Cultura

Marito repousa desde sexta-feira (16) no Cemitério de Santa Ana

Analtino Santos

Jornalista

Familiares, colegas, amigos e admiradores acompanharam, ontem, o músico Marito dos Kiezos até à sua última morada, no Cemitério de Santa Ana, num acto assistido pelo director nacional da Cultura, Euclides da Lomba, em representação do ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, Filipe Zau.

17/09/2022  Última atualização 08H50
Familiares e colegas das lides artísticas prestaram ontem no Cemitério de Santa Ana a derradeira homenagem ao guitarrista © Fotografia por: DR
Ao som de "Ngana Nzambi” e "Za Boba”, o corpo de Marito entrou no cemitério. Um momento de dor e tristeza, mas também de reconhecimento da obra do artista, que deu alegria a muitos angolanos e não só. Foram lidos elogios fúnebres da Associação dos Naturais do Marçal, da União Nacional dos Artistas e Compositores - Sociedade de Autores (UNAC-SA), do Conjunto Os Kiezos, do guitarrista Dikambu e da família, numa cerimónia acompanhada de música.

Eduardo Arcanjo classificou o pai como imortal e que era o momento de celebrar a vida. Recordou os choros melancólicos do pai e em jeito de conclusão disse acreditar que Marito irá reencontrar os colegas do conjunto para levar poeira noutro plano.  A sobrinha Sissi Arcanjo realçou o malogrado como um homem de família, pessoa de paz e alegria, que nos últimos anos o seu estado de saúde se agravou, numa altura que aguardava apoios do Ministério da Cultura. Uma outra perspectiva do círculo mais próximo de Marito veio de uma neta.

Zé Manico, que falou em nome do Conjunto Os Kiezos, reafirmou o compromisso de continuarem com o legado e preservarem tudo que foi produzido.  "Dikambu”, o Luisito do Dimba dya Ngola,  admirador de Marito e representante dos guitarristas nacionais, afirmou que o malogrado mudou o paradigma dos solos angolanos e é o responsável da actual plástica das harmonias e ritmos da nossa praça.

Marques Batalha e Eliseu Major, em nome da ANA Marçal e da UNAC-SA, ambos foram unânimes em reconhecer a humildade, trato fácil e o dom para música do menino que da viola rudimentar de lata, por via de Duia evoluiu para o guitarrista, que despontou do Marçal para o país. A formação dos Kiezos, o acompanhamento dos principais nomes da música angolana e as digressões nacionais e no estrangeiro mereceram destaque nas mensagens.

"A carreira teve uma quebra com a morte em curto espaço de tempo da esposa, irmãos, incluindo o seu mais velho Juventino Arcanjo, colega do conjunto e companheiro de vida”, referiu Eliseu Major.

O colega Voto Gonçalves recordou Marito ao executar a sua música "Kilamba Neto” e outras que o malogrado fez os arranjos. O guitarrista, Botto Trindade realçou a capacidade de improviso e a técnica de Marito. Já o antigo futebolista e admirador dos Kiezos, Teófilo Moniz, o mestre de cerimónia num discurso emocionado destacou a importância da sistematização da obra de Marito e da sua virtuosidade.

Na noite de quinta-feira, realizou no Centro Recreativo e Cultural Kilamba o velório e momento musical com artistas de várias gerações, que se juntaram aos integrantes dos Kiezos. De salientar que Marito faleceu na manhã de segunda-feira, 12 de Setembro, aos 74 anos.

O jovem guitarrista Yark Spin falando da morte de Marito afirmou o seguinte: "Para mim é como um balde de água fria o passamento físico do tio Marito. Lembro-me quando comecei a estudar as músicas instrumentais para tornar-me um dos estudantes da música angolana, o tio Marito foi uma das maiores referências que sempre tive. Ainda fui contemplado a participar no Show do Mês, realizado pela Nova Energia e encontro das gerações, onde o meu irmão e amigo Mário Gomes e eu tocámos instrumentais do tio Marito. Fomos em representação da nossa geração para demonstrar a continuidade dos seus feitos e ele deu-nos a responsabilidade de eternizar, incentivar, produzir, promover e lutar pela música instrumental angolana. Até sempre nosso mestre tio Marito”.

Para o promotor cultural João Adilson "foi um homem de Cultura e que expressava  nos solos o que melhor sabia fazer, ritmos que só ele fazia e caracterizava-o. Não consigo falar muito sobre esta grandíssima figura do musical Cultural, mas em respeito às suas obras e que ainda podemos viver e contactar em arquivo,  Marito  foi um génio Cultural. O Kuimbila Ni Kukina Semba Semba program uma homenagem a Marito, mas não fomos a tempo, visto que fomos impedidos devido  à Covid-19”.

   Mestre da guitarra nasceu no Bairro Marçal

Gilberto Júnior  | *

 

Para as gerações que atingiram a mocidade ou a idade adulta entre as décadas de 60 e 70, falar de Marito nessa época memorável, tanto em Luanda ou noutro ponto do país, era falar de uma figura que se tornou lendária nos Kiezos, e na música angolana, na sua generalidade.

Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior é o seu nome completo. Marito, o nome atribuído pelos amigos e através do qual se tornou famoso.

O finado guitarrista nasceu em Luanda, no Bairro Operário, há 74 anos, mas foi no vizinho Bairro Marçal onde se notabilizou como guitarrista de eleição. 

No início dos anos 60 fervilhava em Marito a tentação de aprender a tocar guitarra. Vontade satisfeita pela mestria e ensinamentos de Eduardo Adolfo, Duia, solista dos Gingas e maior guitarrista da época.

Vencida esta etapa pulsava no jovem músico a vontade de participar na criação de um grupo musical de nomeada à exemplo de um Ngola Ritmos ou Gingas. No imediato, Marito junta-se a outros jovens imbuídos do mesmo propósito, nomeadamente Kituxi, Avozinho, Fausto Lemos e Adolfo Coelho. Sem soluções para os primeiros passos, o grupo decide socorrer-se do empreiteiro e promotor cultural Pedro Bonzela Franco - mais velho respeitado no Bairro Marçal com quem alguns deles trabalhavam em empreitadas de construção civil - que abraça a ideia de dar corpo ao desejo de Marito e companheiros.

A intenção do promotor era a de apelidar o grupo de Iezu (Vassouras) mas os jovens preferiram o seu singular, ou seja, Kiezos (Vassoura). E foi com esta designação que o grupo se apresentou publicamente em 1965, ano da sua constituição.

Ao núcleo fundador juntaram-se três outros integrantes, Juventino Arcanjo (irmão mais novo de Marito), Humberto Vieira Dias e Vate Costa, ainda na sua fase inicial, dando aos Kiezos a expressão que viria a transformá-lo num verdadeiro fenómeno musical no panorama artístico nacional. 

De 1965 até ao início dos anos 90, a carreira musical de Marito sempre esteve indubitavelmente ligada aos Kiezos, mesmo no período em que fez parte do Grupo Semba, uma composição de instrumentistas que por altura da Independência efectuou diversas gravações de estúdio para a etiqueta Valentim de Carvalho.

Ao longo da primeira década da existência do conjunto, Marito teve uma presença marcante e vital como guitarrista, superando por um período longo o grande escol de excelentes solistas emergidos na música angolana entre as décadas de 60 e 70. 

Célebre no que podemos rotular de "entradas a matar”, nas intervenções sequenciais ou nos adornos característicos de um bom solista, da veia criadora de Marito brotaram temas instrumentais como "Merengue 69”, "Obrigado Meu Amigo”, "Rumba 70”, "Muxima”, "Ngola”, "Semba Henda”, "Memórias de Lamartine”, "Saudades de Luanda”, "Angola Popular”, todos dignos de se situarem no estrito do que de melhor a música angolana produziu. Até deixar de tocar como profissional foi o músico que mais instrumentais registou em disco em Angola. A esses sucessos se juntam os clássicos "Milhorró”, "Rosa Rosé”, "Zá Boba”, "Comboio” e "Princesa Rita”, de valor imenso.

Marito certa vez afirmara que, "a missão do guitarra solo é acima de tudo a de penetrar no íntimo de quem a escuta. E a sua missão é dar através do som das cordas da guitarra, a expressão real de quem canta”, isto é, o expressar do sentimento mais sublime do que vai na alma de um solista. Como pessoa, o indubitável líder dos Kiezos foi, tal como parafraseou o seu xará e também músico, Marito Furtado, "um kota ‘bwereré’ simpático, simples e de fácil trato”. E no decorrer de dezenas de anos ao comando do grupo,  teve outros companheiros de grande cumplicidade musical, todos eles cultores do semba como padrão, casos do Hélder Leite, Tony Galvão, Julinho Vicente, Botto Trindade, Zeca Tirillene, Juca Vicente, Gegé e Brando, todos com notáveis passagens pelo conjunto originário do Bairro Marçal. 

Do palmarés de Marito, ficam registados para a posteridade a concepção, arranjos e execução de temas constantes em 14 singles, dois long plays, duas participações nos long plays "Rebita 74 e 75” e um compact disc, todos da autoria dos Kiezos.

Mais de 300 temas de outros artistas mereceram os arranjos, a execução e direcção musical de Marito, desde um "Merengue Sambila” ou "Chamavo” de Elias dya Kimuezu ao "Mukongo” e "Kialumingo” de Urbano de Castro. 

Ao finado Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior "Marito”, mestre da guitarra, fiel intérprete dos mais sublimes sentimentos de angolanidade, inspirador de grandes solistas angolanos como Zé Keno, Botto Trindade, Nito, Brando, Betinho Feijó, entre outros, o maior apreço pela obra incomensurável que presenteou ao fenómeno musical angolano, obra essa que ficará perpetuada no espaço e no tempo.

Obrigado Marito!

* Jornalista da RNA

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