Especial

Lobito recupera jóia de entretenimento

André dos Anjos | Lobito

Jornalista

Todos os dias, faça chuva ou faça sol, um pouco do Cine Flamingo é reduzido a pó. Nos sobrados ainda é possível conferir-lhe a imponência, mas o glamour, a magia com que mudou o panorama cultural do Lobito colonial são hoje, ao mesmo tempo, memórias distantes e metas para novos tempos. Esses que se avizinham.

13/01/2022  Última atualização 08H55
© Fotografia por: DR
Paralisado, há décadas, ao equipamento cultural já foram dados destinos distintos à sua vocação. Até em salas de aula chegou a ser transformado. Mas nada conseguiu devolver-lhe a áurea do passado. Nos últimos anos, o processo de degradação acentuou-se. Uma ínfima parte do edifício é usada como lanchonete, mas sem perturbar a incontornável percepção de abandono que se tem do Cine Flamingo.

No ano passado, o Governo de Benguela chamou a si a iniciativa de reabilitação do monumental cinema. Segundo o administrador do Lobito, Evaristo Mário, que anunciou a boa-nova, este ano, o Programa Integrado de Emergência da Província contempla para o município, entre outras acções, a recuperação do Cine Esplanada Flamingo.

Trata-se de um equipamento cultural, que marcou o Lobito colonial e dos anos que se seguiram à Independência Nacional. Erigido entre praia e mangais, na década de 60, o Cine Flamingo integra as melhores obras arquitectónicas da cidade do Lobito. O nome provém da sua localização, uma zona onde abundam flamingos. Foi escolhido através de um concurso público na rádio.

Encomendada por Ribeiro Belga, empresário na indústria de entretenimento, a obra foi desenhada por Castro Rodrigues, um dos mais conceituados arquitectos do movimento moderno em Angola, e o projecto de estruturas ficou a cargo do engenheiro Bernardino Machado que, por via disso, inseriu, também ele, o seu nome nos anais da história do Lobito.

O principal conceito subjacente ao Cine Flamingo, presente em quase todos os cine-esplanadas construídos nos anos 60, está na estrutura betão armado com duas palas projectadas, cobrindo um enorme vão livre, e suportadas por tirantes de aço que as amarram à estrutura de pilares e vigas inclinados, à semelhança do Cine Miramar, em Luanda.

Caracteriza-se, ainda, por ser um recinto murado de forma rectangular e escultural, onde são alternadas as formas entre curvas e rectas, com revestimento em marmorite. Um exercício de limites dos momentos tensores, em forma de asas de borboleta.

As palas de ensombramento revestidas de chapas de alumínio na entrada, uma tela/palco autónoma de 70 milímetros, um jardim circundante, com vista sobre a cidade e equipamentos de apoio como bar, sanitários e montras de produtos comerciais complementavam os elementos constitutivos destes espaços de ver cinema, de passear, de encontrar amigos, debaixo de um céu de estrelas, poético, plástico e profundamente adaptado ao clima tropical.

Olhando para o Cine Flamingo e outras raridades arquitectónicas com as impressões digitais de Castro Rodrigues, uma estudiosa de Arquitectura afirma que "o Lobito de hoje deve muito a quem lhe desenhou o traçado dos bairros, delineou os planos municipais e pensou a cidade como um corpo moderno que, um dia, haveria de ser desfrutado por todos como iguais”.

Com uma área geográfica de 3.648 quilómetros quadrados e uma população estimada em pouco menos de meio milhão de habitantes, a cidade do Lobito não tem hoje nenhum cine ou coisa parecida em funcionamento.


Obras de mudança

O pacote de investimentos em que figura o cine, de acordo com o administrador do Lobito, inclui, entre outras acções, o melhoramento do sistema de abastecimento de água à zona alta da cidade, incluindo a nova Centralidade, onde o precioso líquido chega por intermédio de camiões-cisterna e é comercializado a preços especulativos.

Contrariamente à Centralidade do Luhongo, no município da Catumbela, onde a água jorra nas torneiras, dias sim, dias não, na do Lobito há quem lá vive e nunca viu um pingo de água na torneira. Os que já viram, decerto que já não se lembram da cor da água da torneira.

Para inverter a situação, ainda em Dezembro de 2021, foi feita a consignação das obras de reparação e melhoramento do sistema de abastecimento de água à zona alta.

Mas, investimentos públicos para o Lobito, este ano, de acordo com o administrador, não se resumem ao Programa Integrado de Emergência da Província. A nível do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), disse, estão previstos para a área da Educação 12 projectos, incluindo a construção de uma nova escola.

Na área da Educação, arrancam este ano as obras de construção de duas unidades sanitárias, entre as quais um hospital municipal de referência. Ainda no âmbito do PIIM, estão previstos, para este ano, trabalhos de terraplanagem nas zonas rurais.

No quadro do Programa de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza, outro mecanismo de investimentos públicos, estão previstos, para este ano, entre outras acções, trabalhos de melhoramento de artérias emblemáticas da cidade, como Avenida Governador Correia, Paulo Dias de Novais, Sócrates Dáskalos, Sá da Bandeira e Avenida Brasil.


Pressão demográfica

Como em qualquer parte, os programas de investimentos públicos procuram dar resposta às necessidades mais prementes das comunidades. Para tal, é preciso conhecê-las. De acordo com Evaristo Mário, Lobito vive o mesmo dilema com que se confronta a grande maioria das cidades angolanas: crescimento demográfico a ritmo superior às capacidades de resposta do Poder público e do mercado.

Além do crescimento natural da sua população, lembra o administrador, Lobito é um destino de migrantes, o que imprime maior velocidade ao processo de evolução demográfica, com impacto negativo nas infra-estruturas da Saúde, Educação, Saneamento Básico, Recreio, Habitação, Energia e Águas, entre outras.

O fenómeno, segundo Evaristo Mário, também está na origem da elevada taxa de desemprego que se regista no município. A demanda por serviços e bens gerada por um crescimento demográfico vertiginoso, insiste, ocorre a um ritmo a que o Poder Público e o mercado não conseguem responder.


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