Opinião

Lourenço, a lei do retorno (Parte I)

Edson Kassanga

* Especialista em governação e gestão pública

Via nas horas um trem sem freio algum. Quanto mais rente da hora que o docente de Direito Constitucional aprazou a sua segunda prova, a minha incontinência emocional agravava. Na altura, as ondas de choque já haviam preludiado a chegada da cadeira. "Tenham muito cuidado com DC.

16/06/2024  Última atualização 07H30

É a maior responsável pelas mudanças de cursos", os veteranos advertiram-nos no começo do ano académico. Sentou-se sobre ela a consciência da vergonhosa negativa que alcancei logo na prova de primeira viagem. Logo, a preocupação de instrumentalizar as vistas para reter as bitolas mestras do ordenamento jurídico nacional no bulbo raquidiano manifestava-se que nem uma mula no ápice da respectiva renitência.

Pertenço ao grupo de entes que se lançam à odisseia de combinar o trabalho com os estudos. Sei a letra dos colossais óbices em se habituar às rotinas de estudo, sobretudo quando a cor das pestanas assemelha-se ao rasto do giz mais usado no quadro. Não vislumbro outra razão que me tenha impedido de estudar na densidade, no horário e na geografia que eu almejava. "Tudo que nos acontece possui um vértice bom e outro mau". Creio ter acostumado algumas pessoas a me sintonizarem nessa sequência de lexemas. Mas, naquele dia de Abril ao meio, fui conduzido, sob o comando dos contextos, a perceber que quem diz "o azar não vem só" detém mais razão que eu.

O kupapata encostou a motorizada perto de uma moça que, à porta da universidade, mostrava-se de bem com a vida. Deu-me os seus olhos, tive de disponibilizar os meus a ela. A sua preta derme luzia e revestia a feição sine qua non das belas. Desviei a visão no instante em que o moto-condutor, cujo aspecto jovial somente à espontânea simpatia devia, chamou por mim quase num brado para me dar o troco. Senti os olhos dela a lerem em mim artigos que desconhecia. Segurei o kumbu vergado pelo vexame. A partir daí, ela passou a fazê-lo como se identificasse em mim os traços inquestionáveis do homem que Deus terá prometido. Devolvi-lhe a contemplação na intenção de solicitar alguma forma de contacto, mas ao me recordar que procurara chegar mais cedo à universidade para estudar direito, desisti da fortuita ideia. Duas horas separavam-me da prova rija.

Depois de ter percorrido ceca e meca, no interior da instituição de ensino, à caça de determinado recinto silencioso, assim como despojado de vivalmas, acomodei-me numa cadeira para três ocupantes afixada no corredor da sala de informática. Dei início à leitura com lápis e esferográficas em riste, transcorrido o tempo que defini para acalmar o ânimo. Queimava pestanas empregando a concentração suficiente para evitar que o som do meu batuque não soasse tão alto no decurso da prova. Também sublinhei, elaborei tópicos que achava primordiais e reescrevi as definições longas num formato tão curto quanto simples. Eram vias que se haviam mostrado eficientes à compreensão nas demais matérias.

"Uma hora de leitura bazou vertiginosamente" falei para mim mesmo antes de voltar a pôr o telemóvel sobre um dos assentos livres ao pé de mim. A tela electrónica apagou-se, acendeu-se o cuidado em pôr à prova o que tinha lido. O balde que atrelei à corda comprida fez inúmeras incursões ao fundo do poço, porém de lá emergia tal como mergulhara. Isso aqueceu sobremaneira a minha cabeça de tal sorte que reconheci a fornalha no corredor. Busquei refúgio no jardim a cinco metros do local onde me encontrava, escusando de me importar com a presença e as conversas de outros estudantes. Um deles contemplava o próprio telemóvel como se tratasse de uma escultura talhada ao detalhe pelo mestre Etona. De rompante, tive a impressão de que alguma coisa me estava a faltar. Eh, era o telefone.

Despeço-me com enorme apreço a partir da terra do longuesso (Huambo).

 

*Estudante de Relações Internacionais

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