Opinião

Mambo de quarentena 2

Esta reclusão a que nos sujeita o coronavírus, tem desvantagens, mas também alguma coisa de positivo. Obriga, não direi todo o mundo, mas muita gente a pensar. Entre nós, não se tem pensado devidamente. Não se tem usado bem a cabeça. A falha está patente no país que construímos, melhor falando, que “desconseguimos” construir. Na desordem instalada, no gesto de cada indivíduo. Tudo, resultado de não se pensar convenientemente.

19/04/2020  Última atualização 06H08

A minha vida tornou-se estranha, sou hoje um homem mais calmo, apesar de desconfiado e sisudo. Porque penso mais, sou obrigado a isso. O sorriso desapareceu-me do rosto, dizem-me os espelhos, e esses não mentem nunca. Lavar loiça, limpar chãos, juntar lixos para despachar, engomar pequenas peças de roupa, tentar habilidades com ovos, chá e torradas, fiz progressos. Sem vontade de sorrir. Saio-me bem numas, noutras sou um desastre. Mas tudo é positivo, porque a quarentena me obriga a pensar. O exercício físico, tal como o mental, cansa, a meditação transmite sentimentos. Mais do que nas péssimas capacidades domésticas que evidencio, penso na dificuldade de ganhar, quem ganha, a vida dessa maneira, executando esse serviço. Penso e arrumo papéis, leio, escrevo, e analiso as mentiras soltas por aí. Não as que os espelhos, na sua triste mudez, ou escondem ou revelam. Mais notícias tristes. Neste ano terrível, tudo acontece. Morreu Sarah Maldoror, a ilustre poeta e cineasta, activista e militante do movimento da negritude no seu tempo. Tive a honra de a conhecer, de lhe apertar a mão e trocar breves palavras com ela, há meia dúzia de anos, em Paris. Não esqueci os traços belos do seu rosto envelhecido. Morreram também Rubens da Fonseca e Luís Sepúlveda. O mundo da arte cada vez mais pobre!
Fujo da depressão e invoco verdades. A minha empregada mora na zona dos Ramiros. Não pode apoiar-me, porque não consegue furar o cerco das autoridades, não tem credencial. É o coronavírus, ela não é subversiva. A prima mora na cidade, ajeita-se nas compras, arranjou casa de renda. Paga trinta mil, por mês. Um salário pequeno, sem subsídio nenhum, claro. Está feliz, tem sítio para viver com o seu bebé que ainda mama muito. Sinto vergonha de não poder dar-lhe um documento que ateste o vínculo laboral. A impressora está avariada e não uso carimbo. Fico eufórico. A empregada conseguiu o milagre de chegar aqui, através da prima. Para além de uma limpeza rigorosa a casa, faz-me alguns pratos, não muitos, que dão para congelar e cá fico aviado para mais uma semana de isolamento social e de toda a angústia que ele carrega. Oxalá não faltem a água e a luz, ou seja, não tragam a normalidade. Por favor.
Estás a fazer dieta?, pergunta a minha mulher que está na Tuga, também angustiada. Que dieta?, respondo pensando nela e na família que aqui, bem próximo, não consigo visitar e abraçar. O meu único alívio é ver os meus filhos e netos através do vídeo do WhatsApp, essa invenção que há onze anos faz as delícias do mundo moderno. E da mujimbaria da malta. Sempre nos trinques!
As mentiras andam na boca do mundo. Serão mesmo mentiras? Lapsos, erros, omissões, desmentidos. Muita polémica, gente a ficar mal na fotografia. Levantou-se uma ponta do véu que cobre incapacidades. É celeuma difícil de ser travada. Causa estragos a muita gente boa, respeitável, identificada com a ética. Jornalistas, parlamentares, fiscalizadores, indivíduos de posição, enfim, gente que deveria ser respeitável. Tudo apanhado em contramão. É algo lacónico, que não passa pelas palavras mas pelos estados de espírito. O meu fica péssimo, mal me ponho a pensar nisso. Quando se coloca em dúvida e se descredibiliza a Assembleia Nacional; quando se duvida da palavra dos parlamentares e da alta administração da Casa das Leis; quando o Tribunal de Contas e todos os órgãos fiscalizadores da receita gerada pelo serviço público são visados e a população é enrolada pela onda gigante da ignorância; quando se perde, pelo silêncio cúmplice, o respeito dos eleitores; quando as coisas começam a tomar feição perigosa, porque tomam mesmo, pergunta-se, legitimamente. Estamos ou não diante de um Tratado do desprezo pelos inocentes? Imagino um mapa que beneficia a classe política. Representada por cidadãos que volta e meia se perdem, numa altura em que o país não tem tempo para perder, em plenárias insonsas e permissíveis a discussões racistas e tribais, com contos tradicionais e adágios ancestrais à mistura. Triste ver nesses papéis, ditos tribunos que deveriam, isso sim, concentrar-se mais no aprendizado da gestão dos números e das contas, dos balanços e da sua correcta discussão e apresentação, tendo em vista a melhoria de vida da sociedade.
Se a ciência e o hábito salutar da sua aplicação tivesse sido adoptada em devido tempo, na época das experiências com sociedades avançadas (lembro-me dos nórdicos, por exemplo),quantos lares, quantos centros de saúde nos bairros, quantos hospitais, quantas instituições de protecção civil, quantos universidades e institutos de investigação científica poderiam ter sido erguidos? Quantos angolanos teriam sido valorizados? Insisto. Bastaria que se tivesse pensado melhor e aplicados convenientemente os recursos do país como fazem os nórdicos (volto a eles por serem bons exemplos de governação), que não têm nem exigem um décimo das mordomias que exibem os nossos representantes.
Teríamos provavelmente hoje, para além do já referido, deputados bem formados a zelarem melhor pela coisa pública, a discutirem com sabedoria os orçamentos. Mais ainda. Aufeririam salários de normais cidadãos, tabelados pelas competências, sem necessidade de casas luxuosas, nem subsídios para a sua manutenção. Educariam os gestores públicos e as famílias a comportarem-se como gente, não ostentariam riqueza, seriam comedidos nas festas e nos carros de alta gama, a obsessão dos angolanos. Teríamos ganho, com toda a certeza, uma população, no seu todo, muito mais culta, civilizada e responsável, a servir verdadeiramente o país.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião