Entrevista

Manuel Gutierrez: “Há muito a fazer para a preservação do património arqueológico”

Gaspar Micolo

Há uma história de Angola que se conta a partir dos vestígios materiais soterrados. E há mais de 30 anos que o arqueólogo e antropólogo francês Manuel Gutierrez faz parte deste esforço, que conta com o apoio da Embaixada de França em Angola. Com escavações na Baía Farta, em Benguela, formação de angolanos e introdução de métodos modernos no campo, deu-se uma evolução na forma de se pesquisar a riqueza histórica material do país. “As mudanças metodológicas feitas desde a época dos pioneiros até aos dias actuais são numerosas. Em primeiro lugar, o método de escavação e o espaço estudado”, explica o especialista, para quem, com base nos últimos dados, houve grupos de caçadores-recolectores no actual território de Angola há cerca de dois milhões de anos. E, apesar do sucesso da cooperação, não tem dúvidas dos desafios do país. “É necessário que haja vontade comum sobre uma visão ampla da importância dos vestígios a serem protegidos e valorizados. Parece-me que ainda há um caminho a percorrer”

19/12/2020  Última atualização 13H00
© Fotografia por: DR
O senhor é um dos mais destacados especialistas em arqueologia angolana. Quando começou a interessar-se por esse campo específico?

A arqueologia é uma abertura ao passado, cujos vestígios muitas vezes são difíceis de detectar. Portanto, é necessária formação específica para ler os dados do passado. Esta formação ocorre em universidades que oferecem um curso longo. Este é o meu caso. Estudei arqueologia na Universidade de Paris 1 Panthéon Sorbonne e tive a sorte de ter professores muito bons (em particular J. Devisse e J. Chavaillon), que me transmitiram os seus conhecimentos e também a paixão pela arqueologia de África. Portanto, possuo um mestrado e um doutoramento em arqueologia. E tudo começa por aqui... Mas está há décadas envolvido numa cooperação franco-angolana na área da Arqueologia. Fale-nos do balanço que se pode fazer desta parceria...

 A cooperação franco-angolana permitiu-nos iniciar a nossa investigação em Angola há 30 anos. Durante a minha primeira estadia em Angola e enquanto trabalhava com arte rupestre, no sul do país, tive a oportunidade de me encontrar com o director do Museu Nacional de Arqueologia de Benguela (MNAB), Luís Pais Pinto. Ele era apaixonado pela arqueologia e sabia das limitações da sua equipa. Propôs-me fazer parte da sua equipa, como pesquisador associado, o que eu aceitei. Ele também pediu ajuda na formação dos técnicos. A implementação deste projecto contou, desde o início, com o apoio do Serviço de Cooperação e Acção Cultural da Embaixada de França em Angola. Que componentes teve essa cooperação?

A primeira foi a investigação arqueológica in loco, nomeadamente, na província de Benguela, que foi acompanhada de formação teórica e prática em métodos de arqueologia. Depois, houve a formação em França. Temos recebido muitos membros do MNAB nas escolas (les chantiers-écoles) da nossa universidade (Pincevent e Etiolles, em particular) para cursos de formação de 30 dias. Seguiu-se a formação de longa duração na Universidade de Paris 1. Formação que integra o mestrado, cujo sucesso abriu as portas para o registo no doutoramento. Supervisionei três alunos angolanos de doutoramento, que agora são doutorados pela nossa universidade. Todos estes projectos de formação foram assegurados pela Embaixada da França em Angola. Os resultados são, portanto, muito positivos e sem o apoio inabalável da Embaixada da França nada desse progresso teria ocorrido. Além da formação, a cooperação previa igualmente trabalho de sensibilização para a preservação do património. Deu resultado?

A protecção do património arqueológico e, mais geralmente, do património nacional é uma tarefa de longo prazo. É necessário que haja vontade comum sobre uma visão ampla da importância dos vestígios a serem protegidos e valorizados. Parece-me que ainda há um caminho a percorrer... O senhor dirigiu pesquisas na Baía Farta, local de uma vasta indústria lítica. Em que medida é que esses trabalhos já influenciam a reconstituição da história angolana?

As pesquisas realizadas na Baía Farta, e mais precisamente no conjunto arqueológico Dungo, ocorrem em sítios do Paleolítico antigo. São lugares onde as populações do passado deixaram vestígios, em particular pedras lascadas (material lítico) que mostram a acção do homem sobre essas pedras, para produzir objectos que chamamos de Choppers, Bifaces, Shards, Núcleos ... A importância dessas pedras lascadas é que muitas vezes são os únicos vestígios da presença humana antiga num território. Devemos, portanto, estudá-los no contexto original, para compreender a sua história e o seu lugar no tempo, o que chamamos de contexto horizontal e estratigrafia. Estes dois aspectos são acessíveis graças a métodos de escavação rigorosos, adaptados aos locais e às épocas. Uma vez adquiridos esses dados, deve-se abordar a questão da idade dos vestígios, ou seja, a cronologia dos factos arqueológicos. O que é complexo...

Sim, a abordagem cronológica é complexa, na medida em que é necessário encontrar os métodos de datação adequados para os vestígios descobertos. Os resultados actualmente disponíveis para nós são que o material lítico de Dungo IV, por exemplo (um dos sítios do conjunto arqueológico de Dungo) data, grosso modo, entre 1 e 2 milhões de anos atrás (Gutierrez e Benjamin, 2019, p. . 176). Estes novos dados indicam que a presença humana, ou pré-humana, em Angola data de há dois milhões de anos! Podemos avaliar a importância do complexo arqueológico de Dungo e a necessidade urgente de preservá-lo com todas as medidas necessárias. Mas as investigações pioneiras no campo remontam aos séculos XIX e XX, seguindo-se trabalhos de Louis S. B. Leake, Henri Breuil e John Desmond Clark. Que rupturas têm sido operadas, quer nos métodos, quer no envolvimento dos actuais arqueólogos?

As pesquisas e publicações de investigadores como Leaky, Janmart, Breuil, Clark, entre outros, são contribuições importantes na génese da disciplina em Angola. As abordagens metodológicas são fruto de uma época e do conhecimento disponível para esses pesquisadores. A colecção de objectos líticos encontrados na superfície, por exemplo, era a norma na época. O contexto horizontal e a posição estratigráfica do material arqueológico eram frequentemente esquecidos. A classificação das peças líticas, por exemplo, foi feita com base em critérios formais e com base no estado de desgaste dos objectos colectados "quanto mais um objecto é enrolado, mais velho ele é” (Gutierrez, 2001, p.19). No entanto, existem muito poucos objectos enrolados que podem ser muito antigos, porque são preservados da erosão devido ao seu soterramento. E o que mudou?

As mudanças metodológicas feitas desde a época dos pioneiros até aos dias actuais são numerosas. Em primeiro lugar, o método de escavação e o espaço estudado. Estabelecemos grandes quadrados (100 m2) e praticamos escavação estratigráfica fina, levantamento sistemático e estudo de material arqueológico, datação laboratorial para obter cronologias fiáveis. Então, há uma mudança na percepção da pesquisa à medida que combinamos a formação de estudantes universitários com a prática de campo. Na Baía Farta, criamos um sítio de escola de escavação arqueológica para o treinamento teórico e prático de alunos estagiários da Universidade Katyavala Bwila (UKB) e membros do MNAB. O local de trabalho-escola funciona sob a direcção do MNAB, da UKB e com a nossa participação (Université Paris 1 Panthéon Sorbonne - Equipa de etnologia pré-histórica - UMR 7041 CNRS) (Karlin, 2019, p.131). Também aqui, o projecto de formação de campo contou com a participação do Serviço de Cooperação e Acção Cultural da Embaixada de França em Angola.

"Grupos de pessoas passaram pela Baía Farta há dois milhões de anos”
O senhor traduziu para o francês o livro de Carlos Everdosa sobre a arqueologia angolana. E ao longo das prospecções na região do Dungo perspectivava-se encontrar a oficina de talhe e o nível de ocupação assinalado por Clark e Everdosa. Mas nada se encontrou que correspondesse às referidas instalações. Que críticas se faz hoje ao trabalho destes pioneiros?

As pesquisas de J. D. Clark e C. Ervedosa são uma importante contribuição para a região da Baía Farta, pois mostraram a existência de material lítico antigo nos sítios que hoje chamamos de Dungo. A presença de pedras talhadas e lascas superficiais é documentada em vários locais, por vezes em forma de acumulações na base das encostas. Essas acumulações foram consideradas de origem humana, como vestígios das antigas oficinas líticas. Na verdade, esta é a acção da erosão: a chuva, o vento, a passagem de animais, a inclinação das encostas revelam o material lítico que se deslocará para a parte inferior das encostas, formando concentrações naturais que não são obra dos homens do passado. Considerar essas acumulações como pilhas líticas é, portanto, um erro de interpretação. Nossa abordagem geral também é diferente; procedemos em etapas: levantamentos, levantamentos e escavações sistemáticas. Como diz, Angola tinha sido ocupada há muito tempo, ou seja, desde épocas remotas, sobretudo do período Paleolítico e Neolítico. O que é que a arqueologia angolana ainda falta explicar sobre os primeiros homens que deixaram as manifestações rupestres que hoje nos encantam?

As datações obtidas dos sítios arqueológicos no conjunto Dungo indicam que, há dois milhões de anos, grupos de pessoas passaram pela Baía Farta. O material lítico e o necrófago de uma baleia encalhada no local a que chamamos Dungo V são importantes indícios destas ocupações, muito provavelmente de curta duração ou sazonais. O que nos falta, actualmente, é saber quem eram essas populações. Em outras palavras, é necessário encontrar restos de ossos humanos para saber quem foram os fabricantes de objectos líticos e os consumidores da já referida carne de baleia. E as manifestações artísticas?

Quanto às criações artísticas em superfícies rochosas, pinturas e gravuras rupestres, são muito mais recentes e, em alguns casos, os autores são conhecidos. Na África do Sul, por exemplo, sabe-se que se trata da arte San. Em Angola, um vasto projecto de pesquisa e protecção de sítios de arte rupestre deve ser organizado para abordar a protecção do local e todos os aspectos da arte rupestre, incluindo a datação em laboratório. Os vestígios arqueológicos e a arte rupestre parecem, segundo historiadores, indicar três grandes vagas de migrações bantu, que terão penetrado no território de Angola por diferentes regiões, já no primeiro milénio da era cristã. O que é que a arqueologia ainda não explica sobre estas migrações?

A arte rupestre é o testemunho do "know-how” de artistas do passado. Esse know-how diz respeito ao uso de matérias-primas para a obtenção das cores que devem ser encontradas na natureza. Depois, há a preparação da própria tinta, que requer o fornecimento de líquido, pigmentos de tinta e cola para que a tinta possa aderir à parede. Você pode adicionar os "pincéis” ou as mãos para aplicar a tinta nas faces da rocha. Depois, vem o saber artístico dos homens, das mulheres e, sem dúvida, também das crianças, que interpretam as figuras nas paredes, ou seja, é preciso saber pintar ou gravar. De modo que, do meu ponto de vista, o que interessa, ao pesquisador que trabalha com arte rupestre, é conhecer a "cadeia operacional” da criação artística, para, então, deduzir o sentido ou o significado dessas criações artísticas que carregam, de qualquer evidência, uma ou mais mensagens que devem ser decifradas. A questão de saber quem são os autores das pinturas e gravuras rupestres é mais complexa, na medida em que essas obras não são assinadas no sentido actual de assinatura. A questão da cronologia da arte rupestre discutida acima também precisa de ser resolvida. A questão das "vagas migratórias” é, ao que me parece, um assunto que merece uma abordagem multidisciplinar. Por exemplo, a Arqueologia já pode explicar se as migrações do Leste foram as primeiras, seguidas das dos pastores do Sul, e só mais tarde as dos agricultores do Norte?

Se levarmos em consideração a cronologia de todo o Dungo (entre 1 e 2 milhões de anos), devemos começar a história do assentamento há dois milhões de anos. Provavelmente, não se trata de "migrações”, mas de ocupações temporárias de grupos móveis compostos por um pequeno número de indivíduos. Grupos de caçadores-recolectores usando os recursos disponíveis num determinado momento. O exemplo de uma baleia no Dungo V é uma indicação do uso de uma baleia encalhada, enquanto a carne ainda era comestível.Em relação ao Neolítico e a sua definição, pesquisas antigas muitas vezes confundiram a presença de cerâmicas e sociedades neolíticas. Pesquisas recentes mostram que a noção de Neolítico (em Angola) "não corresponde a uma realidade de produção de plantas ou de domesticação de animais, que são as bases de uma sociedade neolítica” (Benjamin, 2019, p.96). Devemos também investir novas energias nesta área, com métodos adaptados, para encontrar e escavar sítios do Neolítico.

""O território é vasto e o número de arqueólogos de campo reduzido”

Vários sítios arqueológicos ainda precisam de projectos de escavação de grande escala. Pela sua experiência, e pelo que hoje sabe, que sítios se podem explorar?

O território do país é vasto e o número de arqueólogos de campo é reduzido. É certo que a primeira medida seria formar arqueólogos no local, com dupla orientação. Um orientado para a arqueologia preventiva, para intervir durante grandes obras ou em emergências para guardar o máximo de dados arqueológicos possível. Seguidamente, deve prosseguir-se a investigação no conjunto Dungo, onde se pratica uma Arqueologia programada, que permite integrar a componente formativa no quadro do sítio escolar da Baía Farta.
A Arqueologia jogou um papel importante ao "desenterrar” a cidade de Mbanza Kongo e, consequentemente, a sua elevação a Património da humanidade. O que é que justifica a exploração de um sítio arqueológico : a necessidade institucional de um programa como esse da UNESCO ou a necessidade de simplesmente se reconstituir o passado?

A elevação de uma cidade como Mbanza Kongo a Património Mundial da UNESCO é um orgulho para Angola. Dados históricos do século XV até aos dias actuais são uma fonte importante para escrever a história da cidade. A contribuição da Arqueologia para a história escrita da África é essencial. No primeiro volume da História Geral de África da UNESCO, o Professor J. Ki-Zerbo indica que, para escrever a história do continente, é preciso contar com "três fontes principais: documentos escritos, arqueologia e tradição oral "(Ki-Zerbo, 1980, p.25). No mesmo volume, Théophile Obenga amplia o campo de fontes para a história e, além das três fontes mencionadas por Ki-Zerbo, adiciona cerca de quinze outrass, como Geologia, Paleontologia, Paleobotânica, estudos de laboratório como Palinologia ou datação de laboratório (Obenga, 1980, p. 98). Há, portanto, um consenso sobre a importância da Arqueologia como fonte da história e também como um novo elemento na desconstrução da história colonial. Porém, para que os dados arqueológicos beneficiem a comunidade científica como um todo, e o público em geral de forma mais ampla, eles devem ser acessíveis, ou seja, publicados.

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