Cultura

Lugar por excelência de arte e cultura

Analtino Santos

Jornalista

O Memorial Dr. António Agostinho Neto tem como objectivo principal perpetuar a memória do seu Patrono. Tem ainda em vista transformar-se num espaço cultural de referência nacional para promoção e dinamização da cultura e arte angolanas e posicionar-se como um factor de educação e transmissão de conhecimento.

19/09/2021  Última atualização 10H22
© Fotografia por: João Gomes | Edições Novembro
Os concertos no auditório do MAAN contam com a parceria do Caixa Artes - braço de responsabilidade social do banco Caixa Angola -, criado em 2017 com o objectivo principal de promover e divulgar a língua portuguesa, a arte e a cultura angolana. Este ano, actuaram no MAAN artistas como Duo Canhoto, Nino Jazz, Carla Moreno, Sabino Henda, Célsio Mambo, Tukayana Lopes, Kanda, Katiliana, Unekka, Lioth Cassoma, Banda Etno Angola, Filipe Mukenga, Dino Ferraz, Ângela Ferrão, Pop Show, Aline Frazão, Kizua Gourgel, Beth Mambo, Selda, Toty Samed, Vladimiro Gonga e outros.
Outro evento que marca a programação do MAAN é o "Textualidades - Conversas com os leitores”, um espaço de tertúlia entre escritores e leitores e que visa motivar a aparição de novos autores.



Alguns dos principais nomes da literatura angolana já partilharam experiências neste espaço, nomeadamente Pepetela, Boaventura Cardoso, Luís Kandjimbo, Ana Maria de Oliveira, Manuel Rui, Jacques dos Santos, Abreu Paxe, Octaviano Correia, João Tala, Cremilda de Lima e outros.

O local acolheu no primeiro fim-de-semana deste mês o festival de literatura, música, artesanato e artes plásticas "Conexões, Letras e Artes” para celebrar Agostinho Neto. No dia 9 de Setembro, aconteceu o concerto da Orquestra Camerata de Luanda e no final do mês acontece um encontro de escritoras. Neste momento está lá patente a exposição fotográfica "Olhar o País”.


Alguns números

De acordo com informações disponibilizadas pela Administração do MAAN até 2019, portanto antes do surgimento da pandemia da Covid-19, o fluxo anual de visitantes, em média, era de cerca de 60 mil pessoas. Mais concretamente, de Janeiro a Dezembro de 2018 o total de visitantes foi de 66.630 e no período homólogo de 2019 foi de 67.012. Em 2020, foram registados 5.031 visitantes. Uma baixa drástica obviamente provocada pelas restrições derivadas da pandemia. De Janeiro a Agosto de 2021, foram recenseados 9.079 visitantes.

A idade dos visitantes inclui petizes de 3 anos "uma vez que temos visitas de crianças de infantários”. Segundo o MAAN os que mais frequentam o espaço são os adolescentes do ensino primário e os membros de instituições religiosas e militares. 

 O Memorial já foi visitado por vários Chefes de Estado e de Governo e outras individualidades nacionais e estrangeiras. O acesso é livre para todos os interessados, sendo o preço da visita 200 kwanzas por pessoa.

O auditório, com capacidade normal para 300 pessoas, em tempo de pandemia pode acolher apenas 150, sendo bastante requisitado para actividades diversas. O MAAN dispõe igualmente de um vasto espaço exterior até aqui raramente aproveitado para eventos.


Não é demais ressaltar que no MAAN repousam os restos mortais do Dr. António Agostinho Neto, o Poeta Maior e primeiro Presidente da República de Angola.


Poemas de Agostinho Neto
CRUELDADE

Caíram todos na armadilha
dos homens postados
à esquina

E de repente
no bairro acabou o baile
e as faces endureceram na noite

Todos perguntam por que foram presos
ninguém o sabe
e todos o sabem afinal

E ficou o silêncio
dum óbito sem gritos
que as mulheres agora choram

Em corações alarmados
segredam místicas razões

Da cidade iluminada
vêm gargalhadas
numa displicência cruel

Para banalizar um acontecimento
quotidiano
vindo no silêncio da noite
do musseque Sambizanga
                 - um bairro de pretos




CRIAR
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
sobre a profanização da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos.

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas
simuladas

Criar
criar amor com os olhos secos.



O IÇAR DA BANDEIRA


Poema dedicado aos heróis do povo angolano

Quando voltei
as casuarinas tinham desaparecido da cidade

E também tu
Amigo Liceu
voz consoladora dos ritmos quentes da farra
nas noites dos sábados infalíveis

Também tu
harmonia sagrada e ancestral
ressuscitada nos aromas sagrados do Ngola Ritmos

Também tu tinhas desaparecido
e contigo
os Intelectuais
a Liga
o Farolim
as reuniões das Ingombotas
a consciência dos que traíram sem amor

Cheguei no momento do cataclismo matinal
em que o embrião rompe a terra humedecida pela chuva
erguendo a planta resplandecente de cor e juventude

Cheguei para ver a ressurreição da semente
a sinfonia dinâmica do crescimento da alegria nos homens

E o sangue e o sofrimento
eram uma corrente tormentosa que dividia a cidade

Quando eu voltei
o dia estava escolhido
e chegava a hora

Até o riso das crianças tinha desaparecido
e também vós
meus bons amigos meus irmãos
Benge, Joaquim, Gaspar, Ilídio, Manuel
e quem mais?
– centenas, milhares, de vós amigos
alguns desaparecidos para sempre
para sempre vitoriosos na sua morte pela vida

Quando eu voltei
qualquer coisa gigantesca se movia na terra
os homens nos celeiros guardavam mais
os alunos nas escolas estudavam mais
o sol brilhava mais
e havia juventude calma nos velhos
mais do que esperança era certeza
mais do que bondade era amor

Os braços dos homens
a coragem dos soldados
os suspiros dos poetas
Tudo todos tentavam erguer bem alto
Acima das lembranças dos heróis
Ngola Kiluanji
Rainha Ginga
Todos tentavam erguer bem alto
a bandeira da independência

Cadeia do Aljube em Lisboa
Agosto de 1960

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