Reportagem

Mabunda do peixe e da Avó Mabunda

O Mercado da Mabunda, localizado no distrito urbano da Samba, é um dos maiores fornecedores de peixe fresco, senão mesmo o maior da capital do país. É o destino preferido de centenas de citadinos. Isso apesar de constrangimentos tais como a falta de higiene e a presença constante de larápios que, volta e meia, podem deixar o visitante aos prantos. Há ainda o desrespeito total às regras de distanciamento físico em tempo de Covid

25/07/2021  Última atualização 07H45
© Fotografia por: Filipe Eduardo | Edições Novembro
São 4 horas e 45 minutos da manhã, o movimento de pessoas e viaturas, com realce para os candongueiros, é já notável. Cerca de trinta jovens, posicionados logo à entrada do mercado, uns sentados, outros de pé, atentos a todo o movimento, oferecem vários serviços aos visitantes, tais como lugar para estacionar a viatura ou o carregamento do peixe que ainda nem sequer foi comprado. São exigentes, resistem e insistem ante as constantes negações, até convencerem o visitante.

Mais no interior, já na entrada do parque de estacionamento, ao lado do fiscal que cobra o parqueamento, está um jovem com uma faca na mão, atento ao primeiro cliente. Mas não foi desta que ele conseguiu, pois o interpelado foi à Mabunda com outro propósito.
O jovem é o Geraldo Kahoma, 27 anos de idade, há dois meses em Luanda, proveniente do município de Ekuma, província do Huambo, a morar na Congeral, na Corimba. É um dos muitos jovens que logo pela madrugada fazem-se ao Mercado da Mabunda à procura de ganhar o pão. 

Geraldo Kahoma diz que tudo vale para amealhar algumas moedas, mas é como escamador que ganha a vida. Para ele nem todos os dias são bons. Há aqueles em que só consegue mil kwanzas, quinhentos dos quais servem para o jantar, mas o jovem solteiro acredita em Deus e em dias melhores, daí a força de voltar sempre ao mercado, apesar de não ser fácil mobilizar um cliente.

No interior do mercado, bem ao lado da praia, as vozes cruzam-se. Cada um, homem ou mulher, publicita o seu produto. "Cinco cachuchos mil e quinhentos, quatro espadas quatro mil, calafate grosso para o calulu três mil’’... Enfim, é o barulho ao ouvido de quem cedo abandonou a residência em busca de peixe fresco. Os barcos continuam a chegar sob o olhar atento das peixeiras com bacias na cabeça, que cercam de imediato os marinheiros mesmo antes do barco estar completamente imobilizado.

Por volta das seis da manhã o movimento já é intenso, não só de peixeiras mas também de vendedores de outros produtos, entre bebidas, comida, frutas e outros bens alimentares. No interior do mercado, outra presença de aglomerados de jovens é notória, uns a trocarem o enrolado de liamba diante de transeuntes que assistem ao cenário com certa normalidade. 

Enquanto uns relaxam com o tabaco e cervejas, outros, como é o caso de Mateus João, 27 anos, trabalham afincadamente. Mateus, que pediu para não ser fotografado, vende sacos há três anos na Mabunda. A sua actividade começa normalmente às cinco e trinta e só no fim do dia regressa à casa, no bairro São Pedro da Barra. A escolha deste mercado, distante da sua área de residência, tem a ver, de acordo com o jovem, com a procura de sacos por parte dos compradores de peixe. Há dias em que consegue amealhar quinze mil kwanzas, um montante satisfatório.


O homem do mar

Mário Ambrósio, marinheiro, acabado de chegar do mar com um saco de peixe para o consumo de casa, depois de ter passado a noite a pescar, é de opinião que o Mercado da Mabunda melhorou de forma significativa, isto comparado com o tempo da antiga Administração. Realça como melhoria a energia eléctrica e a limpeza do espaço. As dificuldades de trabalhar no mar, de acordo com o jovem marinheiro, têm a ver com as frequentes complicações com a Polícia marítima. Acrescenta que há vezes em que os marinheiros são interpelados pela Polícia que sai da Ilha de Luanda, uma área que não é de sua jurisdição, só para "pentearem”. A Polícia, que muitas vezes vai "até lá ao fundo”, pede documentos só para complicar, uma actividade que, segundo Mário Ambrósio, é da responsabilidade das Pescas e da Capitania.

Quanto à actividade de pesca, o marinheiro, católico confesso, diz que Deus "dará sempre peixe aos seus filhos, numa acção que prova o amor do Senhor para com os homens”. Sobre as reclamações do alto preço do peixe, Mário diz que tudo tem a ver com a situação que o país vive, com todos os produtos a subirem de preço. Acrescenta que o pescador não vive só do peixe, logo, "é obrigado a acompanhar a dinâmica do mercado”. Mário Ambrósio deixa um apelo à  Administração do mercado, no sentido de reforçar a acção de limpeza, concretamente na lavagem do chão nas bancadas do peixe grosso, junto às instalações principais, e a ver a situação do lixo "que já deita bichos, na vala que dá acesso ao mar”. A acção de sensibilização para o correcto manuseamento do lixo, com realce para as tripas do peixe, "deve ser também uma aposta da Administração do mercado”, segundo o marinheiro.


Cinquenta anos no mercado

Ana Francisco Diabata é da Fiscalização do mercado, concretamente da área da cobrança.             A sua história confunde-se com a da Mabunda. Há 50 anos a trabalhar neste mercado, Tia Ana, como também é conhecida, já ocupou várias funções, desde arrancadora de cabeças de kimbumbo, enquanto pequena, a vendedora. Depois de muito tempo, foi convidada para ser funcionária do mercado, uma decisão aceite com o conselho da sua mãe, já falecida. Ela afirma que, como fiscal, começou com um salário irrisório, mas foi subindo pouco a pouco e hoje já se sente um pouco tranquila com o que ganha, com o acréscimo da consolação da reforma garantida.

Tia Ana conta que o mercado antes funcionava fora, bem ao lado da praia, numa altura em que, segundo diz, era administrado por um indivíduo chamado Malungo. Refere que quando este viesse apanhar peixe em tempo de férias, encontrava sempre muito lixo e bichos de peixe.

 Segundo Tia Ana, as autoridades decidiram construir um novo mercado. Feito o novo mercado, as bessanganas não gostaram do espaço e decidiram regressar ao espaço antigo, mas, depois de muita confusão, acabaram por voltar ao novo mercado. Tia Ana relata que gente vinda do Rocha Pinto e de outras áreas de Luanda começou a frequentar o local para apanhar cabeças de peixe kimbumbo, o movimento de pessoas aumentou e o mercado ganhou fama até aos dias de hoje.


Avó Mabunda, a própria

Conceição Álvaro, a famosa Avó Mabunda, recorda com nostalgia os primeiros tempos do espaço que hoje acolhe centenas de pessoas em torno do negócio do peixe e não só. "Naquele tempo não havia gente aqui”, diz Avó Mabunda, que resolveu dar um passeio ao local frenético da venda de peixe. "Aparecia muitas pessoas e todas vinham ter comigo: ‘Dona Mabunda, Dona Mabunda, dona Mabunda...’”

A anciã diz que está há mais de 100 anos neste mercado, uma informação contrariada pela filha, que se meteu em gargalhadas.
Conceição Álvaro nasceu e cresceu na zona e a sua alcunha, Mabunda, passou a ser o nome do mercado. Ela orgulha-se da fama que granjeou durante este tempo todo, e que lhe tem merecido muito respeito. Afirma, entre gargalhadas, que quem passou por ela e não a respeitou "levou surra”.

Avó Mabunda já não trabalha devido a  idade, mas a actividade de venda de peixe na sua família continua, já sob responsabilidade da sua quarta filha. 


Reclamação de uma peixeira

Peixeira desde 1998, Eugénia Jamba, irmã gêmea de Ngueve, também peixeira, é conhecida no mercado como a "amiga dos jornalistas”, pois enquanto outras peixeiras se recusam a falar para a imprensa, ela, exibindo toda a sua simpatia, entrega-se ao diálogo com os jornalistas. Vendedora de peixe grosso, Jamba diz que sábados e domingos são os dias de maior venda de peixe grosso.  Sobre os preços, ela diz que variam. Uma corvina branca grossa, por exemplo, custa entre oito e dez mil kwanzas. O galão e a garoupa, igualmente grossas, ficam ao mesmo preço. "Ha peixe, desde lambula a corvina, para todos os bolsos”, afirma Eugénia Ngueve, que diz acreditar que melhores dias virão "assim que a pandemia da Covid-19 acabar”.    

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