Reportagem

Luanda: o dia da incredulidade

Rui Ramos

Jornalista

O 25 de Abril de 1974, quinta-feira, apanhou de surpresa as sociedades branca e negra de Luanda e também o presidente do MPLA, Agostinho Neto, que se encontrava em Otawa, no Canadá. Como a informação era precária e prevalecia a comunicação social alinhada com a ideologia colonial, o boca-a-boca, que fez escola desde o levantamento do 4 de Fevereiro de 1961, instalou-se.

25/04/2022  Última atualização 07H15
© Fotografia por: DR

Agostinho Neto mostrou-se curioso e desconfiado e no dia seguinte envia um telegrama para Brazzaville, para Lúcio Lara, a solicitar informações mais precisas, e a 27 o Comité Director do MPLA informa publicamente sobre os acontecimentos em Lisboa, na sequência da publicação de um panfleto do Partido Comunista Português. No dia 30 de Abril, é conhecido em Luanda um Manifesto da Comissão Cívica Democrática de apoio à Junta de Salvação Nacional portuguesa, subscrito por Albertino Almeida, Alfredo Bobela-Mota, Eduardo Saraiva, Maria do Carmo Medina, Mário Sousa Dias, Zeferino Cruz e Eugénio Ferreira. E no dia 1 de Maio, a partir de Lusaka, capital da Zâmbia, onde o MPLA tinha uma das suas sedes, o Comité Director do MPLA toma posição, publicando "A propósito da tomada do poder em Portugal por uma Junta Militar."

Quanto a Holden Roberto, presidente da FNLA, só falaria através dos microfones da rádio Angola Livre, a partir de Kinshasa, no dia 3 de Maio, mas não se refere aos presos do MPLA que conservava na base de Kinkuzu e que o MPLA denunciou dias antes.

Desta vez não eram os "terroristas" de há 13 anos, eram militares portugueses na "Metrópole". A população de Luanda, segundo o censo de 1960, era constituída por 224.540 pessoas, das quais cerca de 70% eram africanos, 24,7% brancos e 6,1% "euro-africanos", e em 1974 não seriam muitos mais. Os estratos não eram homogéneos, na comunidade branca também existiam classes sociais, com pessoas muito ricas e pessoas pobres, mas constituía uma zona de autodefesa para preservação do que "não podia nem devia" ser tocado, o "poder branco".

As notícias chegavam pelas ondas curtas de 11 e 13 metros da Emissora Nacional de Lisboa e, muito a custo, por chamadas telefónicas que nesse tempo não eram directas, sendo necessário marcar hora nos CTT.

Havia medo e estupefacção nas ruas. Nos bairros africanos, onde não chegava a informação excepto pela rádio oficial, imperava a desconfiança, vinham à mente de muita gente, recordações antigas, prisões, mortes, incêndios.

De Lisboa, chegavam "mujimbos", um "movimento de capitães" apeara Marcello caetano e punha fim à ditadura de dezenas de anos, falava-se de Spínola, a quem muitos colonos agora chamavam "traidor", de Otelo Saraiva de Carvalho que tinha parentes em Luanda, e pouco mais.

Os movimentos de libertação nacional, esses, pareciam ser entidades longínquas, estavam fora do país, mas havia colonos que receavam um novo 4 de Fevereiro ou um novo 15 de Março. O ambiente era de expectativa em todas as comunidades e entre os "pequenos colonos", os mais pobres, os que teriam mais a perder se houvesse uma alteração do poder.

Enquanto em Lisboa o processo decorria sem retorno, em Luanda começam espontaneamente formas de organização informal de pequenos colonos que diziam em surdina não tolerar a entrega de Angola aos terroristas por traidores de Lisboa.

Nos campos de prisioneiros de Angola e do Tarrafal (Ilha de Santiago) em Cabo Verde reinava a perplexidade e os seus directores exigiam saber mais antes de procederem à libertação dos mais de 100 presos.

Mas o processo era irreversível e já Marcello, Caetano, Primeiro-Ministro português, rumava para o Brasil, em situação de exílio. Se a comunidade branca, em geral, entrava em estado de depressão, uma minoria activou acções a culminar latentes crispações entre as duas comunidades antagónicas de Angola.

João Pedro Benge, um enfermeiro de 39 anos, é assassinado num bar, junto da Cidadela Desportiva, por um colono. Foi morto com um tiro à queima-roupa. O funeral contou com milhares de pessoas de todos os estratos da sociedade e foi descrito, num relatório para Lisboa, como uma "autêntica manifestação política” a favor da Independência de Angola.

A população africana, agora ancorada pelos acontecimentos, inquieta-se. Ao funeral de Pedro Benge comparecem dezenas de milhares de pessoas de todos os sectores, numa indicação clara de que a situação na colónia tinha de mudar, não podendo ficar paralisada a correlação de forças entre os 300 mil brancos e os quase 7 milhões de negros.

No início de Julho, uma "extrema direita" de colonos começa a ganhar corpo em Luanda, a Frente de Resistência Angolana (FRA), de Pompílio da Cruz, e no mês seguinte, a 24 de Agosto, esta organização declara que não hesitaria em desencadear um golpe de força para evitar "a entrega de Angola” aos "extremistas de tendência comunista do MPLA”.

Um acordo entre o MPLA e a FNLA para o estabelecimento de uma frente comum para negociar com Portugal é anunciado no dia 28 de Julho de 1974, domingo, mas a sua concretização não chega a ver a luz do dia, na sequência de incidentes de 15 de Julho que fizeram 12 mortos e 60 feridos e do dia seguinte que deixaram 16 mortos e 63 feridos.

Devido ao agravamento da situação, assim como à própria recusa de Silvério Marques em trabalhar com o MFA, o ramo local do Movimento envia, a 17 de Julho, um ultimato a Lisboa exigindo a substituição do governador-geral por alguém aceite pelo MFA local no prazo de 72 horas, findo o qual "o MFA em Angola assume a obrigação da tomada das medidas adequadas face à gravidade do actual momento em Angola e à sua previsível evolução". Dois dias depois, chega a Luanda uma comissão de inquérito ao mesmo tempo que o governador-geral é chamado de urgência a Portugal.


A 24 de Julho, é promulgada a Lei 6/74, que estabelece Juntas Governativas para Angola e Moçambique, para as quais transitavam os poderes dos governadores-gerais, sendo Rosa Coutinho nomeado presidente da Junta Governativa de Angola, chegando no dia seguinte a Luanda, onde dissolve o governo provisório de Silvério Marques e se reúne com o MFA local. A Junta Governativa, presidida por Rosa Coutinho, contaria com representantes dos três ramos das Forças Armadas Portuguesas, as mesmas personalidades escolhidas pelo MFA de Angola para liderar os três ramos após o planeado golpe (especificamente Silva Cardoso para a Força Aérea, Altino de Magalhães para o Exército e Leonel Cardoso para a Marinha), assim como um elemento que representaria o MFA local, que seria o major José Emílio da Silva.

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