Opinião

Lourenço, a lei do retorno (Parte II)

Edson Kassanga

* Especialista em governação e gestão pública

Encaminhei as mãos aos bolsos da calça, e nada; acto contínuo deu-se nos bolsos da minha pasta, e nada; olhei para o chão, e nada. Voltei para onde fugira do calor, e nada. Isso é azar, logo hoje! Perdi as estribeiras. Os meus pés gramavam a terra desligados do resto do corpo. Fui à biblioteca, já que da sua porta observava-se o sítio em que eu tinha visto o telemóvel pela última vez. Aflito, perguntei às funcionárias se alguém tinha deixado um telefone achado no corredor. A resposta foi dada sem rodeios nem reticências:

21/06/2024  Última atualização 13H05

-"Não"- ainda assim, consegui fazer o esforço de oxigenar o meu cérebro. -Por favor, posso usar o seu telefone? Talvez o meu número chame se eu discar! -Eu não tenho saldo- retorquiu uma das funcionárias.

-Toma. Podes ligar- disse uma outra funcionária, estendendo o seu telemóvel para mim. Um ligeiro arrependimento apossou-se de mim ao recebê-lo. Quis devolver o meio de comunicação da Sra Njinga, eis que acabava de esquecer o meu próprio número. Concentrei-me, digitei-o e quando ia confirmando o mesmo, antes de pressionar o ícone chamar, a senhora desprovida de saldo voltou a tomar a palavra:

-Se o telemóvel estiver ligado, podes reavê-lo; mas se estiver desligado, assim foi mesmo. Tal pronunciamento descontrolou a minha respiração, mas a situação exigia coragem e esperança. Dei seguimento ao que fazia apertando o ícone "chamar".

Minhas células ciliadas captaram "Nzoluame" em menos de seis segundos. Tive a sensação de estar imerso num universo onírico. Então, tratei de me certificar que eu não era o único. As senhoras acenaram positivamente quando lhes questionei acerca do timbre. Tratava-se mesmo do princípio da música de Carlos Lopes, ou melhor, do toque de chamada do meu telefone, que se escutava muito próximo das janelas da biblioteca.

-Alô... alô... alô? -a chamada tinha sido atendida, ditando o fim da música. Entretanto, a pessoa que ligou ainda reunia condições psicológicas para responder.

-Alô, boa tarde. Eu... eu perdi este telemóvel há menos de 20 minutos. Peço ao senhor que me devolva, por favor! Vou compensar-lhe.

Prontamente, o correspondente do outro lado disponibilizou a sua localização e disse para eu ir pegar o meu telefone. Corri depressa ao encontro do jovem. Assim que deu conta de mim, quis saber se eu estava frustrado. Deu-me o telemóvel sem esperar que eu ganhasse ar para respondê-lo. Sentimentos diversos colonizaram a minha mente. Não me sentia distante do automóvel submetido a tantas mudanças em tão magro tempo. Todavia, consegui agradecer ao jardineiro da universidade pela extrema honestidade e implorei que me fornecesse o seu terminal telefónico. Ele entendeu a minha futura intenção. Negou o pedido com sucesso referindo que perdera o telefone por diversas ocasiões e sempre lhe devolveram. Acrescentou que nunca lhe cobraram pela restituição do seu bem. Por isso, não queria receber nada de mim. Eu só parei de suplica-lo ao tomar conhecimento que restavam 10 minutos para o início da prova de Direito Constitucional.

A caminho da sala de aula, pus-me a matutar de modo denso na grandeza do carácter do Sr. Lourenço. Teria ele mais ou menos oitenta mil kwanzas se vendesse o meu telefone. Estava ciente de que nada me levaria a desvendar a sua identidade. Contudo, optou por me devolver o telefone. Que homem é esse?! Em Angola? Refleti igualmente no que deveria perder, se madrasta fosse a sorte. Quanta sorte! Calma aí. Quiçá não seja tão verdade assim. Sim. Outrora, precisamente na época em que vivia cortando a cidade de Luanda a bordo dos carros de tons branco e azul, vi passageiros como eu a deixarem cair telemóveis caros. Nessas circunstâncias, eu não media esforços para levá-los de retorno aos donos.

Despeço-me com enorme apreço a partir da terra do longuesso (Huambo).

 

     *Estudante de Relações Internacionais

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