Entrevista

Maria Borges: “A vida sempre me deu essa graça de singrar”

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Nascida em Luanda e consagrada Embaixadora do Turismo Angolano, a modelo internacional Maria Borges residente nos Estados Unidos da América, depois de passar pela província do Namibe, radiografou, durante aproximadamente cinco dias, as potencialidades turísticas dos municípios da Humpata, Lubango e Chibia, na província da Huíla. Em entrevista ao Jornal de Angola, Maria Borges disse que o objectivo das visitas que está a fazer a várias províncias é conhecer o real potencial turístico e criar uma base de dados de imagens, com vista a convencer os empresários no exterior a investir no ramo no país. “A intenção é fazer barulho para captar mais investidores e espelhar com a maior propriedade o que existe no sector do turismo no país”, reiterou a top model

18/07/2021  Última atualização 07H10
© Fotografia por: DR
Afinal de contas quem é a Maria Borges?

Maria Borges é uma jovem angolana  sonhadora, nascida no bairro Cassenda, em Luanda, com raízes em Malanje e actualmente a residir em Nova Iorque, Estados Unidos da América. Tenho estado a viajar pelo mundo. A minha posição actual tem por objectivo contribuir em acções que visam alavancar o sector de investimentos em Angola, promovendo e divulgando o potencial turístico existente. Ao fazer parte de um projecto do Instituto do Fomento do Turismo (Infotur), designado "Juntos e todos pelo turismo”, sinto-me bastante honrada e orgulhosa.
 
Há quanto tempo vive nos Estados Unidos da América?

Mudei-me para os Estados Unidos da América em 2013. Mudei com o propósito de migrar, nas condições de uma turista à procura de oportunidade de trabalho, que surgiu na indústria da moda. Hoje, o resto é história. O meu trabalho fala por si. Represento com muito orgulho Angola e o meu continente (África) ao mais alto nível.

 Foi fácil adaptar-se à vida nos Estados Unidos da América?

Não foi fácil. Não diria que foi a coisa mais difícil da minha vida, mas foi um aprendizado muito bom, porque acho que a experiência me fez renascer. Uso o exemplo de sair da água para o vinho. Tinha que aprender nova língua, nova cultura e a forma de viver. Tive a desvantagem de ser uma turista que, realmente, quis subir na vida, sem financiamento, e tão pouco a ajuda dos familiares. Foi tudo consoante o meu trabalho, vivendo dos meus gastos e guardando algum dinheiro para investir em Angola e poder criar estabilidade pessoal no meu país. Entretanto, foi muito difícil. Mas os resultados valem a pena.

 
Quando fala que os resultados valem a pena, o que quer transmitir?

Fui para os Estados Unidos da América graças à minha agência em Lisboa (Portugal), que fez a conexão com a agência em Nova Iorque. Antes de ir a Lisboa, eu tinha uma agência cá. Depois do concurso Elite, a Step deu-me a oportunidade que resultou na ligação com a agência em Lisboa e sucessivamente fui a Nova Iorque, Paris, Londres e outras cidades de outros países.

 
Familiarizou-se com muitas angolanas nos Estados Unidos da América?

Tive algumas colegas e agora há lá outras jovens a singrar também. Mas acho que de cinco nunca passamos. Éramos três ou quatro meninas, mas já lá estiveram outras angolanas antes de mim. As que ficam são sempre poucas, já que o mercado lá não é fácil. Algumas tiveram ajuda financeira dos familiares, o que eu nunca tive. Mas sempre mostrei aos meus familiares que não os queria decepcionar naquilo que eu gostava de fazer. A vida sempre me deu essa graça de singrar. Algumas colegas desistiram e regressaram, mas, pela fé e por acreditar que tudo na vida é possível, ainda estou lá depois de nove anos. E estou muito feliz.

 
Enquanto modelo de referência internacional, pretende moldar jovens modelos angolanas?

Sem dúvidas. 

 
Qual foi o motivo de ter abandonado a agência anterior?

Saí porque a visão da agente não ia de acordo com os meus princípios. Porque eu não acho certo uma jovem com tantos sonhos ter um agente que não quer vê-la a crescer. Em conjunto com a família, decidimos accionar o plano B. Consegui caminhar sozinha, mas estou muito grata por me terem estendido as mãos. Hoje, digo que foi duro, mas valeu a pena ter seguido o meu caminho.


Como foi que surgiu a oportunidade de ser a Embaixadora do Turismo em Angola?

Deixa-me dizer que o projecto do Instituto do Fomento do Turismo, designado "Juntos e todos pelo turismo”, destina-se a engajar a sociedade angolana em torno do turismo, para que possa estar à altura das suas potencialidades. Recebi a oportunidade para ser a primeira Embaixadora do Turismo na história de Angola, com muito entusiasmo, alegria, amor, satisfação e orgulho.  Estamos a visitar vários pontos turísticos do país, com o objectivo de criar uma base de dados para divulgar o potencial existente em Angola com imagens reais.


Sempre sonhou dar o seu contributo ao crescimento e desenvolvimento do país?

Desde pequena eu sonhava dar o meu contributo ao crescimento, desenvolvimento e bem-estar do meu país. Aprendi que para isso é preciso, nada mais, nada menos, contribuirmos na área em que temos conhecimentos. Eu sempre disse que os diplomas servem, mas as experiências vividas também encaixam-se. Em função da experiência vivida, aceitei o convite e agradeço, também, ao director-geral do Infotur, que me disse que, em função da minha entrega por Angola, eu merecia estar na posição de Embaixadora. Só devo agradecer a oportunidade, porque jovens como eu, a chegar aos 30 anos, é exactamente isso que queremos, dar o nosso contributo ao desenvolvimento económico e social do país.

 
Como é que encara o potencial turístico angolano?

Encaro de forma positiva. Temos estruturas. Em função das estruturas que temos, devemos lutar e promover ao máximo, para que elas permaneçam. Há projectos que podem ser realizados, mas é necessário investimento. É necessário que as autoridades percebam que o sector do Turismo é tão valioso quanto os diamantes e o petróleo que temos, além da agricultura. Como angolana, digo que precisamos do petróleo e do diamante, mas também precisamos do turismo e da agricultura. É óbvio que está em primeiro lugar a saúde, mas o sector do turismo pode também alavancar e ajudar a melhorar o sistema de saúde e outros sectores, com a arrecadação de receitas que podem vir do potencial existente no país.

 
Fez referência que o país é muito conhecido lá fora pelo seu potencial nos sectores dos petróleos e dos diamantes. Nas vestes de Embaixadora é possível transmitir que Angola tem outras riquezas?

É verdade. Como jovem que sou, aprecio muito dos nossos kotas e mamãs, porque foram eles que me ensinaram. Entretanto, devo lembrar que devemos mexer já no sector do Turismo. Não sou a única que sabe e vê que Angola tem potencial turístico forte. Basta olhar para as Sete Maravilhas e as paisagens exuberantes existentes no país. É preciso captar mais investidores. Vamos tirar o maior proveito da posição privilegiada em que estamos a nível internacional, para a promoção do turismo angolano ao mais alto nível. Aliás, é sabido que há muitos empresários interessados em investir no sector. Por isso, nas vestes de Embaixadora, vamos colaborar também na questão dos vistos e fomentar o turismo local. É isso.  A intenção é "fazer barulho” para captar mais investidores e espelhar com a maior propriedade o que existe no sector do turismo no país. Para tal, é preciso analisar bem as viagens locais, as passagens são muito altas, os hotéis devem ser mais acessíveis. Como angolanos, precisamos usufruir melhor das nossas belezas e do que temos de melhor. 

 
Qual é o potencial que encontrou fora de Luanda? Falamos concretamente das províncias do Namibe e da Huíla...

Não é a minha primeira viagem para fora de Luanda. Já visitei o Cuanza-Sul, Benguela e Huambo. De facto, pela primeira vez, e finalmente, conheci o Namibe. Ver o potencial do Namibe falou muito mais do que tirar fotos. Ao falar com a população local aprendi muito mais do que ler artigos na Internet. Acho que todos os angolanos merecem essa oportunidade. Fomos às dunas, à praia do Soba e a outros lugares. Fomos a vários lugares, cada um deles diferente. 


 
Como foi recebida na cidade do Lubango?

A recepção na cidade do Lubango foi maravilhosa. Não é por acaso que se diz que a Huíla tem um povo bastante acolhedor. A recepção foi muito brilhante. Agradeço ao governador da província da Huíla, Nuno Mahapi Dala, pela atenção. Muito obrigada. Recebemos todos os apoios que precisávamos. Foi uma maravilha ver a Fenda da Tundala, o Miradouro da Serra da Leba, a Cascata da Huíla, entre outros lugares. Com tudo isso vamos levar o que de melhor a Huíla tem, em termos de turismo, e mostrar ao mundo algo real. Trouxe uma equipa enorme, que está a colher imagens e a fazer vídeos. Vamos fazer uma promoção interna e externa das paisagens invejáveis. Queremos transmitir o sentimento das pessoas e as suas mensagens para os angolanos e para o mundo.

 
Depois do Lubango, qual será o próximo destino?

Temos mais duas províncias por visitar, por enquanto. Depois ajustaremos a agenda de visitas a outras províncias. Mas deixa-me dizer que depois das províncias do Namibe e Huíla nos deslocaremos a Malanje e ao Zaire. Começamos pelo Namibe e pela Huíla, que são apontadas como modelos de províncias turísticas.

 
Faz-se acompanhar de uma equipa vasta. Sente-se melhor confortada assim, nas viagens que efectua?

Sim. A equipa está aqui para trabalhar. Não estamos aqui só para ver. Queremos levar aquela mensagem que realmente precisamos. Com a participação dos outros talentos sob minha responsabilidade, pretendo dar oportunidade aos jovens que queiram seguir o mesmo caminho que eu fiz. 

 
Qual é a comparação que faz com outros países da África Austral, no domínio do turismo?

Muitos países que admiram Angola vivem do turismo. A Namíbia, por exemplo, vive do turismo. Nos países que visito, há sempre uma quota, mesmo simbólica, que se paga nas portagens. Este dinheiro visa também fazer a manutenção dos locais turísticos e torná-los mais cativantes e convidativos. A limpeza, em si, nos locais turísticos é importante. É preciso que as pessoas deixem um valor simbólico nestes locais. É o que se faz lá fora e o exemplo deve ser seguido pelo país. Com a portagem, quem está no lugar a cuidar, também vai ter dinheiro para exercer com zelo e tranquilidade o seu papel. Acho que isso é importante. 


 O cargo de Embaixadora da Promoção Turística em Angola é para si uma forma de se preparar para outros desafios?

Isso eu não sei. O futuro a Deus pertence. Vamos viver o presente.
 
Qual é a Angola que encontrou, depois de vários anos fora?

Encontrei uma Angola cheia de esperança e de futuro. Encontrei uma Angola que nunca desiste. É isso. Vamos reclamar sempre, mas nunca desistimos.
 
Além da constatação, há outras actividades que desenvolve nas províncias por onde passa?

Em cada província onde estamos a passar, para além de constatar os pontos turísticos e criar o banco de imagens, estamos a promover workshops para os fazedores de moda. Em cada província estamos a identificar três ou quatro modelos para poderem trabalhar comigo no projecto da constituição do banco de imagem. Estamos a juntar o útil ao agradável. Queremos nos sentir parte da festa. O objectivo é incorporar mais modelos no turismo. 


 
Qual é a sua opinião sobre o empreendedorismo juvenil?

O empreendedorismo juvenil é uma oportunidade de criar emprego para outros jovens. Essa acção deve ser incentivada sempre. Os jovens são dinâmicos, estão prontos e só precisam de mais oportunidades. Jovens como eu, que não desistem, vão atrás das oportunidades. É destes jovens que sou muito fã.

 
Algo a acrescentar?

Gostaria de agradecer ao Jornal de Angola, que nos proporciona notícias frescas diariamente. As notícias que são espelhadas no Jornal de Angola, via on-line, fazem-nos presentes todos os dias no país, embora estando longe. Por favor, não se esqueçam de jovens como eu. Precisamos sempre de passar a palavra dos angolanos que no país e no exterior trabalham para um futuro melhor para todos.


Perfil

Nome
 Maria Arlete João Borges.

Filiação

Filipe Borges e Esperança João.

Naturalidade

Luanda.

Data de nascimento
 28 de Outubro de 1992.

Altura
 1,83.

Estado civil

"Tenho parceiro há nove anos e sou muito feliz. Falta apenas o casamento oficial.
Independentemente de pôr ou não um vestido branco de noiva, o importante é que o mundo sabe que tenho parceiro, com muito respeito mútuo, com ou sem a celebração do casamento”.

Comida favorita
"Mufete e não dispenso um bom funge de bombó”.

Clube em Angola
 "Não tenho. Agradeço a todos. Para mim são todos bons”.

No exterior do país
"Apoio qualquer clube onde jogue o Cristiano Ronaldo”.

Modalidade desportiva
Basquetebol.

Já praticou basquetebol?

 "Não, mas pratiquei futebol na escola. Joguei mais futebol do que basquetebol”.

Virtude

 "Compartilhar amor e energia positiva”.

Defeito
 "Não gosto de pessoas preguiçosas”.

Signo
 Escorpião

Tipo de carro

 BMW.

Tem casa própria?

 "Sim. Vivo entre Angola, EUA e Portugal”.

Sonho
 "Ver uma Angola referenciada no contexto africano e mundial. No bom sentido e não na linha da corrupção, como acontece. Temos que retirar a má imagem que se tem, mais ligada à corrupção. Acredito que com o projecto ‘Juntos e todos pelo turismo’ isso vai acontecer”.

Número de calçado

 40.

Perfume

 "É difícil distinguir, porque estou sempre a misturar cremes, óleos e perfume. Mas gosto de perfumes suaves”.

Entre viajar de comboio, carro e avião...

 "Não tenho preferência. Faço os três trajectos sem dificuldades”.

Já foi aldrabada
 "Sim”.

Como se sentiu
 "Dei mais uma oportunidade”.
 

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