Especial

Mais angolanos fogem para a Polónia

Nhuca Júnior

Jornalista

Os quatro angolanos que estudavam em Sumy conseguiram sair, finalmente, desta cidade em direcção, provavelmente, à cidade de Poltava, para chegarem, depois, a Lviv, com o objectivo de saírem da Ucrânia pela Polónia.

09/03/2022  Última atualização 07H15
© Fotografia por: DR

O Jornal de Angola soube, terça-feira, da saída dos quatro angolanos de Sumy, mas, até à hora do fecho desta edição, não conseguiu apurar o corredor humanitário utilizado pelos compatriotas.

Porém, uma fonte admitiu que estejam a usar o corredor humanitário Sumy-Poltava, porque os quatro angolanos decidiram refugiar-se na Polónia, e não na Rússia, como se havia admitido há dias. Se o corredor humanitário que está a ser percorrido pelos quatro estudantes for Sumy-Poltava, fica reforçada a ideia de que o objectivo é chegar à cidade de Lviv, uma das principais portas de entrada para a Polónia.

No grupo está apenas um homem. Este frequentava, na Ucrânia, um curso do ramo da Engenharia, enquanto as três mulheres estudavam medicina.  

O Jornal de Angola conseguiu falar, na madrugada de terça-feira (8), com uma das integrantes do grupo (cujo nome é omitido propositadamente), mas de quem não conseguiu obter qualquer informação relevante, por, como disse, não estarem "preparados para nenhuma entrevista".

"Eles colocaram-se numa rota mais perigosa, pela distância e acções militares em curso", declarou, preocupada, a fonte, que disse esperar que os quatro angolanos tenham saído da cidade de Sumy protegidos pela Cruz Vermelha Internacional.

O percurso Sumy-Lviv, com paragem em Poltava, é longo. Por esta razão, o grupo de estudantes pode fazer uma viagem de dois a três dias, para chegar à cidade de Lviv e, a partir dali, entrar na Polónia, onde serão aguardados por funcionários da Embaixada de Angola naquele país.

O grupo saiu da cidade de Sumy utilizando um dos seis corredores humanitários, criados para permitir a fuga da população civil, entre estrangeiros e ucranianos.

Apesar de ter confirmado a saída dos quatro angolanos da cidade de Sumy, a fonte não mencionou o dia da partida, admitindo que tenha sido na manhã de domingo ou na do dia seguinte. Os quatro estudantes, por terem estado na cidade de Sumy, localidade que fica a 774 quilómetros de Lviv, mas a 40 quilómetros da fronteira com a Rússia, deveriam sair da Ucrânia pela Rússia, tendo em  conta a proximidade.

Pensando na crítica situação dos quatro angolanos na cidade de Sumy, de onde já saíam relatos do agravamento da guerra e do corte do abastecimento de água e luz, a Embaixada de Angola na Rússia terá decidido intervir, fazendo uma solicitação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo de vistos de curta duração para a entrada dos estudantes em território russo.

A entrada dos quatro angolanos na Rússia também estava condicionada à abertura de um corredor humanitário. Se tivessem entrado na Rússia, chegariam, primeiro, à cidade de Belgorod, onde o Estado angolano tem vários bolseiros, para, depois, seguirem viagem até Moscovo, de onde partiriam para a cidade de Luanda.

A Embaixada de Angola na Polónia teve sob controlo 277 cidadãos, entre adultos e crianças, que deveriam ser repatriados para Angola, tendo chegado a Luanda apenas 30 pessoas, na madrugada de domingo. Depois da divulgação da chegada à capital do país dos 30 cidadãos, não foi avançada à comunicação qualquer informação sobre mais entradas de refugiados angolanos na Polónia.

A fonte disse ser possível que continuem a sair da Ucrânia mais angolanos, por terem ficado alguns em cidades distantes de Lviv, como Odessa. Por esta razão, já é pública a chegada de angolanos a outros países vizinhos da Ucrânia, utilizados como trânsito para a continuação da fuga para outros destinos, como Portugal, França, Alemanha e Espanha.

 Civis são retirados de Sumy

Residentes da cidade ucraniana de Sumy começaram, ontem, a ser retirados, através de um corredor humanitário, no 13.º dia da guerra na Ucrânia, numa nova tentativa para socorrer civis bloqueados por bombardeamentos russos, anunciou a presidência ucraniana.

De acordo com a imprensa internacional, a cidade de Sumy situa-se perto da fronteira com a Rússia, cerca de 350 quilómetros a Nordeste de Kiev, e tem sido alvo de ataques aéreos russos, que, na segunda-feira à noite, provocaram 21 mortos, incluindo duas crianças, segundo as autoridades ucranianas.

"Foi dado a Sumy um corredor verde, a primeira fase da evacuação (da cidade) já começou", anunciou o chefe-adjunto do gabinete do Presidente da Ucrânia, Kyrylo Tymoshenko, no serviço de mensagens Telegram, citado pela agência ucraniana Ukrinform.

Tymoshenko acompanhou a mensagem com um vídeo em que se vêem autocarros com o símbolo da Cruz Vermelha no vidro, que a Urkinform disse que estavam a sair de Sumy.

As autoridades ucranianas, que tinham recusado, na segunda-feira, uma proposta russa para que os residentes da cidade fossem levados para a Rússia, confirmaram a criação de um corredor humanitário entre Sumy, Golubivka, Lojvitsa, Lubny e Poltava.

"Foi acordado um cessar-fogo ao longo da rota a partir das 09:00 locais (08:00 em Angola)", disse a vice-Primeira-Ministra e ministra para a Reintegração dos Territórios Ocupados da Ucrânia, Iryna Vereshchuk, numa mensagem de vídeo.

A ministra ucraniana disse que o corredor estaria aberto até às 21:00, horário local (20:00 em Angola), e que nenhuma outra rota foi acordada com a Rússia. A abertura do corredor para Sumy foi notificada pelo Ministério da Defesa russo ao Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), ainda segundo Vereshchuk.

A ministra manifestou, no entanto, o receio de que as forças russas tentem perturbar a operação e obriguem o comboio de autocarros a seguir por outra rota.

"Vamos retirar as pessoas em silêncio. O mundo inteiro está a assistir", disse Vereshchuk, exortando as tropas russas a "parar o seu avanço" durante a operação humanitária.

Ontem, pouco depois das 10:00 locais (09:00 em Angola), dezenas de autocarros já tinham partido de Sumy para a cidade de Lokhvytsia, 150 quilómetros a Sudoeste, disse o chefe interino da Administração Regional de Poltava, Dmitry Lunin, citado pela agência francesa AFP.

Vistos expiram na sexta-feira

Os vistos de curta duração concedidos aos refugiados angolanos, pelo Governo polaco, devido à situação de contingência que enfrentam, expiram na próxima sexta-feira, dia em que também termina o período de hospedagem no hotel onde foram acomodados e onde ainda devem estar alguns compatriotas.

De acordo com fonte do Jornal de Angola, que acompanha o processo, é possível que angolanos que se negaram a embarcar no voo que no último domingo repatriou 30 compatriotas estejam ainda hospedados no hotel, cujas despesas são, integralmente, suportadas pelo Governo angolano.

Findo o prazo de validade dos vistos de curta duração e o período de hospedagem, refugiados angolanos ao abrigo destas condições podem encontrar dificuldades, esclareceu a fonte.  

Os refugiados angolanos que estavam sob controlo da Embaixada de Angola na Polónia estiveram hospedados numa unidade hoteleira, situada na cidade de Varsóvia. No domingo, 30 compatriotas regressaram ao país, preferindo os restantes, de um grupo de 177 pessoas, ficar na Polónia ou procurar outros países para acolhimento.

O Governo angolano, através do Ministério das Relações Exteriores, informou, num comunicado, distribuído domingo, que os angolanos que decidiram ficar na Polónia estão agora por "sua conta e risco", embora possam vir a receber "apoio consular possível".

Algumas pessoas do grupo que decidiu não embarcar reclamavam do não reembolso dos gastos que terão feito para chegar à Polónia, fugidas da Ucrânia, promessa que as autoridades angolanas, entretanto, não confirmam.   

"Devemos dar ênfase aos esforços feitos pelo nosso Governo para tirar os concidadãos de uma zona de conflito armado", defendeu, a propósito, a fonte que o Jornal de Angola tem citado.

"Como nas redes sociais aparece de tudo, não falta muito para aparecer alguém a dizer que o Governo angolano não teve nenhuma despesa com os angolanos que chegaram à Polónia", ironizou.

 

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