Sociedade

Luanda: Fraco policiamento acentua desrespeito ao confinamento

Uma ronda realizada nos últimos dois dias pelo Jornal de Angola, por algumas localidades da capital do país, foi possível constatar a fraca presença de efectivos da Polícia Nacional no interior dos bairros. A situação, que se observa desde 27 de Março, data do início do Estado de Emergência, mantém-se inalterável não obstante a prorrogação da medida.

23/04/2020  Última atualização 00H09
Agostinho Narciso | Edições Novembro

O Paraíso, o Balumuka, Retranca, Pedreira e Cerâmica, no município de Cacuaco, Sonefe 11 de Novembro, Malueca, Papá Simão, Bananeira, Curtume e Kwanzas, no município do Cazenga, são o reflexo desta realidade. O mesmo acontece nos bairros Fofoca, Seis Cajueiros, Ponte Partida, Ka-Uíge/Uíge, Estalagem KM-12-A, Ka-Prédio, Mbote Muenhu e Suave, município de Viana, e nos bairros Camama e Calemba II, no Belas e Kilamba Kiaxi, respectivamente.
Em qualquer um destes bairros, com maior ou menor incidência, moradores e não só, maioritariamente jovens, apesar do Estado de Emergência decretado pelo Executivo mantêm a mesma rotina. Celeste Martins é moradora no bairro Balumuka. Receosa e numa voz tímida aponta o fraco policiamento como um factor que tem contribuído para que os moradores se mantenham desnecessariamente nas ruas. Desde a entrada em vigor do Estado de Emergência, quase três semanas depois, Celeste Martins só viu, na última terça-feira, uma viatura da Polícia Nacional a circular pelo bairro.
Num outro ponto da periferia, no KM-12-A, distrito da Estalagem, o cenário pouco ou nada difere. Os moradores recusam-se a acatar o “fique em casa”, apelo constantemente reiterado pelas autoridades, figuras públicas, entre outros segmentos da sociedade. Por exemplo, peões, moto-taxistas e automobilistas circulam sem qualquer impedimento.
Paulo Sebastião, morador no bairro, tem consciência que fica difícil estar em quarentena quando falta o básico em casa, porém, acredita haver pessoas que insistem em permanecer na rua sem motivos que o justifique.
“A Polícia e os militares devem estar presentes nos bairros para obrigar as pessoas a cumprirem a quarentena e outras medias de restrição previstas no Estado de Emergência”, sugeriu. “Refugiado” em casa para garantir a sua protecção e da família, Paulo Sebastião, que apenas sai para reabastecer a despensa ou por outra qualquer necessidade extrema, muitas vezes nem acredita no movimento de pessoas que vagueiam livremente de um lado para o outro.
O fraco policiamento, segundo diz, abre espaço para que os cidadãos, sobretudo as vendedoras, desobedeçam as medidas impostas pelo Estado de Emergência, entre as quais o distanciamento de um metro. Nsimba Lutonádio alinha no mesmo diapasão. Residente no bairro dos Kwanzas, no Cazenga, lamenta a fraca presença das forças de defesa e segurança no bairro, principalmente no mercado, situação que acaba por potenciar o não acatamento das orientações de prevenção à Covid-19. “As autoridades têm que ser rígidas com a população. Se não, o contágio poderá ser um facto”, disse Nsimba Lutonádio, realçando a necessidade de se reforçar a presença dos efectivos, principalmente no interior dos bairros.

Pontos vigiados
Em diferentes pontos dos municípios de Viana, Cazenga e Cacuaco, nos bairros Rocha Pinto, Golfe, Cassequel do Buraco, Camama e Calemba II, a presença das forças de defesa e segurança é visível somente nas avenidas, ruas e ao longo das estradas nacionais, constatou a reportagem do Jornal de Angola. Em Viana, por exemplo, nota-se a presença dos efectivos da Polícia Nacional em toda extensão da Estrada Nacional 230 (Estrada de Catete) até ao quilómetro 30. A presença dos efectivos estende-se desde o entroncamento entre a Moagem, na estrada de Catete, até à 48ª Esquadra da Polícia, na zona da Estalagem KM-12-A. O mesmo acontece na rua Beto Carneiro, viaduto da Via Expressa até ao Zango 5.
Em Cacuaco, os efectivos podem ser vistos em toda a dimensão da Estrada direita de Cacuaco, passando pela Vila sede, Vidrul até a ponte sobre o Rio Bengo, em Kifangondo. A Via Expressa, em toda a sua extensão, também está sob vigilância das forças da ordem pública.
Já no município do Cazenga, a Polícia Nacional está presente desde o entroncamento que liga a avenida Ngola Kiluanje à rua dos Comandos, e em vários pontos da 5ª Avenida até a BCA. Outros efectivos podem ser vistos da rotunda de Camama até ao Calemba II, e da Ngola Mbandi ao Cassequel do Buraco e em toda extensão da Avenida 21 de Janeiro. Embora os pontos mencionados estejam sob vigilância, nos arredores o policiamento é quase inexistente, o que tem permitido muitos cidadãos fazerem o que bem lhes apetece.

Circulação reduzida

O Estado de Emergência provocou uma substancial redução na circulação de pessoas e viaturas no centro de Luanda devido à presença de vários efectivos da Polícia Nacional, com postos de controlo montados, conforme constatou o Jornal de Angola.
Diferente do que se verifica na periferia, a maioria acatou a quarentena e o distanciamento social com seriedade. Os peões e automobilistas, em alguns casos são obrigados a mostrar os documentos de identificação e credenciais, quando parados nas barreiras da Polícia e, em outros, impedidos de seguir viagem.
Apesar do reforço policial em várias zonas da baixa da cidade, ainda podem ser vistos ajuntamentos de pessoas. Na Mutamba, por exemplo, pequenos grupos de jovens insistem em extorquir os automobilistas nos locais de estacionamento, muitas vezes sob o olhar de efectivos da Polícia, particularmente na Travessa da Alfândega.
“Os polícias podem ver os jovens a fazer confusão mas apenas olham. Aqui mesmo na rua Rainha Ginga ficam muitos jovens reunidos, entre ardinas e outros, desrespeitando o distanciamento social e não se faz nada para acabar com isso”, disse João Chissengue, que por força da activi-
dade que exerce não foi dispensado do serviço.

Medidas contra a desobediência

Ouvidos a propósito, alguns cidadãos pediram maior vigilância e medidas para conter a desobediência no interior dos bairros da periferia de Luanda, por parte dos órgãos de defesa e segurança.
Apesar do apelo para que os cidadãos se mantenham em casa para evitar a contaminação comu-
nitária, Joaquim Lourenço, morador no bairro da Petrangol, tem dificuldade em entender a resistência sem motivo aparente. Em função da reiterada desobediência às medidas de restrição previstas no Decreto Presidencial sobre o Estado de Emergência, segundo explicou, o risco da contaminação comunitária é muito elevado. “É neces-
sário o reforço do policiamento no interior dos nossos bairros, por ser aqui onde se vê os maiores aglomerados de pessoas e, consequentemente, constantes desrespeitos às medidas de prevenção”, lamentou Joaquim Lourenço, que, por outro lado, elogiou os efectivos da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas pelo trabalho em prol da inviolabilidade às medidas de combate ao coronavírus.
Marta Caluvinda reside há mais de 10 anos no bairro da Mabor. O bairro é pobre. Tem casebres e gente hu-milde. Falta escola, hospital, água, energia eléctrica, espaços de lazer, e a criminalidade faz morada. Com o rosto fechado, Marta Caluvinda acrescenta um elemento novo. Ela acre-dita que o Estado de Emergência vai permitir, igual-
mente, diminuir o surgimento de pequenos grupos de marginais.

Polícia não se pronunciou

Dada a pertinência do assunto, o Jornal de Angola encetou contactos para ouvir o pronunciamento da Polícia Nacional. Apesar de todas as tentativas realizadas para o efeito, não foi possível ouvir a versão da instituição, uma vez que, por alegada falta de autorização, até ao fecho da edição, a fonte contactada não se pronunciou.

 

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