Entrevista

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Maria Solo: O dia-a-dia de uma estudante angolana na Inglaterra

André Sibi

Jornalista

Decorre, até 3 de Novembro próximo, mais uma campanha de recrutamento de jovens angolanos para estudarem na Inglaterra, no quadro das mundialmente conhecidas Bolsas Chevening, disponibilizadas pelo Governo britânico para capacitar líderes de todo o mundo. O Jornal de Angola ouviu Maria Solo, estudante angolana a beneficiar, há um ano, de uma Bolsa Chevening na Universidade de Manchester, onde está a fazer o mestrado em Projecto Urbano e Planeamento Internacional. Ela fala da sua experiência enquanto bolseira Chevening

11/10/2020  Última atualização 06H55
DR

Pode explicar o que é uma bolsa Chevening?

Chevening é o programa de bolsas de estudo internacional do Governo britânico, fundado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que capacita futuros líderes de todo o mundo, há mais de 37 anos, através da oportunidade de estudarem no Reino Unido e adquirir novas competências, habilidades e atitudes. Hoje, a comunidade Chevening conta com mais de 50.000 personalidades, dentre as quais 100 angolanos.

Conseguiu a bolsa de estudos logo na primeira tentativa?

A minha jornada Chevening começou em Outubro de 2017, quando, sentada, num dos anfiteatros da Universidade Metodista de Angola, ouvia uma palestra promovida pela Embaixada Britânica em Luanda sobre o programa de bolsas Chevening. Fui ousada e candidatei-me duas vezes. Infelizmente, na primeira tentativa tive que abrir mão da bolsa porque não tinha o nível de inglês requerido. Felizmente, na segunda tentativa e após quatro testes de língua inglesa TOEFL (teste de inglês para estrangeiros), finalmente recebi uma vaga para fazer o mestrado na minha área de especialidade, na Universidade de Manchester. Graças ao programa de bolsas Chevening lá fui eu em Setembro de 2019, de malas prontas, com uma bolsa de mestrado, paga na totalidade, atrás do meu sonho de estudar em Inglaterra.

 
Há quanto tempo está na Inglaterra?

Estou na Inglaterra há 11 meses, desde o dia 17 de Setembro de 2019. 

 
Como foram os primeiros dias? 

Os primeiros dias foram bastante corridos e de grande expectativa. Era a primeira vez que eu viajava para Inglaterra e cheguei na primeira semana de aulas. Nos primeiros dias, a maior preocupação era resolver a questão do registo académico, que permite aceder ao conteúdo programático do curso, aos recursos e suporte da universidade, bem como aos descontos estudantis para transporte, acomodação e outros serviços. Um dos primeiros impactos que tive ao chegar foi em relação à universidade: com mais de 40.000 estudantes anualmente, 270 hectares e 254 edifícios,  lembro que me perdia constantemente nos primeiros dias, antes de localizar os diferentes lugares onde ocorriam as aulas, palestras, seminários e outras actividades académicas. Era engraçado. Outra questão foi em relação ao clima: era Outono e as temperaturas já começavam a reduzir. Da mesma forma que fazia sol, também chovia repentinamente, logo percebi que o guarda-chuvas seria o meu melhor amigo. 

Em quanto tempo se aperfeiçoou no inglês? 

Durante o processo de candidatura precisei de um ano para me aperfeiçoar. Na primeira vez que me candidatei tive que abrir mão da bolsa porque na altura não tinha o nível requerido pela universidade e somente após quatro testes TOEFL consegui o resultado necessário para obter uma oferta incondicional por parte da universidade. Quando cheguei a Manchester, lembro-me que precisei de três meses para me adequar aos termos técnicos do curso e ao sotaque “macunian”, que é o característico da região de Manchester e Noroeste da Inglaterra. 

 
O que a bolsa garante ao estudante? 

A bolsa Chevening garante o seguinte: pagamento das propinas do mestrado; bilhete de passagem de ida e volta; subsídio de chegada e de partida; custo do processo do visto com seguro de saúde pago e registo no sistema nacional de saúde (NHS); ajuda de custo para viagens relacionadas com actividades da bolsa; subsídio de subsistência (mensalmente, durante o período de duração do mestrado – um ano). 
Para além disso, a Chevening garante um conjunto de actividades de apoio aos bolseiros como a Chevening Orientation – uma cerimónia para orientação e networking entre os bolseiros. O Chevening Farewell – uma cerimónia de despedida, networking e reflexão em relação a jornada Chevening e os desafios futuros, ambas em Londres. Adicionalmente, a Chevening também promove actividades que permitem o desenvolvimento académico, profissional e pessoal como é o caso do Chevening Relay, que permite a passagem do bastão Chevening por várias cidades da Inglaterra e o registo em fotos ou a Conferência Chevening onde cada bolseiro tem a oportunidade de apresentar os seus trabalhos de pesquisa. 

 
Foi fácil adaptar-se à alimentação? 

Sim. Cidades como Manchester possuem um elevado número de estudantes internacionais, dentre eles africanos. Por isso, para além dos supermercados comuns também existem supermercados especializados em comida de origem africana e caribenha.  Por exemplo, o dendém aqui é vendido já pisado, enlatado e pronto para confecção. Também nestas lojas é possível encontrar fúmbua, saca-folha para kizaca e fuba de milho ou de bombó. 

Qual é a sua opinião sobre o sistema de ensino da Inglaterra? 

Muito bom. Uma das maiores vantagens do sistema de ensino da Inglaterra é o acesso que o estudante tem a renomados jornais científicos e bases de dados de pesquisa em todas as áreas do saber, independentemente da área de mestrado. Outro ponto tem a ver com a quantidade e qualidade das bibliotecas e laboratórios bem como as tecnologias e facilidades nelas oferecidas. Só a universidade de Manchester em si tem 12 edifícios de bibliotecas, uma delas com funcionamento 24/24 horas.  Outra questão é a constante interacção com instituições públicas e privadas, seja por meio de palestras, seminários, voluntariado ou suporte para o primeiro emprego.

 
Quem escolhe o curso? A instituição ou o aluno? 

Uma das etapas do processo de candidatura às bolsas Chevening inclui o processo de candidatura às universidades que é feito pelo próprio estudante. O candidato tem duas opções de candidatura: escolher uma universidade e se candidatar em três cursos diferentes ou escolher três universidades diferentes e se candidatar para o mesmo curso em cada uma delas. 

Que importância tem o curso que está a frequentar? 

O programa de mestrado na área de Projecto Urbano e Planeamento Internacional da Universidade de Manchester tem duas grandes vertentes: aspectos ligados à morfologia urbana, que diz respeito ao processo de formação e transformação da configuração física das cidades enquanto sistema complexo e a vertente do ordenamento do território e urbanismo, que diz respeito à criação de políticas de distribuição e uso do espaço urbano e rural, em diferentes escalas – nacional, regional e local. O curso é de extrema importância por várias razões. 
Angola possui uma das maiores taxas de urbanização do continente, hoje 65,5 por cento dos angolanos vivem em cidades e apenas 42,1 por cento da população vive em cidades com plano de desenvolvimento urbano.
O plano de desenvolvimento nacional 2018-2022 como parte da implementação das estratégias de longo prazo de Angola 2025 - cuja actualização para 2050 foi recentemente anunciada – prevê, no seu quinto eixo, a aplicação de políticas de desenvolvimento territorial, ordenamento do território e urbanismo.

 
Como estão a lidar com a pandemia da Covid-19?

Em Janeiro de 2020, foram anunciados os primeiros casos da Covid-19 no Reino Unido e, com mais de 297.000 casos confirmados, passamos para o regime de confinamento em Março. O ensino passou a ser remoto e eu vi uma cidade cheia de vida e outrora movida por estudantes a ficar completamente deserta. O futuro apresentava-se bastante incerto. Porém, com o apoio da família, amigos, universidade, Embaixada britânica em Luanda e da comunidade Chevening, tive a esperança necessária para ultrapassar esta fase complicada.

É uma certeza que a sua rede de contactos na comunidade angolana e de outras nacionalidades aumentou?

Ser bolseira Chevening tem me permitido conectar com académicos e profissionais de várias áreas, conhecer outras cidades do Reino Unido como Londres, Liverpool, Edimburgo e Glasgow. Tem me tornado resiliente o suficiente para viver sozinha e longe da família, bem como superar todas as adversidades que se impuseram em tempos de pandemia e ainda assim representar Angola. Por isso faço questão de que mais angolanos tirem proveito desta oportunidade e se candidatem. Em 2020, as candidaturas estão abertas de 3 de Setembro a 3 de Novembro. Pessoalmente, farei questão de empregar os conhecimentos que adquirir no desenvolvimento e prosperidade do meu país, porque esta é sem dúvida uma experiência de vida muito enriquecedora que levarei comigo para sempre.

 
A comunidade de estudantes Angolanos é enorme? 

Desde 1983, ano de fundação da Chevening, mais de 100 angolanos se beneficiaram do programa de bolsas de mestrado. No que diz respeito à comunidade de estudantes angolanos no Reino Unido em geral, apesar de não existirem dados oficiais, acredita-se ser uma grande comunidade, especialmente na cidade de Londres. Grande parte destes estudantes têm os seus estudos financiados através de outros programas de bolsas ou com custo próprio. 

Na Inglaterra há racismo? 

O racismo é um mal que existe em toda a parte do mundo, fruto disto são as manifestações que ocorreram em vários países durante o mês de Junho do presente ano. No caso da Inglaterra e em especial em cidades universitárias, onde existe grande diversidade cultural, quer por parte dos professores e estudantes quer dos trabalhadores, e tendo em conta a constante aplicação de políticas de suporte aos estudantes internacionais por parte dos serviços académicos, associação de estudantes, autoridades locais e ONG’s, em caso de ocorrência de um episódio de racismo, o estudante tem como ver os seus direitos ressalvados.  

 
Há muitos angolanos que já terminaram a formação e que não querem regressar ao país? 

De modo geral, todo o estudante angolano que deixa o seu país para estudar fora o faz no intuito de poder regressar e aplicar as competências que desenvolveu durante a formação. Realmente, existem angolanos que, dependentemente das oportunidades e possibilidades, decidem permanecer na Inglaterra, porém, acredita-se que muitos regressam para Angola, visto que a maior parte tem os seus estudos financiados por programas de bolsa, que, normalmente, apresentam como uma das cláusulas dos seus termos e condições a garantia de que o estudante retornará ao país de origem, após completar a sua formação. No caso do programa de bolsas Chevening é esperado que o estudante regresse ao país e permaneça em residência por um período mínimo de dois anos, para garantir que o país se beneficie das competências que o estudante adquiriu ao longo da formação. 

Por que razão muitos preferem ficar na Inglaterra, depois de terminarem a formação? 

Na verdade, nem sempre é uma questão de preferência. Acontece que muitos dos estudantes angolanos em bolsas de estudo ou que vão por financiamento próprio, não possuem, em alguns casos, prévia experiência de trabalho e quando chegam às universidades britânicas encontram todo um ambiente de suporte para encontrar o primeiro emprego após a formação. A falta de garantia de que após regressar ao país o estudante terá acesso ao mercado de emprego na sua área de formação e tendo em conta o conhecimento geral de angolanos que, por razões de vária ordem, não tiveram esta oportunidade, faz com que muitos quadros busquem soluções alternativas.  

Há um ano na Inglaterra, já viu alguém da família real, nomeadamente a Rainha? 

O mais próximo que consegui chegar da família real foi provavelmente no ano passado, quando me dirigia para a cerimónia de orientação da Chevening na London Excel e passei pela London Euston, estação de comboio que está a 26 minutos de autocarro do Palácio de Buckingham - uma das residências oficiais de Sua Majestade a Rainha Elisabeth II e actual sede administrativa da monarquia, que normalmente abre as portas para o público durante o verão - e a 40 minutos de autocarro do Palácio de Kesington, residência de Londres do Duque e da Duquesa de Cambridge.  

 
De que forma se faz a inserção do estudante no mercado de trabalho, depois da formação? 

As universidades britânicas, em geral, por norma possuem serviços de carreira e empregabilidade que orientam o estudante em relação à área de actuação, como fazer um bom currículo, oferecem oportunidade de palestras com potenciais recrutadores, oportunidades de estágio, feiras de emprego e outras actividades de suporte. A título de exemplo, em 2019, o serviço de carreira e de empregabilidade da Universidade de Manchester foi nomeado o melhor do Reino Unido pelos empregadores, de acordo com o The Times e o Sunday Times.

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