Cultura

Maria da Conceição: Toda uma vida dedicada a Deus e à família

Augusto Cuteta

Jornalista

Essa quase centenária, ou melhor, a Avó Maria, como é tratada pelos mais próximos, enxergou, pela primeira vez, a luz do sol quando o calendário assinalava o segundo dia do mês de Outubro de 1922. Foi nas terras do Andulo, na província do Bié, que seu cordão umbilical foi enterrado.

29/08/2021  Última atualização 10H00
© Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
Mas, não é a idade que embaraça a sua mente. Esse ora estar bem, ora meio confusa é uma das consequências da Doença de Alzheimer, uma doença neurodegenerativa progressiva que deteriora a capacidade cognitiva e a memória, causando alterações comportamentais que se agravam ao longo do tempo.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados, há quase um ano, estimavam que existiam 35,6 milhões de pessoas com Doença de Alzheimer no mundo, sendo que o número tende a dobrar até o ano de 2030 e a triplicar até 2050. E, Mamã Maria enfrenta esse problema faz três anos.

Foi-lhe diagnosticada a doença, meses antes de perder uma das filhas. Aquando do óbito, por exemplo, a idosa sequer sabia que o luto na família tinha a ver com o facto de ela ter perdido mais um dos seus descendentes directos!
Assim, a velha viu partir para o além quatro dos cinco descendentes directos, estando a ser cuidada, por isso, pela caçula, a dona Ilda Lopes, actualmente com 57 anos.


Por causa do problema da Doença de Alzheimer que a mãe enfrenta, dona Ilda, a única filha de Mamã Maria nascida em Luanda, sendo que todos os outros irmãos eram naturais do Bié, substituiu na entrevista o diálogo que pretendíamos ter com a velha.

Conhecedora da vida da progenitora, dona Ilda, com auxílio do marido, o conhecido professor universitário, empresário e cantor Carlos Lopes, abriu o livro da vida da mãe, uma mulher que sofreu muito para sustentar a família, mas nunca deixou de lado a sua devoção a Deus.

Enquanto mantínhamos conversa com dona Ilda e Carlos Lopes, um nome era constantemente pronunciado por Mamã Maria. Trata-se do padre Guerra, um sacerdote que trabalhou na Paróquia de São Pedro, no bairro Prenda, a quem voltaremos mais adiante.

Quanto à situação da velha Maria, anos antes de diagnosticada a Doença de Alzheimer, ela perdeu a visão. Há uma década, quando começou a enfrentar dificuldades para enxergar, foi levada a Benguela, para tratamento no Hospital Internacional de Oftalmologia.

"Ela tinha de ser submetida a uma cirurgia, mas, por causa da idade avançada, os médicos não podiam arriscar essa intervenção. E assim foi perdendo a visão e, hoje, está completamente cega”, lamentou Ilda Lopes.
Como há males que não vêm só, em Maio, a senhora que ajuda a cuidar de Mamã Maria distraiu-se no trabalho e, quando escutou um grito do outro lado da casa, estava a velha jogada para o chão. A queda foi forte, tendo, por isso, quebrado o fémur.

Em função da idade, tal como aconteceu com os olhos, os especialistas no tratamento dos ossos, depois da avaliação à perna, também, concluíram que não havia muito que se podia fazer pela idosa. E, desde essa altura, Mamã Maria depende de uma cadeira de rodas para locomover-se.

Servir o altar com paixão

Antes de todas as peripécias da velhice, depois do quarto filho, Maria da Conceição Agostinho partiu do Andulo e, com o marido, chegou a Luanda em busca de melhores condições de vida.

Tempos depois, o marido sofreu um derrame cerebral e não resistiu. Nesse momento, a última dos cinco filhos tinha apenas três anos. "A mãe sofreu muito. Fez tudo naqueles tempos terríveis para nos sustentar sozinha e nunca parou de lutar”, contou dona Ilda Lopes.

Em função da falta de escolaridade, na capital do país, Maria da Conceição dedicou-se a fazer trabalhos domésticos, até que sentiu o chamado de Deus para tratar da ornamentação do templo da Igreja de São Pedro.

Além de cuidar da decoração do altar, Maria da Conceição também, tinha a responsabilidade de tratar das vestes litúrgicas e das roupas pessoais dos clérigos. Dedicou parte considerável da sua vida a esse serviço, com destaque para o auxílio aos padres Próspero, Alves e Guerra.
Com o padre Guerra, de quem ela e a família têm maior memória, Maria da Conceição ajudava nas obras de caridade. "A mãe partia, juntamente com esse sacerdote, para casas de desfavorecidos, entregava bens a essas famílias e orava por elas”, recordou dona Ilda Lopes.

Aliás, embora não tivesse estudado, a filha referiu que, nessas andanças com os padres e a obrigatoriedade de ensinar as pessoas, recorrendo a passagens bíblicas, a mãe experimentava já a escrever e a ler alguma coisa.

Infelizmente, esse ciclo de aprendizado foi interrompido, em 1991, quando um grupo de marginais invadiu o templo sagrado e tentou assassinar o padre Guerra, que tinha chegado a Luanda proveniente do Bié. Por estar na rota de um dos disparos, uma bala perfurou o abdómen de Maria da Conceição e destruiu-lhe os intestinos.

Durante três meses, a mulher lutou pela vida, depois da operação que durou mais de sete horas, no Hospital do Prenda. Posteriormente, teve uma infecção a nível da ferida, a barriga inchou e a situação agravou-se. A senhora sobreviveu apenas graças à intervenção da irmã Dominic, uma madre francesa que se dedicava a ajudar pessoas carentes.

Essa freira conseguiu a transferência e o internamento de Maria da Conceição no Hospital Josina Machel, onde foi submetida a outra cirurgia. Essas operações deixaram-na sem umbigo.

Enquanto Maria da Conceição esteve em convalescença, os bandidos voltaram a atacar o sacerdote e, quase um mês depois do episódio que provocou graves ferimentos à decoradora do altar de São Pedro, o cadáver do padre Guerra foi encontrado numa das ruas de Luanda.

"Com a morte do padre Guerra, a mãe deixou de ter apoio da Igreja, mas conseguiu sair do perigo”, contou Ilda Lopes, para acrescentar que, nessa altura, chegava a Luanda o Papa João Paulo II, na sua visita apostólica a Angola.
Mesmo ferida, Maria da Conceição pediu que fosse levada à missa papal, na zona da Praia do Bispo. E, embora não tivesse programado, a velha acabou escolhida para comungar das mãos de um dos maiores líderes da história da Igreja Católica.
Enquanto fiel da Igreja Católica, Maria da Conceição tem esse momento como um dos mais marcantes da sua vida. "Foi um dia bastante distinto para ela. A mamã apareceu em revistas e tudo!”, realçou Ilda Lopes. A filha acredita que aquele momento terá trazido um milagre para a mãe, que, dia após dia foi recuperando as forças e continuou a seguir a vida.
 
Generosa com os netos
Com o desaparecimento físico do padre Guerra, depois de recuperada, Mamã Maria deixou a Igreja do Prenda e passou a frequentar a Paróquia da Sagrada Família, onde ficou por alguns anos, mas longe do serviço que prestava em São Pedro. Posteriormente, ruma para a zona da António Barroso e opta pela igreja que ficava ali próximo da nova residência.

"Ela frequentou essa igreja até começar a perder a visão. Às vezes, os padres ou as companheiras da paróquia iam visitá-la ou levar a hóstia, mas depois sumiram”, desabafou Ilda Lopes.

Antes de tudo isso, Maria da Conceição era proprietária de um espaço no bairro Margoso, nas proximidades do Rio Seco. Depois que o governo de Luanda partiu as construções que ali existiam, a senhora foi contemplada com quatro residências, no Zango.

Dentro da sua generosidade, a mais velha identificou quatro entre os 15 netos, por terem as maiores dificuldades económicas, e  ofereceu-lhes cada uma das referidas casas. "O triste da questão é que, tirando um dos contemplados, hoje, os outros não querem saber da avó”, lamentou Ilda Lopes.

A filha de Mamã Maria disse esperar alguma mudança de atitude dos sobrinhos em relação à velha. "Foi a mãe que, praticamente, os criou, porque as próprias progenitoras iam trabalhar e os meninos eram deixados aos cuidados da velha”.


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