Opinião

Mambo de quarentena V

Não tenho certezas sobre a continuidade deste mambo. Pode muito bem ser a última crónica neste quadro, quando muito, a antepenúltima. Isso, no caso de Angola seguir os passos de Portugal em matéria de Covid-19, o que pode avisar em breve a passagem, se viermos a passar, a um outro estado. O Estado de Calamidade. Confesso que qualquer das designações me perturba.

10/05/2020  Última atualização 06H04

Fico indeciso, não sei se me assusta mais a emergência ou a calamidade. Enquanto me preparo para o embate, vou apertando o espaço de que disponho, aos domingos, no Jornal de Angola. Vou virar-me para textos mais enxutos. Farei o possível, de maneira sóbria ou mais excêntrica. E com a ajuda dos deuses, continuarei a marcar um período inesquecível da minha vida, afinal de contas, da de todos os angolanos, aliás, de todos os cidadãos do mundo.
Sinto, como sentirão todos os que permanecem em casa, confinados, o enorme peso da reclusão. Vivendo, como vivemos, a defender-nos de tudo e de todos, sinto-me como um prisioneiro que não foi antes julgado e condenado. É a (in) justiça da vida a funcionar, vivida em experiência única. Dominada pelas redes sociais, cada vez mais sujas de notícias inventadas; mas ainda assim, sítio onde se fazem avisos curiosos, cheios das mais enigmáticas intenções, e através das quais se dão recados reflexivos sobre as omissões da Lei. E a vida segue o seu rumo. Até nos permite constatar uma velha verdade. “O afecto ou o ódio mudam a face da justiça”, afirmação de Blaise Pascal, o filósofo e físico francês, decorria o séc. XV. Perante casos que entre nós se vão falando como notícia e sobre os quais as redes, as malditas, agentes de vício comparável e tão perigoso como o tabaco, o álcool ou a droga, mas que caracterizam como poucos outros meios, tanto o momento democrático, como o estádio da democracia, apraz-me, leigo que sou, perguntar. O que pode concorrer para uma situação tão delicada? Emprestar a força da justiça a um cidadão que é imune, porém prevaricador, ou, viajando em sentido contrário, não fazer idêntico empréstimo e mostrar, provar publica e categoricamente, que é justo vetar o PRA-JA de Abel Chivukuvuku? A resposta não precisa sair das redes, ela surge, clara, na máxima, “O rei que possuir a justiça não precisa de coragem”. Seu autor? Aristóteles, o filósofo grego da era anterior a Cristo. Dispensa comentários, nada mais a dizer.
Nesta sociedade desordenada, é difícil arrumar ideias. Contudo, desde os primórdios que o Homem, o puro e o justo, o patriota e o humanista, também esse Homem criou o seu próprio cárcere. A prisão à terra e ao conceito da sua posse. O Homem, representante do povo, lutou sempre para evitar que a vaidade, a ganância, o ciúme e a inveja dos espertos e iluminados, amparados nas suas ideologias, nos seus ciúmes e nos seus propósitos, derrubassem os alicerces da terra. Lutou e teve sempre, desde o princípio, a visão e a força necessárias para impedir que a terra se perdesse em benefício dos tiranos. A vitória foi sempre questão de tempo, acredito que não seja desta vez que se vai impedir de se erigir obra e salvar a terra.
No domingo, o mundo parecia ter parado. O músico Matias Damásio diz-me o contrário. Há vida, sim senhor. Num bem sucedido gesto solidário, de profundo alcance, produziu a partir de casa, um excelente espectáculo, que a TPA fez chegar ao vasto público em quarentena. Relevante, a recolha de oitenta toneladas de cestas básicas para gente necessitada. É obra! Um bem haja ao artista, patrocinadores e contribuintes, desejando que tudo chegue bem aos seus destinatários, sem desvios de rota.
Pela noitinha, segundo relata Adriano Mixinge, aconteceu festa da nova normalidade, outra louvável iniciativa artística, desta feita através das já famosas lives, uma transmissão ao vivo realizada por uma das muitas plataformas digitais no activo. Oito mil pessoas confinadas, escutaram o gosto musical do DJ Malvado, para mim, sempre o Cláudio Costelinha.
Na segunda-feira, celebrou-se o Dia Mundial da Liberdade da Imprensa. A tal que nos permite, com este ganho inestimável da classe jornalística e das comunidades, comentar hoje e aqui, o artigo do doutor Luís Bernardino no Novo Jornal e que, com conhecimento de causa, coloca em alerta o MINSA e a sua estratégia no combate ao coronavírus. Reflexos da independência da palavra e da opinião. A sociedade só tem a beneficiar com o contraditório. Ora, a sociedade é o que mais importa! Neste dia, alguns países europeus apostaram na retoma da normalidade. A economia, severamente punida, não pode parar, paira no ar o medo do desemprego e o negro espectro da fome e da doença. Enfim, o desespero, que já se mostra aqui na banda. Esboçam-se sorrisos, uns abertos, outros cautelosos, todos pouco confiantes.
Na terça-feira, A TV Zimbo apresenta imagens quentes, uma sátira à crónica dos bons malandros. Assaltos e roubos em Luanda, uma rotina perigosa que retrata a normalidade. Crimes tecnicamente qualificados e praticados por uma juventude desqualificada, apoiada por certos defensores oficiosos. Embora não faltem tiros, sangue e cadáveres, lamenta-se pelos coitados que cometem. Uma, duas, três vezes. Não têm culpa, não foram educados, não estão habituados! Reporta-se, de lente aberta, mas raramente é questionado o fundamental. Os sempre ausentes deste drama. Família e Estado, no caso, a Escola. Tivemos ministério da Família e temos o da Educação. Mas não se fala do papel da escola, e só muito timidamente, se aborda a preocupante ausência da instituição Família. Parece estar tudo no fundo das preocupações da governança. A ser verdade o que se apregoa, a nova Ministra da Educação parte para uma dura tarefa, das mais importantes do Executivo, sob um clima de suspeição, o que não encaixa bem num sério projecto de boa governação. Espero e desejo que tenha agido em conformidade e que deixe marca de boa presença.
A UNESCO decretou o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa. Estamos todos felizes e contentes, suponho. O jornalista, escritor e poeta angolano João Melo, referiu num texto perfeito, sobre a importância da língua portuguesa no geral e das línguas africanas na estrutura do português falado no Brasil. Entretanto, assistimos calmamente o stand by da maka do (des) Acordo Ortográfico. Para mim, que continuo no velho estilo e não largo mão dele, o que mais quero é que o coronavírus desande, que me deixe paz e tranquilidade para ler e escrever. Que me permita retratar a malta e os seus anseios. Parte dela, quer mesmo é que a deixem gritar, na sexta-feira, dia da nguenda, dia em que estão todos chuchados, todos cansados. Aiué, mamã!
A semana terminou triste. Tristeza não tem fim, felicidade sim, cantaram Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Confirmando o verso, na sexta-feira, foi a enterrar Jimmy Rufino, o poeta suburbano, o galã do musseque, era assim que eu o tratava. Por causa do “Kianda kiá Ngola”, o seu livro que a Caxinde editou e nos fez amigos. Não resistiu à maldade do tumor. Na véspera, tinha partido mais uma figura angolana, neste caso um amigo e vizinho de quem guardo boas recordações. O velho árbitro de futebol João Madeira deixou-nos, vencido pelos males da idade. Mais duas significativas perdas, na cultura e no desporto nacionais. Até sempre, companheiros!

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