Cultura

Lubango entre o passado e a modernidade

Estanislau Costa | Lubango

Jornalista

Consta que a região onde foi construída a cidade do Lubango, ex-Sá da Bandeira, foi deliberadamente escolhida, dentro da política oficial de colonização portuguesa, para a instalação de uma colónia agrícola. Fundada a colónia de Sá da Bandeira, em homenagem ao Marquês de Sá Bandeira, que chefiava o Ministério Português do Ultramar, a circunscrição passou a ser administrada pelo condutor de obras públicas D. José da Câmara Leme.

13/06/2021  Última atualização 11H22
© Fotografia por: Estanislau Costa | Edições Novembro
As primeiras expedições à região planáltica datam dos primeiros anos do século XVII. Os colonos eram motivados pelas condições excepcionais das terras e do clima da Huíla. Essas condições inspiraram o Governador D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho a estabelecer os planos de ocupação do Sul de Angola.

Foi em finais do mesmo século que chegaram a Moçâmedes (Namibe) os primeiros madeirenses cujo destino era a colonização do planalto da Huíla, num total de 222 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, que se fixaram no local conhecido por Barracões. Essa designação está ligada ao tipo de instalações (barracões) em que os colonos madeirenses se abrigavam no vale do Lubango.

No quadro da política de colonização oficial, relativamente à criação de pontos agrícolas, já havia outras colónias agrícola no planalto da Chela, com destaque para a da presentemente chamada comuna da Huíla. As colónias de Alba Nova (1769) e da Humpata (1882) foram as primeiras tentativas de fixação à terra nesta zona de Angola. Os portugueses que então aqui se encontravam eram principalmente funantes que comerciavam com as populações locais. A cordilheira da Chela era escalada pelas suas gargantas e vales como o Bruco e a Leba, que não possibilitavam a passagem de carroças de tracção animal.

O acesso ao Lubango era feito pela nova estrada carreteira que passava pela Bibala e os transportes utilizados eram os carros "boers” contratados na Humpata. A área já tinha sido reconhecida como propícia ao povoamento europeu, pela amenidade do clima e pela abundância de águas provenientes dos rios Mucúfi, a Sul, Lubango a Oeste e Mapunda a Nordeste, todos eles afluentes do Caculuvar.
 

Dos barracões à Sé Catedral

A construção dos barracões no sítio que hoje tem esta designação apenas serviu para instalação temporária dos que iriam edificar um povoado, o do Lubango, num sítio chamado Cacongo e que distava daquele três quilómetros, hoje centro da cidade do Lubango, precisamente a área onde está a Sé Catedral e o estabelecimento comercial MAPEL.
Situadas na margem direita do Caculuvar, as instalações provisórias eram dois barracões de pau-a-pique cobertos de capim, um destinado aos homens e outro às mulheres. Só mais tarde se iniciaram os trabalhos para o estabelecimento da colónia.

Com o esforço colectivo se abriu, de imediato, uma levada de três quilómetros de extensão para irrigação dos terrenos que iriam ser distribuídos aos colonos e a rega dos quintais da povoação. De seguida, construíram-se as casas dos colonos, igualmente de pau-a-pique e barro e cobertas de capim e se arrotearam os terrenos distribuídos.

As obras da povoação, segundo documentos da época, consistiram na execução de arruamentos, regularização de levadas, barracões provisórios para a secretaria, escola, igreja, residência do médico e do enfermeiro e a botica (farmácia).
Fora da povoação destinaram-se os locais para o hospital, cadeia, cemitério, quartel militar e paiol. A necessidade de material de construção levou à feitura de um barracão e forno para o fabrico de tijolo e telha. A primeira construção definitiva foi a secretaria e residência do director da colónia (1887).

Sá da Bandeira foi o nome dado a esta colónia, porém, o topónimo Lubango (olu-vango) foi sempre usado e passou a ser o nome do concelho (1889). Segundo a tradição oral, ou pelo menos o testemunho de uma autóctone, companheira do governador João de Almeida, Lubango era o nome de um soba da região.

De acordo com o famoso etnógrafo Padre Carlos Estermann o termo significa "decisão” e vem da raiz "vang” (decidir). Provavelmente, o povo que aqui chegou tomou a decisão de ficar. Não há, aparentemente, contradição entre as duas posições, visto que normalmente o nome do soba corresponde ao nome da região.

De qualquer modo, não se sabe quando se estabeleceu este soba neste local e não há nenhuma informação que mencione um confronto com os autóctones. Há, porém, referências num relatório de Câmara Leme (in Boletim Oficial nº13 de 1886) sobre alguns terrenos, entre os escolhidos, que já tinham sido cultivados anteriormente pelos autóctones.

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