Sociedade

Luanda: Famílias desrespeitam confinamento social

“Aqui, as crianças brincam fora do quintal, com areia. Mas não são apenas as da minha rua. Existem outras, que chegam de outras artérias, para jogar a garrafinha, cartas, xadrez, e fazem corridas de saco com os meninos daqui”, disse Flora Lino, moradora do bairro Vila Kiaxi, nas imediações do Campus Universitário, no município de Belas.

09/04/2020  Última atualização 09H25
Matias Adriano| Edições Novembro

Além das crianças, na rua estavam, também, muitos adultos, alguns são pais dos pequenos que compunham o aglomerado. Antes de ter sido decretado o Estado de Emergência, disse a nossa interlocutora, o bairro já registava muitas crianças nas ruas. Flora refere que, nem o sol abrasador, que se faz sentir nos últimos dias, tem sido capaz de tirar a população das ruas. Em várias artérias de Luanda, muita gente deambula sem motivos justificáveis. “Com a quarentena, parece que o número de crianças nas ruas aumenta a cada dia que passa”, observa a dona de casa, para de seguida lamentar o facto de os populares não cumprirem com as medidas de prevenção contra a pandemia.

“O registo de novos casos no país, em particular em Luanda, é uma situação que deve preocupar a sociedade. É necessário que se intensifiquem as acções de mobilização, porque, tal como o ministério da saúde já previa, nos próximos dias vamos atingir o pico dos casos positivos”, lembrou. Flora defende a comunicação de proximidade e a implementação de acções coercivas, para inibir os aglomerados de pessoas nas ruas.
“São bairros com muitas necessidades sociais, onde boa parte das famílias enfrenta muitas dificuldades financeiras e tem baixo nível de escolaridade”, atesta Manuel Fernandes, morador do bairro há mais de 10 anos.

Influência das Igrejas

Para Manuel Fernandes, com o nível social e cultural, bem como a crença religiosa que boa parte da comunidade defende, torna-se impossível conseguir fazer chegar a mensagem “fique em casa”. Na sua visão, só as igrejas podem influenciar positivamente. “Na qualidade de influenciadores das famílias, as igrejas devem usar o seu potencial para levar o povo à obediência”, disse.
Reitera que, as igrejas devem ser chamadas a usar da sua influência, para apelar ao povo à manter-se em casa. “Desta forma será mais fácil banir o Covid-19 do nosso país”.
“Muitas igrejas criaram várias plataformas para fazer chegar a palavra de Deus, neste período de quarentena. Essas mesmas plataformas, com altifalantes, devem servir, também, para incentivar o povo a permanecer em casa, por estarmos a viver um momento de sacrifício que trará benefícios a todos”, destaca Manuel Fernandes, que sublinha a necessidade de os líderes religiosos explicarem aos cristãos, e não só, que o sacrifício é não sair de casa, ainda que falte o pão. “Existem muitas famílias vulneráveis, que merecem a atenção do executivo e das organizações filantrópicas. Devemos obedecer para que o futuro seja risonho”, aconselha.

A maior preocupação é a falta de água

A falta de água é outra preocupação para os moradores do bairro Vila Kiaxi. Numa altura em que são exigidas medidas de prevenção, como a lavagem das mãos com água e sabão, a população vive privada desse produto vital, considerado fundamental no combate contra a pandemia de Covid-19.
Com uma população estimada em mais de seis mil habitantes, no Vila Kiaxi, o abastecimento de água é feito através de camiões cisternas e motorizadas de três rodas (moto táxis) que distribuem o precioso líquido, cuja origem é, muitas vezes, duvidosa.
Para encher um tanque de 10 mil litros, os moradores desembolsam o equivalente a 18 ou 20 mil Kwanzas, enquanto o “bidón” de 20 litros custa 50 kwanzas. “Diante da situação, vai ser muito difícil a população local cumprir com as medidas de prevenção”, lamenta Manuel Fernandes.
Sem água e com as vias degradadas, o coordenador do bairro, Pedro Carlos, reconhece o fraco desenvolvimento que a Vila Kiaxi apresenta. “Falta-nos quase tudo. Temos inclusive famílias com muitas necessidades ou em situação de vulnerabilidade”, indica.
Acrescenta que várias diligências foram feitas junto da administração local do Estado, mas que, até agora não mereceram qualquer resposta positiva. “Essa localidade faz fronteira com os bairros Nandó, Camama, Hoji Maka, mais conhecido por Amor e Paz, e com a Cidade Universitária, zonas onde a água corre todos os dias nas torneiras. Mas, infelizmente, aqui não há”, deplora o coordenador do bairro.
Contudo, disse, há um projecto da Administração Municipal do Belas, que vai permitir que os moradores do bairro beneficiem de água gratuita, através de um plano de emergência implementado pelo Ministério da Energia e Águas, em colaboração com o Governo Provincial de Luanda.
“Mas essa não seria a solução para o nosso bairro”, rematou Flora Lino, que todos os meses vê-se obrigada a desembolsar 20 mil Kwanzas para encher o seu tanque, com água. “É um martírio, o que vivemos aqui. Pedimos que olhem para esta situação. Não sabemos quantos litros de água nos podem dar nesta fase. E, como ficamos no futuro, sempre em situação de humilhação?”, questiona.

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