Antes da morte em combate de Jonas Savimbi, em Fevereiro de 2002, Lucusse era uma localidade desconhecida para a maioria dos angolanos.
Perdida no vasto mapa do Moxico, a maior província do país, Lucusse entrou para a História depois de anunciada, pelo Governo, a morte do até então líder guerrilheiro mais famoso de África, notícia que teve grande repercussão mundial.Adivinhava-se o fim de um dos capítulos mais dramáticos da história do país.
O corpo hirto, cravado de balas, foi exposto num estrado debaixo de uma frondosa mulembeira, ao lado da estrada. As imagens que as televisões passaram na altura mostravam um Jonas Savimbi dentro do tradicional uniforme verde da UNITA, com parte de roupa interior e uma cinta vermelha à mostra, o que, para muitos, revelava algum misticismo.
Dezoito anos depois, o estrado ainda lá está, com algumas letras, vencidas pelo tempo, a identificar o nome do então líder da UNITA. Jonas Savimbi morreu baleado numa zona inóspita, às margens do rio Lulue, na comuna do Luvei, município dos Bundas, a 90 quilómetros do Lucusse. A notícia da sua morte foi divulgada no dia 22 de Fevereiro de 2002. As abundantes chuvas que caem quase sem parar e a densidade da floresta, aliada ao risco de minas, tornam o local quase inacessível.
A existência de uma pista no Lucusse, onde se encontrava um destacamento militar, permitiu que o cadáver fosse transportado de helicóptero para aquela comuna. Quis o destino que o líder rebelde morresse perto de Muangai, local em que fundou a UNITA.
Verdades não reveladas
Sobre a morte de Jonas Savimbi há muitas verdades ainda para serem reveladas. O soba Augusto Caiambo, uma das pessoas que nunca abandonou a localidade, mesmo nos momentos de guerra, diz que o corpo chegou ao Lucusse às 15h30 do dia seguinte após a morte. Tinha a autoridade tradicional na altura 57 anos. Hoje, aos 75 anos, ainda se lembra, com exactidão, do que se passou. Afirma que, inicialmente, a tropa não permitiu que a população visse o corpo de Savimbi.
"Só foi possível, quando Liberdade, (João Ernesto dos Santos, então governador da província) chegou aqui e disse: ‘deixem lá o povo ver o corpo para que não tenha dúvidas sobre a morte de Jonas Savimbi’".
De acordo com o depoimento do ancião, devido aos confrontos militares, Lucusse era uma localidade praticamente desabitada. A maior parte da população tinha fugido para áreas mais seguras. Menos de uma centena de pessoas permanecia na sede da comuna, ocupada por soldados governamentais.
"As autoridades pretendiam enterrar o corpo aqui mesmo, mas o povo não permitiu, devido ao sofrimento que Savimbi causou. A população pedia que fosse incinerado. Isto fez com que fosse levado para o Luena, onde seria enterrado, porque o Governo receava que o povo o desenterrasse", recorda.
Naquele dia, afirma com voz embargada de emoção, oito helicópteros aterraram no Lucusse com jornalistas nacionais, chefes militares e dirigentes do Governo. Lembra que o general Wala apresentou ao Kundi Paihama, então ministro da Defesa, "os dois jovens que mataram Savimbi".
Preservar a paz sem escamotear os factos
A guerra trouxe várias consequências. Provocou fome, miséria, destruição, desintegração de famílias, desaparecimentos e assassinatos. Dezoito anos após o fim da guerra, em muitos lugares, as marcas são ainda visíveis.
Francisco Chiunde , comerciante, afirma que o mais importante agora é preservar a paz, sem escamotear a verdade. "Temos que ter consciência de que o passado é passado. O que está a acontecer em Moçambique, sobretudo na Beira, impele-nos a trabalhar na preservação da paz. Isto não significa que temos de esconder a verdade", referiu.
Afirma que, depois de tentativas fracassadas, com mediação internacional, poucos imaginavam que um dia os angolanos pudessem entender-se sem qualquer envolvimento estrangeiro.
"Costuma dizer-se que num buraco só se cai uma vez, quem cai a segunda vez é porque quer. Depois de muitos percalços, acredito que nenhum angolano quer repetir a experiência. A paz só atrapalha quem não sentiu os horrores da guerra", referiu.
“Tira Casaco” ou “Troço da Morte”
Lucusse era um local estratégico do ponto de vista militar. Dá acesso ao Luena, Lumbala Caquengue e Lumbala Nguimbo. Para as forças governamentais, a ocupação daquela zona pela UNITA significaria perder a capital da província, devido à pista de que dispõe, o que permitiria abastecer a tropa inimiga. Por isso, bateram-se com todos os meios ao alcance para evitar o avanço das forças rebeldes ao Luena.
Francisco Chiuende, comerciante e antigo administrador do Alto Zambeze, em 1993, recorda que a população que vivia ao longo da estrada foi obrigada a abandonar as habitações, fugindo dos ataques.
"Uns foram para o Luena e outros para a Zâmbia. A maioria jamais voltou, constituiu família para onde fugiu e as aldeias foram habitadas por outras pessoas", conta.
Natural do município do Cazombo, instalou-se no Lucusse logo após o fim da guerra, mas acompanhou os momentos mais críticos da comuna. Afirma que os combates ao longo da via Luena-Lucusse foram tão intensos, que muitas viaturas das FAA foram abandonadas.
Francisco Chiuende recorda os momentos fatídicos e afirma que uma coluna militar podia fazer mais de três meses para chegar à sede da comuna. Além dos combates directos, havia o perigo das minas. Em consequência disso, o abastecimento da tropa não era regular. Mas é no troço entre os quilómetros 77 e 94 que a acção da UNITA era mais intensa.
"Era o troço da morte", sublinha, com um olhar penetrante. Por esta razão, acrescenta, era denominado "Tira Casaco".
Conta que, pela perigosidade do troço, os comandantes que dirigiam as colunas eram seleccionados pela determinação e ousadia.
"Não era qualquer um. Normalmente, eram os comandantes Mundenda, Chikungulu, Sakapote, Samussuku, Chakusuta, Pena e Ngola", recorda. E acrescenta: "Numa composição de 20 viaturas, às vezes chegavam ao destino apenas oito".
“Árvore do José”
No Lucusse, a mulembeira à beira da estrada debaixo da qual foi exposto o corpo do líder da UNITA é conhecida por uns como a "Árvore do Savimbi" e por outros como a "Árvore do José".
Aparentemente, não é difícil estabelecer a ligação entre estas duas designações. Mas, se a atribuição do nome de Savimbi tem a ver com o facto de ter sido exposto debaixo daquela árvore o corpo de líder da UNITA, já o nome “José” envolve outra história. Muitos devem estar a imaginar que tem a ver com o ex-Presidente da República. Puro engano. Trata-se de um dos primeiros comerciantes portugueses que se estabeleceu no local.
Francisco Chiuende conta que, perto da árvore, havia "a loja do senhor José", onde os nativos faziam as compras, muitas vezes a troco de produtos do campo ou a crédito, e quando se referiam à mulembeira, já que próximo existe uma outra, identificavam-na com o nome do comerciante. Esta designação permaneceu até à morte do líder rebelde, altura em que uns passaram a designá-la como a árvore de Savimbi. Hoje, a mulembeira tem duas designações: "Árvore do José", para uns, e "Árvore do Savimbi", para outros.
Esta disputa já causou brigas entre habitantes. "Uma vez, assisti a uma grande peleja, aqui mesmo nesta mulembeira, entre duas pessoas. Uma não aceitava que se estabelecesse qualquer ligação entre a árvore e Savimbi, devido ao passado histórico", lembra Francisco Chiuende.
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