçambique, onde concluí o curso de Medicina Geral. Após a minha formação, parti para Portugal, onde, durante quatro anos, fiz a especialidade de Cirurgia Geral. Mas o meu sonho era fazer Cirurgia Pediátrica. Como em Portugal já não me autorizavam que fizesse mais uma especialidade e depois de intensa procura pelo mundo fora, vim em Janeiro de 1980 para a África do Sul.

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