Opinião

Macron tem o tapete estendido para ganhar

Filomeno Manaças

A testemunhar a importância que a Europa atribui às eleições presidenciais francesas de domingo próximo (24.04), três chefes de Governo europeus da família da social-democracia assinam, na edição de hoje do jornal Le Monde, textos a apelarem ao voto em Emmanuel Macron, que concorre a um segundo mandato no Palácio do Eliseu.

22/04/2022  Última atualização 06H20

Pedro Sanchez (Espanha), Olaf Scholz (Alemanha) e António Costa (Portugal) emprestam as suas  penas para discorrer sobre as vantagens do projecto europeu e alertar aos franceses para o perigo que representa, para a União Europeia e para si próprios, o voto em Marine Le Pen e a escolha da extrema-direita para governar.

Depois da primeira volta das eleições presidenciais de domingo (10.04), que apurou os dois candidatos para o confronto decisivo, que terá lugar depois de amanhã, Macron e Marine Le Pen fizeram-se de novo à estrada e intensificaram a campanha eleitoral à conquista dos votos dos indecisos e, em particular, da esquerda radical, de Jean-Luc Mélenchon, que já orientou para que nem um voto sequer seja dado à extrema-direita, mas de onde poderão sair, entre os jovens eleitores, os chamados "votos de protesto” a favor da candidata da União Nacional.

Neste segundo turno da campanha eleitoral, Marine Le Pen viu praticamente surgir contra si uma "barragem de fogo”: a Igreja Católica deu voz ao manifesto e apelou ao voto em Emmanuel Macron - dados divulgados pela imprensa revelam que 40 por cento dos católicos praticantes votaram por Marine Le Pen na primeira volta. Organizações sócio-profissionais e alguns sindicatos também fizeram apelo ao voto em Macron. Como se não bastasse, por estes dias, também surgiram, na imprensa, notícias sobre um relatório do organismo de luta anti-fraude da União Europeia que acusa Marine Le Pen de ter desviado, enquanto esteve a exercer o mandato como eurodeputada, 600 mil euros, acusação que a política de extrema-direita afirma ser "jogo sujo”.

Foi em meio a esse ambiente que, na quarta-feira, as duas figuras mais votadas da primeira volta das presidenciais realizadas domingo (10.04) - Emmanuel Macron, do A República em Marcha, e Marine Le Pen, da União Nacional - animaram um debate televisivo de mais de duas horas. Uma disputa que o Le Figaro considerou ter sido "um diálogo sem vencedor por KO, mas com vantagem para o candidato Presidente sobre a sua adversária da extrema-direita”.

Portanto, estão lançadas as bases para assegurar que Macron obtenha nas urnas uma vitória que o vai permitir estar à frente dos destinos da França por mais cinco anos - ou até mais, se nesse período a Constituição for revista para consagrar mandatos de sete anos e torná-lo elegível e ele concorrer e ganhar. A revisão da carta magna, para estender o mandato presidencial de cinco para sete anos, é assunto que coze em lume brando e sobre o qual a imprensa tem já feito algumas abordagens.

Ainda que com vantagem do candidato do "A República em Marcha”, qualquer que seja, o resultado das eleições de domingo próximo é esperado com grande interesse, pela simples razão de que, como afirmam os especialistas em França (cientistas políticos e sociólogos), está em curso um fenómeno a que chamam "recomposição do eleitorado”.

Essa recomposição, e que tem estado a animar os debates sobre o devir da paisagem política em França, é caracterizado essencialmente pelo lento mas contínuo desaparecimento dos partidos tradicionais - A República, de direita, e o Partido Socialista, de esquerda -, cujos candidatos tiveram resultados que foram considerados um caos: abaixo de 5 por cento, o que não lhes permite sequer reclamar o reembolso, pelo Estado, dos valores que foram gastos na campanha eleitoral. Valérie Pecresse, do A República, obteve apenas 4,78 por cento dos votos e Anne Hidalgo, do Partido Socialista, ficou bem distante, nos 1.75 por cento dos votos.

Macron aparece assim como a figura que está a pulverizar as formações à esquerda e à direita, colocando A República em Marcha como a primeira força política, razão por que se começa já a discutir o que será o movimento depois de Macron e, na esteira dessa abordagem, a passagem dos mandatos presidenciais de quinquenal para septenal, porque - argumenta-se - cinco anos é pouco tempo para apresentar resultados.

Um outro debate em curso diz respeito à abstenção (que rondou os 26 por cento, na primeira volta), ao voto em branco e ao voto de protesto. A abstenção como manifestação de indiferença por parte do eleitor ou como recusa em participar num processo, porque não se revê nas propostas políticas, o que, tendo em conta o nível elevado que assume, põe em causa a credibilidade dos valores da democracia, um dos quais é a participação no processo de escolha.

As eleições de domingo vão poder dar uma resposta mais assertiva sobre este momento político da democracia francesa.

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