Opinião

Lutar contra poliomielite até ao fim

Quando levei os meus filhos para tomarem as vacinas contra a poliomielite há alguns anos, pensei em como temos sorte por viver num lugar onde podemos ter acesso a intervenções que salvam vidas com tanta facilidade.

23/10/2022  Última atualização 06H35

Não precisámos de fazer uma longa viagem de autocarro ou de caminhar grandes distâncias para chegar à clínica e não havia razão para pensar que não haveria doses suficientes para todos.

Embora eu estivesse totalmente ciente da proteção que os meus filhos estavam a receber, nunca considerei que o poliovírus pudesse representar uma ameaça real em Washington, DC. Afinal, o vírus não era encontrado nos Estados Unidos há anos. Mas os desenvolvimentos recentes são um alerta, ressaltando o quão crucial uma coisa tão simples e rotineira como a vacinação pode ser.

Em julho, as autoridades de saúde confirmaram que a poliomielite tinha paralisado uma pessoa não-vacinada em Nova Iorque. Foi o primeiro caso nos EUA em quase uma década. Depois, o vírus foi encontrado em águas residuais em outras partes do Estado de Nova Iorque, a que se seguiu a notícia de que Londres também havia detetado poliovírus nos seus esgotos. A Organização Mundial da Saúde declarou agora os Estados Unidos e o Reino Unido como países com surto de variante do poliovírus.

A nível global, essas histórias não são únicas. No início deste ano, casos de poliomielite foram confirmados em África pela primeira vez em mais de cinco anos, servindo como um lembrete assustador de como é frágil o progresso do mundo contra a doença. Embora os casos tenham caído mais de 99% desde o lançamento em 1988 de um esforço global para erradicar a doença, a reta final para o zero absoluto tem sido difícil, embora seja essencial.

Felizmente, existe uma estratégia global para finalizar o trabalho, mas, para ter sucesso, terá de ser financiada adequadamente. Lançada no ano passado, a Estratégia de cinco anos da Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite (GPEI, sigla em inglês) já está a ser implementada para interromper e prevenir surtos adicionais. No centro da estratégia estão duas prioridades: trabalhar com países em risco para proteger todas as crianças com vacinas e melhorar a vigilância para rastrear a propagação da doença. A mesma estratégia também está a ajudar a fornecer outras vacinas que salvam vidas a comunidades em áreas remotas, além de trabalhar para fortalecer os sistemas de saúde.

A Fundação Bill & Melinda Gates juntou-se à GPEI, juntamente com a OMS, UNICEF, Rotary International e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, em 2007, porque reconhecemos a oportunidade que o mundo tinha de garantir que a poliomielite nunca mais paralisasse uma criança. Essa oportunidade é ainda mais visível hoje. A poliomielite permanece endémica em apenas dois países - Paquistão e Afeganistão - e embora os números de casos tenham aumentado ligeiramente neste ano, eles ainda estão em níveis extremamente baixos.

Não há apenas um argumento moral para acabar com a doença. Como economista da saúde, também me concentro no impacto mais amplo que essas conquistas podem ter. Para a poliomielite, os benefícios financeiros da erradicação seriam enormes. Se eliminarmos o poliovírus dentro do prazo estabelecido pela estratégia atual, o mundo poderá economizar mais de 33 mil milhões de dólares neste século, em comparação com o custo de continuar a controlar futuros surtos da doença.

Um coro crescente de interessados reconhece essa dimensão financeira e a oportunidade que ela representa. A Gavi, a Aliança da Vacinação, uma parceria público-privada que fornece apoio para a imunização de rotina em 73 dos países mais pobres do mundo, aderiu à GPEI em 2019. E apenas neste mês, mais de mil especialistas em saúde global e cientistas de todo o mundo assinaram uma declaração pedindo aos países que financiem totalmente a estratégia global contra a poliomielite.

Os doadores devem responder a esse apelo e garantir que a GPEI receba os 4,8 mil milhões de dólares de que precisa. Uma estratégia totalmente financiada poderá vacinar 370 milhões de crianças todos os anos durante cinco anos, além de preparar melhor os países contra futuras ameaças à saúde. Durante a pandemia da Covid-19, a infraestrutura da GPEI foi a primeira linha de defesa para muitos países. Desde o início da pandemia em 2020, o programa da poliomielite apoiou o rastreamento de contactos, a vigilância de doenças e o envolvimento da comunidade, além de facilitar o lançamento de vacinas. Este não é um exemplo único: a GPEI respondeu a ameaças como o ébola, o sarampo e a febre amarela, demonstrando consistentemente um alto retorno sobre o investimento.

A verdade é que a reta final da corrida contra a poliomielite provou ser a mais difícil, e os acontecimentos recentes tornaram as coisas mais desafiantes. A pandemia reverteu o progresso na imunização de rotina a nível global. Conflitos violentos, desconfiança nas vacinas e desinformação continuam a levantar barreiras nas últimas áreas onde a doença se esconde. Devido às cheias devastadoras deste ano no Paquistão, os esforços para impedir que a poliomielite se espalhe por lá devem ser redobrados.

Ainda assim, embora a destruição no Paquistão seja avassaladora, foi animador ver a resposta impressionante montada pelo governo e pela comunidade internacional. Ainda é necessário apoio adicional para evitar mais dificuldades, porque as águas altas impedem o acesso aos cuidados de saúde e aceleram a propagação de doenças transmitidas pela água, como poliomielite, cólera e febre tifoide. Não há dúvida de que tais condições tornam mais difícil deter a poliomielite.

Mas esses desafios não são intransponíveis. Os parceiros e governos da GPEI em todo o mundo têm a experiência coletiva e um plano claro para os superar. E neste mês, na Cimeira Mundial da Saúde em Berlim, os doadores têm a oportunidade de ajudar a alcançar um mundo livre da poliomielite, doando recursos à GPEI.

Quando investimos na erradicação da poliomielite, investimos num mundo mais saudável hoje e nas próximas gerações. É por isso que a nossa fundação permanece firmemente comprometida com a missão da GPEI. Convidamos outros a juntarem-se a nós para que possamos finalmente terminá-la.

Gargee Ghosh |*

*Presidente de Política Global e Advocacia da Fundação Bill & Melinda Gates

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