Reportagem

Lobito quer voltar a ser “a sala de visitas de Angola”

Sampaio Júnior (*) | Benguela

Jornalista

O município do Lobito, província de Benguela, celebra hoje 108 anos, desde que foi elevado à categoria de cidade, em 1913. A designação “Lobito” parece provir do Umbundu “Olupito Vava”, que traduzida para o português significa “passagem de água”, sendo depois simplificada para “Lupita”. Numa leitura análoga, o topónimo provirá do Umbundu (com sentido de saída, de porta para o mar) Olu + Pitu, depois Olupitu, seguiu-se Lubito e, hoje, Lobito.

02/09/2021  Última atualização 07H25
© Fotografia por: DR
O Lobito é um dos dez municípios da província de Benguela, com uma extensão de 2.700 quilómetros quadrados. Fica a 30 quilómetros da cidade de Benguela e a 540 de Luanda. 

Quanto à organização político-administrativa, o município possui quatro comunas, nomeadamente Canata, como sede do Lobito, Egipto Praia, Canjala e o Culango. Com uma população estimada em 324 mil habitantes, Lobito dispõe de hotéis, restaurantes e similares, mercados e supermercados e pequenas unidades de comércio diverso.

Destaca a história que as acções municipais que mais contribuíram para a modernização urbana e crescimento começam desde a criação do sistema modal  rodoviário e  ferroviário. 

O município do Lobito possui bairros como o Compão, Liro, Lobito Velho, Santa Cruz, mas é na Bela Vista, onde existe o Miradouro, que a cidade dos flamingos oferece várias possibilidades para descobrir, visitar e desfrutar do vasto património natural, histórico e cultural. 

Os monumentos no Lobito são de  grande importância,  para cada um  lembrar e reflectir sobre o que ali ocorreu ou o que cada um representa. Serve para marcar uma época, um acontecimento cultural, social, político. A gastronomia é muito influenciada pela proximidade ao mar.

O acervo turístico atrai pela beleza, com destaque para a ponta da restinga, que já acolheu espectáculos de músicos nacionais e estrangeiros, o Museu de Etnografia, o Templo Católico da Arrábida, o Palácio Municipal, as estátuas de infante D. Henrique (na Rotunda do extremo norte da restinga), inaugurada por Carmona, em 1939,  de Luís de Camões (anterior a 1965), os dois pilares das Portas do Mar, o Obelisco, uma esguia e elegante peça, inserida num espaço urbano aberto na restinga, em betão aparente, vertical, de desenho abstracto, criada por Castro Rodrigues, em 1963.

Passeando pelo Lobito é ainda possível contemplar outras estátuas, como "Caminhando”, "Monumento à Aviação”, "O Homem do Lomango”, "O Poeta” e a "A Sereia dos Trópicos”. São obras de arte que permanecem nos dias de hoje, que têm a assinatura do engenheiro português Canhão Bernardes.

Escultor, autodidacta de rara sensibilidade, começou a fazer escultura por entretenimento, aos 42 anos. Reza a história que ele viveu no Lobito durante as décadas de 60 e 70 do século passado.

Estes são apenas alguns exemplos de um acervo cultural que pode servir a comunidade se for bem preservado, mas infelizmente algumas obras de arte foram vandalizadas, esquecidas e quase apagadas da história.

Com mais de um século de história, a cidade do Lobito é banhada pelo oceano Atlântico. Ao redor existem as montanhas da Praia da Jomba, rasgadas a norte pelo Rio Balombo. Com o sol quase sempre presente, a beleza única e singularidade arquitectónica são motivos de alegria para os lobitangas e não só.

O Conselho Municipal de Auscultação das Comunidades, reunido em assembleia extraordinária, presidida pelo administrador municipal, Evaristo Calopa Mário, abordou o projecto da Postura do Município, que oportunamente entra em funcionamento.

O Código de Postura servirá para disciplinar os munícipes quanto aos aspectos ligados ao saneamento básico, construção desordenada, sinalização, lavagem de viaturas na via pública e venda nos passeios.

Bairro da Canata

O emblemático bairro da Canata possui histórias de roer as unhas. Os nativos adoptaram a alcunha de kamutangres, gente fidalga, fortemente influenciada pelos marinheiros que chegavam ao Porto do Lobito, provenientes de vários países do mundo. Os Kamutangres aprendiam com grande facilidade o inglês, espanhol e outras línguas estrangeiras e conseguiam lidar com os tripulantes dos navios, naquela altura.
Lobitanga nascido no bairro da Canata, Tadeu Bastos recorda o icónico José Manuel Tavares "Zeca-Mulato”, hoje com mais de 60 anos, que no tempo colonial era um exímio lutador e especialista em baçulas que deixavam qualquer um sem norte e com o "esqueleto” desalinhado.

Assistir uma luta de Zé-Mulato era como ver o derby D'Agosto/ Petro. Espanhóis, gregos, americanos e outros tantos que chegavam ao Porto do Lobito também provaram das estonteantes baçulas do Zé-Mulato.

"O kota ainda tem aquele ar jovial, desconfio que os truques das baçulas ainda estão bem conservadíssimos. Foi devido ao Zeca-Mulato e outros, como o Big, Jila, Anselmo, Mira, Choco, que a Canata, no tempo colonial, foi um bairro de muito respeito”, conclui.

Economia

O Lobito possui um forte sistema de desenvolvimento, que se mostrou válido para a aceleração do ritmo de expansão do progresso. A construção da Refinaria do Lobito vai dar lugar ao desenvolvimento da região, com o surgimento de novas indústrias, habitações, escolas e melhores estradas. 

Na região está instalada um sistema multimodal para fazer chegar as mercadorias aos variados destinos, quer interno, como externo. É só olhar para as importantes estruturas do Porto do Lobito, Aeroporto Internacional da Catumbela, Caminho de Ferro de Benguela (CFB) e a EN-100, que faz a ligação transafricana com a Namíbia, conformando assim o Corredor do Lobito. 

O Porto do Lobito possui um importante sistema mecânico para carregamento de minérios e silos para o milho. O CFB, que liga Benguela ao extremo Leste do país, a República Democrática do Congo e a Zâmbia, foi restaurado em toda a extensão. O município possui ainda um Terminal Aéreo Militar.

Recuperar a imagem de outrora

O Lobito, que já foi considerado a Sala de Visitas de Angola, aguarda por uma nova "roupagem”  para voltar a receber, pela porta grande, os visitantes do país. Com o surgimento da pandemia, os negócios definham esperando por melhores dias. Os lobitangas e forasteiros aguardam pela reabertura das praias para dar uns bons mergulhos nas águas cristalinas do Atlântico.

A cidade já teve grandes momentos de diversão durante a realização do carnaval e festas promovidas pelos clubes recreativos, torneios de futebol, provas de tiro ao alvo, pratos e pombos, baile, quino, bar/restauração, corridas  de bicicleta e rally de automóvel.
Depois de um banho de mar e de memórias na restinga, quem visita o Lobito deve passar pelos mangais da cidade, à saída para Benguela. No local vai encontrar, reflectidos pela luz do pôr-do-sol, dezenas de flamingos cor-de-rosa, debicando as águas baixas, mistura de mar e de rio. Ameaçadas de extinção, essas aves majestosas estão de volta às águas lobitangas.      
Prenúncio ou não, este símbolo de vida renovada regressa ao Lobito, essa sala de visitas que, dia após dia, se engalana cada vez mais, para voltar a receber os olhares deslumbrados de quem pisa pela primeira vez essas terras.  

O programa dos 108 anos do Lobito prevê homenagens a figuras ilustres, música, poesia e dança, exposição de editoras, livrarias, universidades, centros de formação profissional e empresas, realização de ginástica ao ar livre, programas "Sábado Nosso Especial” e "ULONGA” da Rádio Lobito, entre outros atractivos.



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