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Lunda-Norte: Novos focos de ravinas ameaçam estruturas públicas no Dundo

Joaquim Aguiar | Dundo

Jornalista

A semelhança de épocas anteriores, a chuva que se faz sentir no Dundo e o deficiente sistema de drenagem das águas, voltam a favorecer o surgimento e crescimento de ravinas e, por arrasto, colocam bens públicos e residências em risco de destruição.

01/10/2020  Última atualização 07H24
Edições Novembro © Fotografia por: Apesar do empenho das autoridades para travar a sua propagação, novos focos de ravinas emergem na cidade e periferia do Dundo, província da Lunda-Nort

Desta vez, o grito de socorro vem sobretudo da periferia da cidade. Densamente povoada, com bairros construídos de forma desordenada em finais da década de 90, próximo aos canais de drenagem das águas pluviais, a situação exige cuidados redobrados das autoridades. Bairros como o Camaquenzo-2, Caimbuanda, Estufa, Gasolina, Txuliveno, 1º de Maio, entre outros, são apontados como exemplos.

Residente no bairro Caimbuanda, Salviano Satula acompanha o fenómeno com bastante preocupação. A cada época chuvosa, diz, são visíveis pequenos deslizamentos de terra, cujos efeitos negativos não demoram a aparecer. Apontou a ausência de programas específicos de combate as ravinas, quando ainda em fase inicial, e o deficiente sistema de saneamento básico, entre os factores que contribuem substancialmente para o seu crescimento progressivo.

Dados obtidos pelo Jornal de Angola apontam para a existência de pouco mais de 20 ravinas em progressão e que ameaçam destruir estruturas públicas e residências de centena de famílias em várias localidades do Dundo. O director do Gabinete Provincial de Infra-estruturas e Serviços Técnicos, Noé Chipoa, reconheceu que o mau estado do sistema de saneamento básico propicia o surgimento de novos focos de ravina, contudo, por enquanto, afirmou não existir da parte do Governo da Lunda-Norte um plano para a sua requalificação.

“Actualmente é insustentável devido a crise financeira que o país enfrenta, mas é possível conter o desenvolvimento de novas ravinas, desde que haja um trabalho de base, assente fundamentalmente na desobstrução das valetas, para facilitar o curso normal das águas da chuva”, disse.  Noé Chipoa considerou que é necessário reforçar o trabalho de sensibilização para que os cidadãos parem de obstruir as valetas com lixo doméstico e promover práticas que favoreçam o meio ambiente.

Por outro lado, esclareceu que a contenção de pequenas erosões deve ser responsabilidade da Administração Municipal do Chitato. Citou como exemplo a ravina que ameaça romper o cerco da pista do Aeroporto de Camaquenzo, lateral ao bairro Sadjindongo, que põe em risco a ligação entre cidade do Dundo e a vila do Chitato.

“As obras para a sua contenção começam nos próximos dias e são da responsabilidade da administração do Chitato”, disse Noé Chipoia, ressaltando que a província recebeu, recentemente, um conjunto de equipamentos para reparação das estradas. 

Embaraços na zona seis do Mussungue 

Por insuficiência do sistema de drenagem, têm sido recorrentes as situações embaraçosas em época chuvosa na zona seis da Centralidade do Mussungue, particularmente na rua que alberga os mini-mercados, bares e similares. Concebido em 2009 pelas autoridades, o Mussungue é um projecto habitacional concebido para 20 mil apartamentos em quatro fases distintas, mas apenas a primeira fase, num total de cinco mil e quatro apartamentos, está concluída.

Noé Chipoa explica que a não conclusão da centralidade põe em causa a definição do sistema de drenagem das águas pluviais.  “O projecto prevê o escoamento das águas das chuvas para o rio Dundo e posteriormente para o rio Luachimo. Não se põe em causa o tamanho das valetas, mas sobretudo, a canalização das águas para o local certo”, disse.

O director do Gabinete Provincial de Infra-estruturas e Serviços Técnicos acrescentou ser ainda possível melhorar práticas, procedimentos e permitir que as linhas de cursos das águas possam suportar as quedas pluviométricas e evitar novos processos de “ravinamento”.

Estudo mais apurado

A questão das ravinas no Dundo é alarmante, pelo que é recomendável um estudo mais apurado para determinar a necessidade ou não de se criar um sistema de drenagem que tenha em atenção o volume das quedas pluviométricas, considerou um engenheiro civil afecto a uma das empresas contratadas para estancar o fenómeno na província da Lunda-Norte.

Falando na condição de anonimato, o especialista lembrou que, de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia, o Dundo obedece a uma precipitação pluviométrica anual em torno de 1.530 milímetros. Sugeriu, por isso, a permanente intervenção sobre o traçado das águas da chuva. Além disso, referiu que a zona onde foi construída a Centralidade do Mussungue está cercada por ravinas, sendo recomendável um estudo de sustentabilidade de longo prazo.

O interlocutor elogiou a construção de bacias de retenção e valas de drenagem nas obras de contenção das ravinas na Centralidade do Mussungue e nas imediações do Aeroporto de Camaquenzo. “Essas bacias de retenção podem ser aproveitas para construir um sistema de drenagem das águas que correm no sentido bairro Samacaca-rotunda do aeroporto, na zona do ramal que liga a Estrada Nacional 225 à Centralidade do Mussungue, entre outras”, disse, realçando que evitaria os constrangimentos causados pelas chuvas na zona seis da centralidade e retardaria a progressão da ravina próxima a rotunda do aeroporto.

Impacto negativo nas comunidades

Ao longo dos últimos 10 anos, foram registados níveis acentuados de progressão de ravinas no Dundo e o seu impacto acaba por se repercutir negativamente na vida das comunidades. Este impacto é ainda maior quando há destruição de estruturas públicas, provocando um retrocesso na oferta dos serviços sociais básicos.

Segundo apurou o Jornal de Angola, durante este período, entre as estruturas sociais afectadas destaca-se o Centro de Produção e Distribuição de Água de Cazunda, uma estrutura construída em 2011, no âmbito do Programa de Investimentos Públicos (PIP). Inaugurada com capacidade de produção de 2.800 metros cúbicos de água por dia e um tanque de armazenamento de 300 metros cúbicos, viu significativamente reduzida a oferta de água à cidade do Dundo.

Entre as “vítimas” das ravinas está também o bairro Samacaca, uma vasta reserva fundiária que em 2009 beneficiou de investimentos com a desmatação, loteamento e arruamentos.

Grave e assustadora

Em 2018, na qualidade de ministro da Construção e Obras Públicas, Manuel Tavares de Almeida visitou a província da Lunda-Norte e considerou grave e assustadora a questão das ravinas devido a sua rápida progressão, tendo prometido tomar medidas urgentes para reverter a situação.  Na sequência da visita do ministro, meses depois tiveram início as obras para estancamento das ravinas na área adjacente à Centralidade do Mussungue, imediações do Aeroporto de Camaquenzo, entre outras zonas.

Orçada num valor acima de quatro mil milhões de kwanzas, as obras a cargo da empresa Griner Engenharia, SA, que venceu o concurso público, para o efeito, estavam previstas para três meses, mas atrasos no financiamento atrasaram a sua conclusão para o final do corrente ano.

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