Reportagem

Lunda-Norte: Santos V assume sobado com mais de dois séculos

Armando Sapalo | Dundo

Jornalista

O novo líder, o quinto desde a fundação do sobado em 1897, assume o lugar do irmão, Carlos Alberto Dâmaso dos Santos Benedito, falecido em Setembro deste ano, vítima de doença. O malogrado soba dirigiu o poder tradicional da família Santos entre 2007 e 2022.

20/11/2022  Última atualização 07H10
Soba Santos V (à esquerda) oferece a um homólogo convidado um garrafão de vinho como símbolo da intenção de manutenção de boas relações © Fotografia por: DR

A cerimónia de entronização do novo soba Santos, considerada um verdadeiro hino à cultura, decorreu no bairro com o mesmo nome e foi marcada pela  realização de vários rituais. O acto foi testemunhado por mais de cem convidados, entre autoridades tradicionais, deputados à Assembleia Nacional e membros do Governo provincial, com realce para a governadora da Lunda-Norte, Deolinda Vilarinho.

Cânticos e danças típicas da etnia dos Lubas, à qual pertence a família Santos, estiveram em evidência na cerimónia, que culminou com uma festa recheada de "quitutes” da terra.

O novo líder foi entronizado por Norberto dos Santos "Kwata Kanawa”, patriarca da família e herdeiro legítimo do trono,  designado pelo   avô, o soba Santos I, falecido em 1971, para o suceder.

 

Mais próximo da comunidade

Depois de passar o símbolo do poder ao novo inquilino do trono, Kwata Kanawa  apelou a Santos V a estar mais próximo da comunidade,  elevar a consciência da população para a observância de valores como o respeito mútuo, patriotismo, assumindo igualmente o papel de guia da juventude.

Kwata Kanawa incitou a juventude a apostar na formação académica, mas também a aprender com os mais velhos os valores que não encontram na escola, com vista à preservação dos hábitos e costumes locais. "Faço a entrega deste símbolo do nosso poder tradicional para você poder conduzir os destinos desta grande comunidade. Eu sou o dono deste poder que estou a transmitir a você para que possa exercer com afinco, dedicação, disciplina e amor ao próximo.  É preciso unir a comunidade e ser guia para a juventude na sua preparação para o futuro, observando valores como respeito mútuo e o patriotismo”, disse.

Considerou que a entrada em funções do soba Santos V tem um especial significado para a família, comunidade local e a província da Lunda-Norte, pelo facto de coincidir com as comemorações dos 47 anos da Independência Nacional e do centenário do Fundador da Nação e primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto.

O novo soba, a quem o conselho dos anciãos da família decidiu confiar a responsabilidade de dirigir os destinos da comunidade, vai ter dois sobetas como adjuntos. Um vai responder pelos assuntos sociais, familiares e mulheres e outro será responsável pelas tarefas de limpeza, incluindo asseio da comunidade.

Nemésio Valério Dâmaso dos Santos Benedito, soba Santos V,  transmitiu à governadora provincial da Lunda-Norte, Deolinda Vilarinho, que vai colaborar  com as autoridades locais nas tarefas definidas no programa do Governo.

Ao se dirigir aos presentes, depois da entronização, o soba garantiu aos homólogos do poder tradicional  presentes a manutenção dos laços de cooperação e boa vizinhança com os regedores Nachiri,  Comboio, Sachindongo, assim como os sobas Dinhuca,  Fortuna, Ritenda, Samacaca, Sacavula, Muhongo, Munanga Wenvu, Muanguvu,  Camatundu e Fuamba, todos do município do Chitato.

Kwata Kanawa abdicou do trono em favor do pai

Hoje deputado à Assembleia Nacional pela bancada do MPLA, Kwata Kanawa já exerceu os cargos de governador das províncias da Lunda-Norte e Malanje e de ministro dos Assuntos Parlamentares. Devido  ao seu envolvimento na vida política, mesmo sendo sucessor legítimo na linhagem, nunca chegou a assumir a responsabilidade do sobado que lhe tinha sido designado pelo avô.

Um dado curioso e inédito em termos de sucessão do poder tradicional naquela família tem a ver com o facto de que,  com o desaparecimento físico do soba Santos I, Kwata Kanawa  passou  a regência do trono ao seu pai,  Domingos dos Santos Benedito  (1918-1990), que viria a ser o soba Santos II.

Domingos dos Santos Benedito, soba Santos II,  pai de Kwata Kanawa,  foi um alfaiate de profissão. Considerado assimilado no período colonial, estudou na Missão Católica de Saurimo.

A dimensão intelectual e profissional, aliada à formação religiosa permitiu ao soba Santos II educar com esmero os filhos, entre os quais Kwata Kanawa.  Por isso, este defendeu, a necessidade de o poder tradicional assumir o  papel de entidade educadora, sobretudo  para a    juventude, com vista a elevação e preservação dos valores culturais da ancestralidade.

 

Exílio e regresso

Em 1974, com a crise política que se seguiu à queda do regime colonial fascista em Portugal, Santos II, que estava no trono há apenas três anos, refugiou-se no antigo Zaíre, hoje República Democrática do Congo. O regresso a Angola viria a acontecer em Dezembro de 1979. A sua tarefa principal foi a reconstrução do sobado no bairro Santos, no Chitato,  consolidar os laços familiares com as novas autoridades nacionais  e lançar as bases para   a sua modernização.

 

Santos III

Depois da morte de Santos II, em 1990, por doença, a liderança do sobado passou para Afonso dos Santos Benedito, irmão do falecido e tio de Kwata Kanawa.

Entronizado   em 1990 como soba Santos III, Afonso dos Santos Benedito foi técnico de Recursos Humanos da Empresa Nacional de Diamantes de Angola  (ENDIAMA).

Kwata Kanawa reconheceu que o soba Santos III,   que foi casado com a senhora Bernadete M’puto e pai de 17 filhos com diferentes mulheres, foi um homem rigoroso, exímio contador de estórias e profundo conhecedor da história da família.

Segundo Kwata Kanawa, a tarefa principal de Santos III foi a da afirmação do sobado e consolidação dos laços de cooperação com todas as autoridades, um trabalho facilitado   em função do seu percurso profissional.

Kwata Kanawa lembrou que o sobado de Santos III termina inesperadamente, com a sua morte, a 30 de Novembro de  2007, por doença, tendo sido sepultado a 2 de Novembro do mesmo ano,  no cemitério municipal  do Chitato, onde jazem também os  anteriores chefes da  família.

 

Nova geração

A 15 de Janeiro de 2008, o exercício do poder tradicional   transita para Carlos Alberto Dâmaso dos Santos Benedito, filho de Afonso dos Santos Benedito, sendo o primeiro neto do soba Santos I  a assumir a liderança.

Carlos Alberto Dâmaso dos Santos Benedito, que assume o sobado como Santos IV, era formado em Educação Física e bacharel em Ciências da Educação, na opção de Linguística Francesa, tendo sido casado com Maria da Conceição Alfredo Benedito e pai de sete filhos. Santos IV  dividiu o sobado com as funções públicas no aparelho do Estado.


A difícil escolha do sucessor 

Depois do falecimento de Carlos Alberto Dâmaso dos Santos Benedito, em Setembro deste ano, o Conselho de Anciãos da família decidiu preencher o vazio com a indicação do novo soba, tendo a escolha recaído em Nemésio Valério Dâmaso dos Santos Benedito, com o título de soba Santos V.

Kwata Kanawa considerou o exercício "muito difícil e doloroso”, porque exigiu uma escolha criteriosa dentre os netos elegíveis.

 

Família destacada

O trono do poder tradicional na família Santos é atribuído exclusivamente aos "rebentos” da linhagem da mulher casada com o primeiro soba da dinastia. A família Santos pertence à etnia dos Lubas e está entre as que, no então Distrito da Lunda, tiveram um papel crucial na Luta de Libertação Nacional que levou à conquista da Independência Nacional, em 1975.

Os Santos figuram   no grupo das mais importantes, interventivas e instruídas famílias da Lunda-Norte, desde o período colonial até aos dias de hoje, com nomes que se destacam na vida política, académica e desportiva nacional, incluindo na comunicação social.

Norberto dos Santos "Kwata Kanawa” é um dos nomes sonantes da referida família. Narciso Damásio Benedito dos Santos, antigo vice-ministro da Educação e deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, o malogrado general Jorge Manuel dos Santos "Sukissa”, que até à data da morte era o comandante da Marinha de Guerra Angolana, são outras figuras de destaque na família, que detém um dos mais influentes poderes tradicionais na Lunda-Norte.

O anterior soba, Carlos Alberto Dâmaso dos Santos Benedito, falecido em Setembro, professor de Educação Física  de carreira, exerceu também cargos de relevo no Governo local, tendo sido, sucessivamente, administrador municipal do Chitato, director da Juventude, Desportos, Comércio, Hotelaria, Turismo e do extinto Gabinete de Apoio às Administrações municipais e comunais.

Mais conhecido como Carlos Benedito, foi também treinador de Andebol, até à data da sua morte, e exercia as funções de director do gabinete do ex-governador da Lunda-Norte, Ernesto Muangala.

 

Respeito à linhagem

Alberto Caxala, líder da  regedoria  Nachiri,  reconheceu que a cerimónia de entronização do soba Santos  V  foi  uma demonstração de que a sucessão no poder tradicional deve respeitar o princípio da linhagem.

Em declarações ao Jornal de Angola, Alberto Caxala sublinhou que o acto é um legado dos ancestrais, que a sociedade deve valorizar.  O regedor Nachiri  apelou às demais famílias que detêm o poder tradicional a seguir o exemplo dos Santos.

A regedoria Nachiri,   disse, vai prestar todo apoio ao novo soba Santos para que,  através da  conjugação de esforços, sejam encontradas vias para a resolução dos problemas das comunidades por ambos tuteladas.

O director do Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos, José Fernando Pinto,   elogiou  o nível de organização que culminou com  a entrega do símbolo do poder tradicional da família Santos.

O responsável   salientou que no discurso  do patriarca da família, Norberto dos Santos "Kwata Kanawa”, ficou patente que  o soba  deve trabalhar para o reforço da união, coesão familiar  e acompanhamento dos problemas que afligem a comunidade.

 

Atenção às questões sociais

Rosa Ngalula, uma influente mulher do bairro Santos, área de jurisdição do novo soba, alertou para a importância de o líder  prestar atenção às questões sociais   da localidade, como água, energia eléctrica e saneamento básico. "O soba é aquele que se preocupa com todos. Ele deve ajudar a corrigir tudo que estiver mal, visitar os doentes, participar nas cerimónias tradicionais, como festas e outras. Ele pode contar com  o nosso apoio”, garantiu.

Jonatá Cabeia, 25 anos de idade, pediu ao novo soba Santos que trabalhe com a administração municipal do Chitato para a implementação de um projecto de auto-construção dirigida na comunidade.

Habitação social, emprego para a juventude, apoio ao fomento da agricultura, pecuária, pesca e reabilitação de campos de futebol, deve estar na ordem de prioridade em termos de advocacia que o  soba Santos V deve fazer junto do Estado.


Homenagem aos sobas falecidos

A cerimónia de entronização do  novo soba   é   marcada por vários momentos, segundo os rituais estabelecidos pela família, desde a fundação do sobado.Uma das etapas prende-se com a homenagem aos falecidos sobas e outros membros da família, com a deposição de coroa de flores nos respectivos túmulos. À  meia noite, antes da apresentação pública e a entronização, o futuro soba é submetido a um ritual restrito aos membros da família.

Os protocolos estabelecem que o novo soba deve escalar o tecto da casa em que se vai realizar o acto, depois faz um disparo com arma de fogo e termina tecendo algumas considerações dirigidas aos presentes no ritual.

Na parte final da cerimónia de entronização, o novo chefe da família Santos oferece   um garrafão de cinco litros de vinho a cada um dos regedores e sobas convidados no evento,  como forma de agradecimento e reforço  da colaboração  entre os líderes do poder costumeiro.




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