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Luto nos direitos humanos com a morte de Desmond Tutu ocorrida ontem

O mundo está de luto. Desmond Tutu morreu na manhã de domingo, 26 de Dezembro, na Cidade do Cabo, no Oasis Frail Care Centre, aos 90 anos.

27/12/2021  Última atualização 09H20
Foi um dos mais conhecidos activistas dos direitos humanos da África do Sul que ganhou o Prémio Nobel da Paz de 1984 pelos seus esforços em resolver e acabar com o apartheid. Nascido em 1931 em Klerksdorp, África do Sul, primeiro foi professor, posteriormente estudou teologia, tendo–se tornado o primeiro arcebispo anglicano negro da Cidade do Cabo e Joanesburgo. Através das suas palestras e escritos como um crítico franco do apartheid, ele ficou conhecido como a "voz” dos negros sem voz sul–africanos. Depois de a revolta dos estudantes no Soweto se ter transformado em tumulto, Tutu apoiou o boicote económico do seu país, sem deixar de promover a reconciliação entre as diversas facções associadas com o apartheid.

Quando as primeiras eleições multirraciais da África do Sul foram realizadas em 1994, elegendo Nelson Mandela como o primeiro presidente negro da nação, Mandela nomeou Tutu presidente da Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR).
No seu trabalho dos direitos humanos, Tutu formulou o seu objectivo como "uma sociedade democrática e justa sem divisões raciais”, e estabeleceu exigências para a realização disto, incluindo direitos civis iguais para todos, um sistema comum de educação e o fim da deportação forçada.

Além do Prémio Nobel, Tutu foi agraciado com inúmeros prémios, incluindo o prémio "Pacem in Terris”, o Prémio Bispo John T. Walker de Serviço Humanitário Distinto, o Prémio Liderança Lincoln e o Prémio Gandhi da Paz.


Desmond Tutu continua a viajar muito, defendendo os direitos humanos e a igualdade entre todos os povos, tanto dentro da África do Sul quanto internacionalmente.

Desmond Mpilo Tutu (Klerksdorp, 7 de Outubro de 1931 – 26 de Dezembro de 2021) foi um arcebispo da Igreja Anglicana consagrado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984 por sua luta contra o Apartheid em seu país natal. Desmond é o primeiro negro a ocupar o cargo de Arcebispo da Cidade do Cabo, tendo sido também o Primaz da Igreja Anglicana da África Austral entre 1986 e 1996.


Biografia

Desmond Mpilo Tutu nasceu em Klerksdorp em 7 de Outubro de 1931, sendo o segundo filho de Zacheriah Zililo Tutu, um professor, e de Aleta, uma cozinheira. A família de Tutu mudou-se para Johannesburgo quando ele tinha apenas 12 anos de idade. Na cidade de Johannesburgo, Tutu conheceu Trevor Philips, chefe da paróquia de Sophiatown.


Apesar de Tutu ter o desejo de se tornar um médico, sua família não tinha como pagar os seus estudos de Física e Tutu resolveu seguir os passos de seu pai.


Tutu estudou na Pretória Bantu Normal College entre 1951 e 1953, quando foi para a Escola Normal de Johannesburgo. Depois foi para a King's College de Londres onde adquiriu bacharelato em Teologia.


Em 1975, se tornou o primeiro negro a ser nomeado deão da catedral de Santa Maria, em Johannesburgo. Após ser sagrado bispo, dirigiu a diocese de Lesoto de 1976 a 1978, ano em que se tornou secretário-geral do Conselho das Igrejas da África do Sul. Sua proposta para a sociedade sul-africana incluía direitos civis iguais para todos; abolição das leis que limitavam a circulação dos negros; um sistema educacional comum; e o fim das deportações forçadas de negros.
Sua firme posição antiapartheid – a política oficial de segregação racial – lhe garantiu, em 1984, o Nobel da Paz. Recebeu o título de doutor honoris causa de importantes universidades dos Estados Unidos (EUA), do Reino Unido, do Brasil e da Alemanha.


Em 1996 presidiu a Comissão de Reconciliação e Verdade, destinada a promover a integração racial na África do Sul após a extinção do apartheid. Esta comissão tem poderes para investigar, julgar e anistiar crimes contra os direitos humanos praticados na vigência do regime.


Em 1997 divulgou o relatório final da comissão, que acusa de violação dos direitos humanos tanto as autoridades do regime racista sul-africano quanto as organizações que lutavam contra o apartheid na África do sul. Actualmente é membro do Comitê de Patrocínio da Coordenação Internacional para o Decênio da cultura da não violência e da paz.


Apartheid

Ao lado de Nelson Mandela, Desmond Tutu foi uma das figuras centrais do movimento contra o Apartheid. Tutu iniciou centenas de protestos em locais públicos contra o Governo sul-africano, mesmo assumindo posições altas no clero africano, Tutu continuou a lutar contra a segregação racial em seu país. Como reconhecimento por seus esforços para promover a igualdade na África do Sul, Desmond Tutu recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1984.


Vida Pessoal

Em 2 de julho de 1955, Desmond Tutu se casou com Nomalizo Leah Shenxane, uma professora que ele conheceu durante a época colegial. Tutu e Nomalizo tiveram quatro filhos: Trevor Thamsanqa Tutu, Theresa Thandeka Tutu, Naomi Nontombi Tutu e Mpho Andrea Tutu. Todos se formaram na Waterford Kamhlaba School na Suazilândia.


Trevor Tutu, o filho mais velho e mais polêmico de Desmond Tutu, provocou uma evacuação no Aeroporto de Londres em 1989 através de uma falsa denúncia de bomba e foi detido. Três anos depois Trevor foi condenado por causar pânico em um avião da South African Airways no mesmo aeroporto, porém se recusou a pagar a sentença e só foi preso em Johannesburgo em 1997.


Naomi Tutu é a fundadora da Fundação Tutu baseada na cidade de Hartford no estado norte-americano de Connecticut. Naomi seguiu os passos de seu pai e ingressou no activismo dos direitos humanos, sendo actualmente uma coordenadora da Fisk University de Nashville, Tennessee.


Mpho Tutu também seguiu os passos de seus pais na religião e em 2004 foi ordenada sacerdotisa por seu pai.
Em 10 de Junho de 2010, durante o Show de Abertura da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul, Desmond Tutu reapareceu publicamente. Trajado com o uniforme da Seleção Sul-Africana, discursou de forma bem-humorada no palco do espetáculo, causando a euforia do público presente. Tutu falou sobre o nacionalismo e sobre os efeitos do evento no país, e ao final pediu que o povo saudasse Nelson Mandela.


Tutu no mundo actual da África do Sul
Desde o fim do Apartheid, Tutu é uma das figuras centrais da política sul-africana. Ao lado de seu amigo, Nelson Mandela, Tutu é respeitado por toda a população de seu país natal por sua luta incansável contra a segregação racial. Certa vez Mandela disse que "a voz de Desmond Tutu será sempre a voz dos sem vozes". Desde seu afastamento da política, Tutu tem mantido uma relação estreita com os políticos da África do Sul e tem feito duras críticas ao Governo, acusando os governantes de corrupção e ineficácia para lidar com a pobreza e com os surtos de xenofobia recentes no país.


Tutu também é muito crítico com a elite política do país e já chegou a dizer em um discurso público que o país estava "sentado num barril de pólvora".


As principais críticas de Tutu são de que o país não conseguiu amenizar os índices de pobreza uma década após o Apartheid. Tutu também não se conforma com a exclusão dos negros em alguns ambientes. Tutu ainda se mantém extremamente crítico com os governantes de seu país e os acusa de xenofobia e corrupção activa.  Desmond Tutu participa ainda, com outros ex-líderes de Estado, do grupo "The Elders", fundado por Nelson Mandela.


Oriente Médio

Embora Tutu reconheça os judeus como participantes activos da luta contra o Apartheid na África do Sul, Tutu se posiciona contra os conflitos na Palestina e o incentivo ao armamento bélico de Israel. Tutu compara a segregação israelita contra os palestinos à segregação racial que seu povo sofreu durante o Apartheid.


Em 1988, o American Jewish Committee (AJC) fez algumas observações sobre as críticas de Tutu e chegaram à conclusão de que Tutu se mostrou muito crítico com Israel e comparou os militares israelenses com os racistas do Apartheid. Tutu negou ter feito declarações antissemitas,[13] mas manteve sua posição contra os militares judeus e afirmou que "o Sionismo é paralelo ao Apartheid e parecido com o racismo e o efeito de ambos é o mesmo".

Durante os anos 2000, Tutu têm se mostrado menos crítico com Israel, mas ainda defende intensamente o fim dos conflitos na Faixa de Gaza. Em 2006, Tutu foi convocado pela ONU para ser o líder de uma investigação sobre os ataques israelenses contra a cidade de Beit Hanoun durante a Operação Chuvas de Verão. O Estado de Israel não permitiu a entrada de Tutu no país até 2008.


Fundação Mandela diz que morte de Desmond Tutu é perda "imensurável”

A Fundação Nelson Mandela considerou uma perda "imensurável" a morte do Prémio Nobel da Paz sul-africano Desmond Tutu, salientando que o arcebispo emérito, que lutou contra o apartheid, "foi maior do que a própria vida".
Numa mensagem, a Fundação de Nelson Mandela, o falecido líder sul-africano que ao lado de Tutu lutou contra a segregação racial, considerou que "para muitas pessoas na África do Sul e no resto do mundo" a vida do arcebispo anglicano foi "uma bênção".
"As suas contribuições para as lutas contra a injustiça, local e globalmente, são comparáveis apenas à profundidade do seu pensamento sobre a construção de futuros libertadores para as sociedades humanas", acrescentou.

Para Shenilla Mohamed, director executivo da Amnistia Internacional na África do Sul, Desmond Tutu "nunca teve medo" de nomear os violadores dos direitos humanos, "fossem quem fossem". "O seu legado deve ser honrado, continuando o seu trabalho para garantir igualdade para todos", acrescentou.

Já o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, primaz da igreja anglicana, a que pertencia o arcebispo sul-africano, recebeu a notícia da morte de Desmond Tutu "com profunda tristeza", mas também tem uma "profunda gratidão" pela sua vida.
"O amor de Arch [nome pelo qual era frequentemente tratado Desmond Tutu] transformou a vida de políticos e padres, habitantes de cidades e líderes mundiais. O mundo é diferente por causa deste homem", realçou.

Desmond Tutu, arcebispo emérito sul-africano e vencedor do Prémio Nobel da Paz de 1984 pelo seu activismo contra o regime de segregação racista do Apartheid, morreu ontem aos 90 anos, anunciou o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.

O arcebispo anglicano estava debilitado há vários meses, durante os quais não falou em público, mas ainda cumprimentava os jornalistas que acompanhavam cada uma das suas saídas recentes, como quando foi tomar a sua vacina contra a Covid-19 num hospital ou quando celebrou os seus 90 anos em Outubro.

Desmond Tutu ganhou notoriedade durante as piores horas do regime racista na África do Sul, quando organizava marchas pacíficas contra a segregação, enquanto sacerdote, pedindo sanções internacionais contra o regime branco em Pretória.

Com o advento da democracia, 10 anos depois, o homem que deu à África do Sul o nome de "nação arco-íris" presidiu à Comissão de Verdade e Reconciliação criada com o objetivo de virar a página sobre o ódio racial, mas as suas esperanças foram rapidamente frustradas. A maioria negra adquiriu o direito de voto, mas continua em grande parte pobre.
Depois do combate ao apartheid, Tutu empenhou-se na reconciliação do seu país e na defesa dos direitos humanos. Contra a hierarquia da igreja anglicana, defendeu os homossexuais e o direito ao aborto, tendo nos últimos anos aberto como nova frente de combate o direito ao suicídio assistido.

O Nobel da Paz veio para África por dez vezes. A primeira foi em 1960 e a última em 2019. Eis os laureados africanos reconhecidos pelo trabalho de reconciliação:  
 
Primeiro laureado

Albert Luthuli foi o primeiro africano a receber o Prémio Nobel da Paz, em 1960, pela sua luta pacífica contra a segregação racial na África do Sul. Ele era presidente do ANC na ocasião da premiação, e o movimento de libertação funcionava na clandestinidade. Ele recebeu o prémio em Oslo um ano depois do seu nome ser escolhido, porque a proibição de deixar o país foi suspensa por dez dias.
 
Líder espiritual

O arcebispo Desmond Tutu foi um dos líderes morais da África do Sul, com uma trajectória de defesa dos direitos humanos e contra a discriminação racial. É do religioso a expressão: "Somos uma nação arco-íris". Em 1984, o sacerdote anglicano recebeu o Prémio Nobel. Amigo de Nelson Mandela, Tutu era conhecido pelo bom humor. Um dos seus admiradores é o líder espiritual tibetano Dalai Lama.


Dois adversários unidos

A imagem percorreu o mundo. Quando o herói anti-apartheid Nelson Mandela foi libertado, em 1990, após 27 anos de prisão, a África do Sul prendeu a respiração. Era um momento histórico. A luta incansável de Madiba contra a opressão abriu caminho para a democracia na África do Sul. Coragem, paciência e perseverança conduziram estes dois homens a algo que parecia impossível. Nelson Mandela e Fredrik Willem de Klerk, então Presidente da África do Sul, receberam em conjunto o Prémio Nobel da Paz, em 1993, antes mesmo de Mandela ter sido eleito o primeiro Presidente negro do país.  Pela paz em todo o mundo

Em 2001, o então secretário-geral e a instituição Nações Unidas receberam o Prémio Nobel pelo compromisso com um mundo "mais organizado e mais pacífico". A carreira brilhante de Kofi Annan tem uma ressalva, que veio à tona com as acusações de que a ONU teria sido omissa durante o genocídio no Rwanda. Annan era o chefe das Forças de Paz da ONU em 1994 e admitiu que falhou.


Mama Miti:
"A mãe das árvores"


Em 2004, uma mulher negra recebeu pela primeira vez o Prémio Nobel da Paz: Wangari Maathai. A queniana lutou pelos direitos das mulheres e contra a pobreza no seu país. Maathai foi vice-ministra do Meio Ambiente e era chamada de "Mãe das Árvores" pelo "Movimento Cinturão Verde", que ela mesma criou. Ela celebrou o prémio à sua maneira, escrevendo na sua autobiografia: "Plantei uma árvore."
Três mulheres agraciadas em 2011, três mulheres foram laureadas em conjunto: a Presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, a sua compatriota, a activista de direitos humanos Leymah Gbowee, e a jornalista Tawakkul Karman, do Iémen. As duas liberianas foram homenageadas pelos seus esforços para salvar o seu país da violência da guerra civil.


"Doutor Milagre"

O médico e defensor dos direitos humanos, o congolês Denis Mukwege, fez do apoio às vítimas de violência sexual o trabalho de uma vida inteira. Durante muitos anos, o ginecologista foi o cirurgião-chefe do Hospital Panzi, em Bukavu, que ele próprio fundou em 1999. Ele oferece esperança e renova a coragem das vítimas. Por isso foi premiado em 2018, juntamente com a activista yazidi Nadia Murad.


Iniciativa corajosa
O Primeiro-Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, foi laureado, em 2019, pelo empenho para a paz com a vizinha Eritreia. A insistência pela reconciliação no seu próprio país também impressionou os jurados do Prémio Nobel, apesar da concretização desse objetivo ser longa e difícil. O processo corajoso de reforma no conturbado Estado multiétnico da Etiópia impressionou o júri do prémio. Abiy Ahmed foi o décimo africano a ser reconhecido pelo trabalho de reconciliação.

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