Opinião

Macron e bagre fumado

Manuel Rui

Escritor

Uma vez os ocidentais agarraram no mapa de África e com régua e esquadro fizeram a divisão. Foi a Conferência de Berlim no tempo de Bismark.

27/05/2021  Última atualização 06H40
Quem reparte alguma coisa é porque lhe pertence. A África era deles. Era o centro do mapa mundo. Depois vieram makas com o cumprimento e descumprimento e, por via disso mataram o rei D. Carlos em Portugal. Foi o tempo das colónias, depois do roubo demográfico de milhões de africanos que foram para o outro lado do mar. Depois as independências no papel e as independências decorrentes das lutas de libertação. René Dumont escrevia "A África Negra Começa Mal,” a propósito de Mobutu e outros.

E foram criadas, para além da Organização de Unidade Africana, outras organizações regionais. E nós ainda caímos na CPLP e eu abri a RTP África — "vários povos, uma só língua”, o paleio da lusofonia que foi à Eurovisão cantar em inglês…e em Lisboa está a passar uma exposição de arte lusófona…não sei se Malangatana Valente, sua pintura, cabe no conceito esdrúxulo de lusofonia e a kizaca na gastronomia da tantofonia sendo certo que as mentiras repetidas muitas vezes passam a ser verdades, mas adiante.

Os países costumam encontrar-se pelo relacionamento bilateral, não poucas vezes organizando comissões mistas, ou relacionamento dentro de organizações regionais ou internacionais. Assim, a Organização de Unidade  Africana pode reunir com a Comunidade Europeia, por exemplo. Outro fenómeno decorrente da colonialidade que é o neocolonialismo soft, é o ex-colonizador reunir com um ou todos os países suas ex-colónias. Isto não é texto de ciência mas escrita para que todos entendam. O colonialismo encontrou de tudo em África. Descolonizou mas levou os mapas, as picaretas e África exporta o ferro e depois compra picaretas e recebe gravatas e fatos da última moda europeia enquanto nos palcos europeus artistas africanos se fantasiam de panos do Congo, o mais das vezes feitos na Europa, descontextualizando um passado que não é.

O ocidente costuma vir a África já sem aquele capacete do general Carmona. E é recebido com festas e bandeiras, África não fabrica armas mas um embaixador inteligente, sabedor de comissões, consegue impingir armas a África, de fiado, para agravar o crédito porque África tem de ser sempre devedora, depois há guerras absurdas, quem morre são os soldados, gente pobre, mais os civis, também gente pobre, enquanto algumas burguesias de África se deleitam com champanhe, encomendam casamentos por avião, vem tudo, bolo da noiva, vestido da noiva, flores, águas de colónia e um etc. repleto de fome, lixeiras e inibições.
Hoje, reflexões feitas em universidades ocidentais repõem o nosso continente como foi entendido na conferência de Berlim. África é o centro do mundo, não apenas geograficamente mas na origem da humanidade. É um continente rico, em água, em terra, em floresta. Podia ser um continente "limpo” mas a sedução do petróleo não escapa à visão ocidental.

Porquê que Mácron inventou esta chamada? Porque a África é o centro da globalização. Cinco séculos depois das invasões a que chamaram descobrimentos ou expansão, esclavagismo e primeira acumulação de capital, África está no cerne do comércio mundial de mercadorias. Como se situa no acasalamento dos oceanos Atlântico e Indico, Mar Vermelho e Mediterrâneo, África continua como centro  dos movimentos mundiais de circulação. O episódio do encalhe da grande embarcação porta-contentores no canal do Suez. Falou-se na empresa operadora…mas nada sobre África, passagem ou obstáculo entre a Ásia e a Europa… Foram os franceses que abriram o canal do Suez na segunda metade do século XIX, de suma importância para a circulação mundial.

A África vai a Paris. Das manifestações. Dos coletes amarelos. Dos assustados com a identidade invadida por tantas identidades. Da proibição das mulheres muçulmanas taparem o rosto e, agora, com a pandemia…a máscara ser obrigatório. Macron tem de se compensar contra o direitismo de  Marine Le Pen. E a conferência, ou mais do que isso, com lideranças africanas é uma carta forte não só para as eleições mas também para a posição na Europa.

E tinha que haver rebuçados.  Numa entrevista dada no Palácio do Eliseu à RFI, Macron diz que G20 tem dever moral de ser solidário com a África diante da pandemia da covid-19 e explica estratégias para ajudar  a enfrentar  pandemia. contradição porque a África é o continente menos afectado pelo coronavírus. O professor Raoult, nascido em Dakar falou que a África está relativamente protegida graças ao consumo de medicamentos contra a malária desde criança (ai se o negacionista, cloroquinista das motas, que por higiene e álcool gel não refiro nome sabe disto? E a questão do fabrico de vacinas em África é com atraso…quando a Europa estiver imunizada…vamos receber os laboratórios em 2ª mão…e como não há pessoal formado (cuja formação já deveria ter começado)… e como toda agente sabe que os países ricos estiveram-se nas tintas para os países pobres em matéria de imunização,  o Papa falo nisso, o  discurso sobre vacinas passou ao lado.
Mas para África escorregar na sua própria casca de banana vem o rebuçado da divida.
Que os ministros das Finanças do G20 aprovem uma moratória da divida contraída pelos países africanos e a longo prazo defende o cancelamento das dívidas dos países do sul, falou Macron.

Mas como é que África está sempre a dever e cada vez mais? E não entende, batendo palmas, que o perdão da dívida é para contrair novas dívidas, dizem que só a China é credora de 40 por cento das dívidas de África? Como assim? Porque não se cumprem os orçamentos. Porque não há fiscalização sobre a execução do orçamento. Porque há ordens pelo telefone para que se entregue dinheiro sem cabimento orçamental e etc., etc., que meu amor é do conjunto… Felizmente que Angola tenta dar a volta ao texto depois da miudagem que estudou sentada em latas, passou a carteiras, cresceram e hoje já temos quadros nacionais. É momento de fazermos com os nossos engenheiros, os nossos médicos, os nossos arquitectos, os nossos juristas, os nossos economistas. Continuando a substituir importações.

Macron não veio à pesca de bagres. Recebeu os bagres já fumados, alguns, como Moçambique, estorricado com o sofrimento do seu povo, a ver se Macron resolve a paralisação do empreendimento do gaz, o chamado terrorismo, os efeitos acumulado das divídas ocultas, o braço armado da Renamo, os terroristas a que chamam insurgentes. Outros, saem felizes com o fantasioso perdão da dívida.
E é triste verificarmos que a África não sobe escadaria. Fica degraus para o primeiro mundo subir.

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