Sociedade

Luanda à espera de zonas verdes

À semelhança do que acontece com o fornecimento e distribuição de água potável, saneamento básico e crescimento desordenado da cidade, a escassez de espaços verdes é hoje considerado um dos grandes problemas da cidade de Luanda.

04/06/2020  Última atualização 08H00
Eduardo Pedro | Edições Novembro

A julgar pelo estado em que as coisas se encontram, especialistas ambientais acreditam que o problema vai continuar a tirar o sono de quem gere o Palácio do Governo da Província.

Do ponto de vista ambiental, o fenómeno da macrocefalia urbana é, sem dúvida, um dos principais objectos de preocupação, pois da sua sustentabilidade depende a qualidade de vida dos seus habitantes.

Na primeira intervenção que fez, depois de ser empossada, a nova governadora de Luanda, Joana Lina, afirmou, num discurso algo moderado e cauteloso, que o seu primeiro passo “vai passar pelo diagnóstico aturado sobre o que foi feito até agora e o que está por se fazer”.

“Nada vai começar do zero. Só depois do diagnóstico é que poderá ser criado um programa de continuidade”, frisou a governante.

A julgar pela grande complexidade que caracteriza a cidade de Luanda, Joana Lina vai precisar de algo que vá para além dos projectos que fazem a capital de hoje. Vai ter de fazer recurso a estudos aturados e continuados e de alguma perspicácia na definição de prioridades.

Apesar dos muitos esforços desenvolvidos, a capital de Angola continua a ser "uma cidade careca”, sustentam ambientalistas.

A situação deve-se também à ausência de controlo sobre o uso da propriedade urbana para benefício individual, o que, defendem as fontes, tornou o mercado imobiliário o grande agente estruturador da cidade, excluindo a população com menos recursos dos benefícios da urbanização.

Um simples olhar para a nossa cidade, facilmente entenderemos que falta alguma arrumação. Os problemas do ambiente andam de mãos dadas com o das infra-estruturas. De acordo com o presidente da Juventude Ecológica, José Silva, o desordenamento do património edificado, como consequência do crescimento populacional repentino, transformou a nossa cidade num imenso “emaranhado de ruelas e vielas, com a falta de alguma harmonia e de equilíbrios”.

As novas centralidades, como por exemplo a do Kilamba, e outros bairros que o Estado foi construindo em Luanda, não conseguiram escapar dessa saga.

À medida que as obras iam sendo executadas, as casas de chapas iam cobrindo terrenos, tal como cogumelos, à volta destes bairros, numa impunidade de bradar aos céus e com fortes laivos de falta de autoridade.

Sem os principais serviços básicos, como as vias de acesso e outros, estas localidades são constituídas por casebres, que “ornamentam” os arredores das grandes centralidades e não só. Quando chove, transformam-se, passe o exagero, em autênticas pocilgas.

O Catinton, Kapolo 1 e 2, Sapu e Kalemba 2 são algumas destas zonas. Mas existem outras, onde abundam os problemas de saneamento básico e de fornecimento de água potável, para além de estradas esburacadas e intransitáveis.

No casco suburbano, localidades como o Bairro Popular, Terra Nova e a Cuca, que já foram referências em Luanda, não escapam a estes males que enfermam a nossa capital. Em piores condições encontram-se o Rangel, Sambizanga, Kalemba, Petrangol e muitos outros bairros, que foram crescendo, de forma incomensurável, em vários pontos de Luanda, incluindo no casco urbano da cidade.

O descontrolo a que se assistiu foi, também, motivado pelo factor guerra a que o país esteve sujeito. Contudo, quando se iniciou a construção das novas centralidades e dos novos bairros que foram surgindo a sul de Luanda, especialmente nos Zangos, havia condições para fazer que tudo fosse feito de forma gradual, o reordenamento da cidade, com a destruição dos casebres.

Mas, até nisso o Governo falhou, e como consequência disso, tal é a desordem que se assiste, que a ninguém vai espantar se as nossas centralidades vierem a se transformar, nos próximos cinco ou dez anos, em autênticos casebres. Neste vasto palmarés de irregularidades, o que fica subjacente é a forma impune e alguma falta de autoridade e fiscalização, de como as coisas acontecem, tornando cada vez mais insustentável a nossa esplêndida cidade. E não há como pensar diferente.

Em Luanda falta tudo. As estradas não têm sinalização, estão esburacadas, intransitáveis e sem iluminação. Há muitos postos de electricidade caídos nas estradas da capital, que ficam aí meses para serem removidos. Outros ficam anos a fio suspensos em posição de queda livre, sem que alguém os repare, apesar dos riscos que representam para os automobilistas que diariamente circulam pelas ruas.
A vandalização dos separadores ao longo das vias, até a destruição completa, acontece todos os dias, sem que alguém faça alguma coisa para evitar o pior.


Um desastre em termos ambientais

Fonte do Jornal de Angola considera Luanda exemplo de desastre ambiental. Apesar do esforço desenvolvido pelo Governo e sociedade civil, a capital de Angola continua a ser, como disse o presidente da Juventude Ecológica de Angola, José Silva, “uma cidade careca”.

Há cerca de dois anos, a avaliação feita por uma agência internacional, de que Luanda é a cidade mais desértica da África Austral, a todos surpreendeu. Procura-se agora tentar inverter esse quadro negro, sem, entretanto, os resultados positivos que todos esperavam.

Entre os poucos exemplos que temos em Luanda de se lhe tirar o chapéu está a arborização à entrada da centralidade do Kilamba.

Na estrada do Camama, Avenida Comandante Loy e noutras zonas onde o Governo tentou ensaiar a arborização, o que vimos tem tudo menos o que possa parecer intenção de criar espaços verdes.

Em muitos locais até pinheiros encontrámos. O pinheiro ou mimosa bimucronata é uma árvore nativa da família luminosa, utilizada para fazer cercas vivas.


Falta de água inviabiliza arborização

A falta de água para regar as plantas é, na opinião de uns, o grande “leit motive” que inviabiliza a rearborização da cidade. Mas o presidente da Juventude Ecológica, José Silva, afirmou ser possível manter viva as plantas através das cisternas, enquanto Cristina Pinto, da Associação Kalus, questiona como pode ser possível arranjar água para regar as plantas, quando a população não tem onde ir buscar água.

Todavia, os dois defendem que qualquer projecto de arborização apenas pode ir para frente se for devidamente acompanhado até ganhar “pernas para andar por meios próprios”. Para que isso aconteça, tanto um como o outro consideraram indispensável a participação da sociedade civil nestes projectos e, também, das comunidades que residem à sua volta. Os dois atribuem a falta de acompanhamento, a razão para o fracasso da reflorestação da cidade, e da morte lenta que se assiste em alguns espaços públicos, como o que está a acontecer com a Marginal de Luanda.

Tido como um dos projectos mais bem conseguidos depois da Independência Nacional, um verdadeiro cartão postal da cidade, a Marginal de Luanda vai perdendo aos poucos o seu brilho, ao que se diz, por falta de água e, também, de cuidados para manter o seu perfil.

Na tentativa de minimizar a escassez de árvores e proporcionar mais qualidade de vida aos munícipes, nas avenidas Ho Chi Minh, Comandante Gika, Rua Marien Ngouabi, Maianga e Ilha de Luanda foram plantadas muitas palmeiras, que acabaram por sucumbir por falta de cuidados. Outras tiveram morte prematura por incompatibilidade com os solos e o clima.

Fontes do Jornal de Angola caracterizaram esses investimentos como uma das apostas erradas que se fez a nível de Luanda, porque a cidade precisa de árvores frondosas, que resistam ao tempo e sobrevivam aos maus “tratos”.

Alguns especialistas defendem que o problema reside na própria natureza do sector do Ambiente, que consideram uma “área complicada de se lidar”, devido à baixa capacidade pública de realizar investimentos contínuos e sistemáticos em infra-estruturas urbanas e de educação, requisitos básicos para a construção de um ambiente urbano saudável.


Importância das árvores

Uma grande árvore é capaz de absorver uma grande quantidade de gases poluentes como o dióxido de enxofre e óxidos nitrosos – provenientes dos escapamentos de carros e camiões. As cidades mais arborizadas possuem, de forma comprovada, até 60 por cento menos partículas de poluição se comparadas com cidades com pouca ou nenhuma arborização.

A população que vive em cidades sem grande presença de árvores está mais propensa a problemas de saúde, principalmente os relacionados às doenças respiratórias. As árvores influenciam e jogam um papel preponderante na temperatura das cidades, isso de acordo com a quantidade de árvores que houver. A sua sombra pode reduzir a temperatura do asfalto até 2°C, e do interior dos carros até 8°C.

Uma única árvore grande e saudável possui o mesmo efeito de dez aparelhos de ar-condicionado a funcionar 20 horas por dia.


Gestão de infra-estruturas

A experiência de países como Portugal, por exemplo, nos mostra a forma eficaz de como esses problemas podem ser resolvidos, sem os esquemas burocráticos que, no nosso país continuam a fazer das suas.

À semelhança do que deveria acontecer com o Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA), Infra-estruturas de Portugal é a maior concessionária nacional de estradas daquele país, que garante a manutenção e reparação da rede rodoviária através da contratação externa. Tem uma rede de 14 mil quilómetros que se estende por todo o país, com um perfil que se diversifica entre a auto-estrada, estradas regionais e outras vias não menos importantes.

No âmbito destes contratos são realizados trabalhos como a reparação e beneficiação de pavimentos, congregando no seu seio uma série de serviços, que garantem a melhoria dos sistemas de drenagem das vias, conservação de viadutos, reposição e adequação da sinalização e de outros equipamentos de protecção e segurança rodoviária, estabilização de taludes, limpeza de bermas e terrenos adjacentes à estrada.

A gestão destes serviços é feita através de contratos realizados com agências especializadas, que garantem maior rigor na gestão dos recursos, maior capacidade de resposta face às necessidades de intervenção e controlo permanente dos resultados alcançados.

Os contratos de conservação independentes constituem uma ferramenta que garante ganhos efectivos ao nível da eficiência na conservação e manutenção da rede rodoviária, elevando assim a qualidade do serviço prestado pela empresa, e reduzir o custo de manutenção da rede.

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