Reportagem

Maior evento mundial desde o surgimento da pandemia

Bernardino Manje

Jornalista

Dubai é uma cidade e um dos sete Emirados Árabes Unidos (EAU) conhecida pelos shoppings de luxo, arquitectura ultramoderna e animada vida nocturna.

09/01/2022  Última atualização 07H50
Expo Dubai © Fotografia por: DR
Burj Khalifa, a torre mais alta do mundo, com 830 metros de altura, está neste emirado. Estes e outros encantos fazem do Dubai - tal como outras cidades dos EAU - um dos principais destinos turísticos do mundo. Aliás, os Emirados Árabes Unidos é a mais bem sucedida entre as nações do Golfo e há muito goza do estatuto de principal nação turística do Conselho de Cooperação do Golfo. O país é, também, a maior força turística do mundo árabe.

Só para se ter uma ideia, em 2018, o turismo nos Emirados Árabes Unidos empregou mais de 604.300 pessoas. E espera-se que continue em expansão, com a receita a aumentar 12,4 por cento do PIB do país em 2027 e empregar mais 410 mil pessoas, de acordo com o Portal Oficial do Governo.

Milhares de cidadãos, sobretudo estrangeiros, acorrem, diariamente, à Expo Dubai 2020, montada a poucos quilómetros da cidade deste emirado, numa área de 4,38 quilómetros quadrados. A exposição recebe, diariamente, cerca de 500 mil visitantes. Até 31 de Março, data de encerramento da Expo, prevê-se que tenham visitado o certame cerca de 25 milhões de pessoas.

Trata-se do primeiro grande evento mundial, após o surgimento da Covid-19, e o primeiro num país árabe. O certame acontece numa altura em que os Emirados Árabes Unidos comemoram o 50.º aniversário da sua formação, pois o país se tornou independente da Inglaterra, a 2 de Dezembro de 1971.

São, no total, 200 pavilhões com a participação de 191 países, entre os quais Angola, que investiu cerca de 10 milhões de dólares para ter um pavilhão que dignifique o nome do país. Cada um dos países tenta mostrar as suas potencialidades económicas e a sua cultura, num evento cujo lema, ao fim e ao cabo, tem em vista um objectivo comum: "Conectando mentes e criando o futuro”.

Num país onde o modernismo é visto a olho nu, o leitor já pode ter uma noção do nível de organização desta exposição. Os serviços de táxis estão disponíveis a qualquer lugar e hora e o turista ainda tem a opção de se deslocar de metro, que tem uma nova linha, desde o centro da cidade até à vila da Expo. Numa cidade em que abundam auto-estradas e viadutos, a viagem de carro até ao local da exposição é feita em cerca de 20 minutos.

Toda a cidade é impecável em termos de higiene. É raro ver um papelinho que seja no chão. O mesmo cenário e ambiente são registados na Expo, onde foram montadas, numa distância de poucos metros umas das outras, casas de banho e equipamentos de higienização das mãos, para prevenção à Covid.

Para toda essa "engenharia”,  as autoridades do Dubai também contam com a colaboração da mão-de-obra estrangeira, seja na garantia dos serviços de manutenção, seja na segurança ou limpeza de todo o perímetro. Aliás, a maior parte dos 9,1 milhões de pessoas nos EAU (cerca de 88%) é imigrante, sendo, por isso, fácil notar que os serviços de construção, comércio e até de táxi, por exemplo, são assegurados por cidadãos do Sudeste Asiático, principalmente da Índia, Paquistão e Bangladesh, além de imigrantes da Malásia, Indonésia e Filipinas.


Investimento bilionário

Voltando à Expo, sublinhe-se que as autoridades do emirado do Dubai investiram muito dinheiro para o sucesso do certame. Exagero ou talvez não, o jornal "O Globo” falou em 7 biliões de dólares! A verdade é que foram criadas várias infra-estruturas que justificam o dispêndio de muito dinheiro, mas com grandes ganhos à vista.

Após o certame, o local onde foi montada a Expo vai ser transformado num novo bairro da cidade. Cerca de 80 por cento das estruturas serão aproveitadas como moradias e também como ambiente de negócios, além de continuar a funcionar como atracção turística.

As exposições mundiais, aliás, costumam deixar legados arquitetónicos que se transformam em atractivos para viajantes. É o caso da Torre Eiffel, construída para a Expo de 1889, em Paris, e o Atomium, em Bruxelas (1958).

Realizadas desde 1851, as Expo são conhecidas por reunir diferentes nações e por buscar soluções inovadoras para desafios mundiais. Desde 2000, vêm sendo realizadas de cinco em cinco anos (com excepção da de Dubai, por causa da pandemia). A última tinha sido em Milão (Itália), em 2015. A próxima será em 2025, nas cidades japonesas de Osaka e Kansai.


O Dia de Angola

Angola assinalou, a 22 de Dezembro último, o seu dia na Expo Dubai 2020, num acto prestigiado pelo Presidente da República, João Lourenço.

O Chefe de Estado afirmou que o pavilhão de Angola mostra ao mundo que o povo angolano está talhado para vencer, superar obstáculos e caminhar em frente, mesmo quando confrontado com circunstâncias adversas, como as que a pandemia da Covid-19 impôs ao mundo. Mostrando que gostou do que viu, Joao Lourenço felicitou a todos os responsáveis pela concepção, construção e elaboração dos programas que o pavilhão tem exibido aos visitantes.

"Estou aqui neste espaço, em que convergem culturas, conhecimentos, experiências e o saber dos diferentes povos do nosso planeta, a fim de celebrarmos o dia nacional de Angola na Expo Dubai 2020, e testemunhar, em representação de todos os angolanos, a capacidade empreendedora que nos é característica, posta em evidência com particular criatividade no nosso pavilhão”, disse.

Um estadista que se tem afirmado como um defensor do ambiente, João Lourenço voltou a referir-se ao assunto no Dia de Angola na Expo. "A construção de um futuro de desenvolvimento e de bem-estar no nosso país apela-nos para a necessidade da preservação do ambiente, por forma a contribuirmos para a sustentabilidade do nosso planeta”, defendeu.

O pavilhão de Angola tem recebido muitas visitas, quer de homens de negócios, quer de pessoas singulares, interessadas em saber sobre a história do país. Muitos chegaram a solicitar crachás com a réplica da Bandeira Nacional que alguns membros da delegação angolana exibiam no peito. Alguns estrangeiros faziam-no apenas porque se encantaram com a Bandeia de Angola e outros para acumularem lembranças da Expo Dubai 2020.

A comissária-geral de Angola na Expo, Albina Assis, revelou que o pavilhão recebe, em média, entre oito a 12 mil visitantes. Esta adesão, considerou, significa que o país continua a ser alvo do interesse de investidores e que é respeitado, sobretudo em África. Questionada sobre que mensagem era passada aos visitantes do pavilhão, Albina Assis disse:

"Angola vende a sua imagem, a de um país que se quer desenvolver, cooperar e afirmar-se, cada vez mais, no concerto das nações como um país desenvolvido”. É isso o que será feito até 31 de Março, quando o palco da Expo for encerrado.
Segundo apurou o Jornal de Angola, a construção e a garantia dos serviços no pavilhão de Angola estão avaliado em cerca de 10 milhões de dólares.

O programa do Dia de Angola na Expo encerrou, no pátio do pavilhão, com um espectáculo musical assistido, do princípio ao fim, pelo Presidente da República, a Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, ministros de Estado, ministros e outras entidades que acompanharam João Lourenço durante a sua visita de Estado aos Emirados Árabes Unidos, que começou em Abu Dhabi, a capital política.

O show foi abrilhantado pelos músicos Nanuto, Yola Semedo e Daniel Nascimento, que, bem acompanhados pela Banda N'gola, cantaram, ao vivo, algumas músicas mais conhecidas do seu repertório. Na coordenação do espectáculo - tal como está a acontecer em todas as actividades culturais no pavilhão de Angola - esteve Kayaya Júnior.


DEIRA
Local de eleição dos angolanos


Situado ao norte de Dubai Creek, Deira é o antigo centro de Dubai e um dos lugares mais importantes da cidade, devido ao seu carácter comercial. As áreas mais interessantes para visitar são os mercados. O mais importante o turista encontra no Souk Spice (mercado de especiarias), no Gold Souk (mercado de ouro) e no Mercado de Perfume.

Formado por 300 lojas que já existem desde os tempos antigos, Gold Souk é a área onde existe a maior concentração de joalheiros no Dubai. Foi por aquelas lojas que Dubai passou a ser conhecida como a "Cidade do Ouro”. Deira é muito frequentada por angolanos e conhecida pelos preços relativamente mais baixos praticados pela maior parte das lojas, em comparação com outros lugares do Dubai.

Em termos de agitação nas vendas, Deira chega a fazer lembrar os conhecidos armazéns do Hoji-ya-Henda, em Luanda. Uma comparação que apenas pode ser feita sob aquele ponto de vista, porque em termos de organização, higiene e estado de conservação das estruturas, por exemplo, não há - nem sequer pode haver - qualquer semelhança.

No local, os angolanos têm a fama de ser bons clientes, pois compram de tudo um pouco e, muitas vezes, sem olhar tanto para o preço. Os vendedores lamentam, por isso, a crise financeira que o país vive, pois tem influenciado negativamente nas vendas. "Ah, amigo, crise no Angola está fazer mal. Angolano já nu vem comprar muito aqui”, desabafou, num português arrojado, Zabeel, um intermediário (são muitos por cá) indiano ligado a uma boutique em pleno coração da Deira.

Algumas figuras mediáticas angolanas também são referenciadas, o que parece provar a frequência dos nossos compatriotas no local. Um outro angariador de clientes, também indiano, cujo nome não foi possível obter, procurou saber do político e empresário angolano Bento dos Santos "Kangamba”. "Como ele está?”, perguntou o jovem barbudo, num português bem perceptível. "Ele é meu amigo e frequenta esta zona”, acrescentou, ao tentar justificar-se.

Pela correria, não foi possível apurar do efêmero interlocutor se Kangamba frequenta a área por ter lá alguns interesses de negócios ou apenas como simples cliente. As duas hipóteses não são de descartar, tal como uma terceira: a de que a história daquele indiano, segundo a qual é amigo de Kangamba, pode ter sido apenas invenção sua, no âmbito da estratégia de criar empatia e poder conquistar mais um cliente num local onde a oferta chega a superar a procura, tal é a quantidade de lojas.

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