Opinião

Luanda e os transportes

Fomos, de noite, em cortejo de carros para buscar o Camarada Neto. Íamos todos vestidos de safari. O Camarada Neto veio de fato e gravata. Quando voltávamos para a cidade, ali, mais ou menos no território da Mabunda, do lado da encosta, rasgaram no ar disparos tracejantes iluminando o céu, parámos e alguns de nós até “se placaram” no chão. Alguém avisou que não era nada mais do que a alegria de faplitas que nos saudavam. Estavam atentas e alegremente tensos. Esperavam a proclamação da Independência.

19/09/2019  Última atualização 08H17

Hoje, quando me levam de carro a fazer o mesmo trajecto fico com a sensação de que naquele tempo seria inimaginável sonharmos com as estradas que estão no lugar daquela antiga, esburacada, cenário de sucessivos acidentes mortíferos. Hoje é uma autoestrada, com faixas, desvios, travessias para pedestres, verde com baloiços e diversões. Era bom passarem filmes nas escolas com a estrada antiga.
Mas agora há uma imensidão de carros, “fórmula1” de azulinhas e acrobacias de cupapatas. Aqui, abro um parêntesis, tanto dissemos e comentámos sobre cupapatas que agora chegaram ao Brasil (não confundir com moto-boys).
Uma imensidão de carros para uma cidade cuja população já é de milhões e que, verdadeiramente não tem um sistema de transportes colectivos.Não deixa de ser curioso que o transporte urbano foi inventado por um filósofo e matemático francês, autor de teoremas e obras de filosofia e a primeira máquina de calcular. Foi Blaise Pascal um dos grandes pensadores de sempre. Paris, em 1662, data do início do sistema urbano de transportes, já tinha meio milhão de pessoas e o sistema de carruagens foi autorizado pelo rei Luis XIV.
No tempo do colono, a cidade de Luanda tinha uma rede de machimbombos (ónibus ou autocarros) cujo ponto central era a Mutamba onde se podia apanhar transporte para várias rotas, tudo definido com paragens e até a utilização de passes. Os portugueses usavam muito os machimbombos, funcionários de bancos, da fazenda, médicos e advogados, às vezes para chegarem mais depressa, usavam esse transporte urbano colectivo.
Nos dias que correm, se entendermos a cidade como um sistema, o transporte público é uma das suas principais estruturas que mexe com tudo, envolvendo uma multidisciplinaridade com economia, geografia, sociologia, engenharia, politica e bem-estar.
No caso da nossa capital, seria conveniente estudar-se o transporte urbano colectivo, com linhas bem definidas de forma a cobrir a mobilidade das pessoas sem atropelos e sufocos. Seria conveniente desenhar faixas do lado direito para uso exclusivo dos machimbombos. Por poupança e comodidade, a população detentora de transporte individual, guardaria o automóvel para fins-de-semana ou outras variantes. As emissões de carbono diminuiriam, também os acidentes de viação. Também os condutores das azulinhas poderiam ser preparados para conduzir os autocarros bem como os jovens revisores, parte dos cupapatas poderiam ser reconvertidos para entrega de correio que quase se extinguiu.
Assim, poderíamos ver uma Luanda mais bonita, quase sem engarrafamentos e mais calma. Já podíamos ir à Casa das Artes em Talatona de machimbombo e sem o coração nas mãos, numa cidade onde não há policiamento nocturno nem guardas-nocturnos pagos pelos moradores. De machimbombo, em Nova Lisboa, íamos da alta para a baixa até ao liceu que funcionava, provisoriamente na Associação Comercial e voltávamos para a alta, o meu grupo tinha uma finta de não pagar e que eu não conto…mesmo em tempo de denúncias…
Acrescento que (estradas à parte…) poderia haver redes de transporte interurbano bem estruturadas e as pessoas poderiam ir passear até ao Moxico, por exemplo, utilizando o machimbombo. Tudo isto só com uma exigente fiscalização desde as viaturas, passando pelo pessoal e estaleiros. Impunha-se, portanto, um órgão institucional, com gente de várias preparações para manter o sistema nos carris.
Penso ser urgente, numa altura em que ainda não temos um comboio à beira-mar, metropolitano tão pouco e vem aí o novo aeroporto, porque adiar a solução do transporte urbano colectivo é contribuir para o aumento da poluição, dos engarrafamentos, dos acidentes de viação, da criminalidade na estrada (em cada machimbombo um polícia), do aumento da despesa familiar em combustíveis e do mal-estar.
E que lindo será ver as crianças a entrarem nos machimbombos que têm paragem nas escolas. Inventar passes gratuitos para crianças, antigos combatentes e lugares para deficientes. Mais, se houver transporte urbano colectivo, aumenta-se o mercado de emprego, e consequentemente, melhora-se a economia.
Um machimbombo que leve cem pessoas proprietárias de automóveis, são cem automóveis que deixam de emitir CO2. E tem a parte social. As pessoas que, por exemplo, saem da Maianga para irem trabalhar na baixa, conversam fazem amizade e a “mujimbo press” passa a ter outra dinâmica.
Por isso, cantou assim o Ouro Negro:
(…)
Quero chegar de madrugada
Para ver o sol raiar
(…)
Vou andar por aí, com o meu violão
Vou à Mutamba, tomo um machimbombo
qualquer
Por “ma curia a naqui”, sou igual a toda a
gente
Na linha da terra nova, só paro lá no
musseque
Com a minha gente, entre mufete e conversa
E de madrugada, com Catembe vou prá Puíta
(...)

 

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