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Lixo, águas paradas e ravinas invadem ruas de bairros periféricos de Luanda

Dois dias depois das chuvas que se abateram sobre Luanda, o Jornal de Angola saiu à rua e percorreu alguns bairros. No município piscatório de Cacuaco, as chuvas levaram para a praia toda a imundície das zonas altas da vila.

13/01/2020  Última atualização 16H02
Vigas da Purificação | Edições Novembro

São um verdadeiro atentado ao ambiente as grandes quantidades de garrafas de plástico nas praias e a flutuarem sobre as águas do mar. E, ao que nos pareceu, pelo frenesim da venda de peixe no mercado Mundial, nenhum dos vendedores está preocupado com toda aquela imundície à volta.
Num breve contacto com uma fonte da nova administração municipal, chefiada por Auxílio Jacob, Jornal de Angola apurou que há um amplo projecto de reabilitação de toda a orla marítima de Cacuaco, no quadro do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM).
O que se pretende, disse a fonte, é requalificar toda a costa de Cacuaco, que tem um extraordinário potencial para o desenvolvimento da indústria turística. “Em todo esse processo, os empreendedores, nacionais e estrangeiros, são chamados a apresentar propostas de investimento”, disse a fonte.
Quanto ao lixo que invade as praias e as ruas do município, as autoridades locais admitem que os recursos locais são escassos para as necessidades ilimitadas, mas prometem movimentar homens e máquinas para a recolha dos resíduos sólidos e desobstruir as ruas enlameadas.
Depois de Cacuaco, Jornal de Angola rumou para o Cazenga, onde, também, se deparou com ruas inundadas e famílias inteiras com baldes na mão a retirar água de quintais e becos. Na avenida Ngola Kiluanje, também conhecida como Estrada da Cuca, o lixo transbordava dos contentores, misturando-se com a lama provocada pelas chuvas. A avenida Ngola Kiluange, onde se localizam os maiores armazéns de venda a grosso e a retalho do país, é, igualmente, um grande produtor de lixo comercial, que é visível à vista desarmada, ao longo da rua principal. António da Costa, que vive no bairro há mais de 45 anos, disse, desolado, que toda aquela zona da Cuca já foi um bairro chique, com uma qualidade de vida que se comparava ao que havia de melhor em Luanda, como o Alvalade e o Miramar. Acrescentou que hoje, fruto do comércio desordenado, o bairro está transformado num autêntico pandemónio, com vivendas bem projectadas a serem transformadas em armazéns escanzelados, sob o olhar impávido e sereno das autoridades municipais.
“Ninguém faz nada para endireitar essa confusão”, lamentou, apontando para a desordem arquitectónica que são os inúmeros armazéns perfilados na Ngola Kiluange.
“Neste bairro e arredores morou gente com alguma referência. Justino Fernandes, que foi ministro da Indústria e governador de Luanda na Angola independente, já morou aqui. A Cuca era um bairro de grande categoria”, disse, nostálgico, António da Costa.

Lama na Nocal e Rangel
Mas a chuva, que se abateu sobre Luanda nos últimos dias, não veio só destapar a balbúrdia que vai pela avenida Ngola Kiluange. A rua da Nocal, que dá acesso ao centro de produção deste jornal, mais se parecia, ontem, com um curral de porcos, passe o exagero, pelo cheiro nauseabundo da lama putrefacta em todo aquele troço que vai até à fábrica de cerveja que lhe dá o nome. E este caso já vem de longe. As chuvas só vieram destapar a ponta iceberg. Há anos que não há manutenção das redes de esgotos e faz tempo que as linhas de água estão obstruídas pelas construções anárquicas.
No antigo mercado Roque Santeiro, no bairro Sambizanga, as chuvas deixaram uma “piscina” a céu aberto, onde alguns garotos davam grandes mergulhos, inocentes dos perigos que podem advir para a saúde. A poucos metros, grupos de jovens jogavam a bola, completamente “desligados” com o que se passava à volta.
Os bairros Rangel e partes da Terra Nova mais pareciam campos de exploração de petróleo “onshore”, tanta era a lama negra a engolir as ruas. Para não ficarmos sem o carro, fomos aconselhados a não tentar passar pela histórica rua da Dona Amália. O Rangel está, literalmente, transformado num autêntico viveiro de mosquitos. As pessoas clamam pelo regresso dos carros de fumo, para combater os mosquitos, e dos Sukulas, camiões de sucção comprados pelo Governo para as administrações municipais e que “desapareceram em combate sem deixar rasto”, como disse um morador do bairro.

Ravina na rua do Ulengo
De regresso a esta velha casa de imprensa, duas horas depois, a nossa equipa de reportagem passou pela estrada que dá acesso ao Centro de Entretenimento Ulengo e o que viu foi assustador. Uma ravina em progressão ameaça cortar a circulação rodoviária e tende a destruir o morro de vedação adjacente ao Estádio Nacional 11 de Novembro. Na Urbanização Nova Vida, uma ravina ameaça o ponteco que dá acesso ao complexo escolar do bairro. Na Marginal de Luanda, à beira mar, defronte ao Banco Nacional de Angola (BNA), também havia ontem muito lixo acumulado arrastado pelas águas da chuva, inclusive animais mortos.
Enquanto isso, centenas de famílias aproveitaram, ontem, o dia de sol para fazer praia na contra-costa da Ilha de Luanda, porque do outro lado é proibido levar as crianças a apreciar o Porto Comercial daquele local, está tudo vedado há anos, as praias terão sido privatizadas.

Construção em zonas de risco é penalizada

A Comissão Nacional de Protecção Civil (CNPC) prometeu responsabilizar os órgãos da administração local e as populações que insistem construir em zonas de alto risco de habitabilidade. 

A advertência saiu da primeira reunião da Comissão Nacional de Protecção Civil, realizada, quinta-feira, em Luanda, que visou fazer o balanço dos danos e perdas durante a seca e a época da chuva em 2019. O encontro, que reuniu ministros, secretários de Estado e governadores provinciais, serviu, também, para avaliar as actividades realizadas pelos vários órgãos de protecção civil.
Segundo o porta-voz da Comissão Nacional de Protecção Civil, Faustino Minguês, serão criadas normas e estabelecidos mecanismos para a responsabilização das pessoas que persistirem em habitar em zonas perigosas, como áreas propensas a ravinas, deslizamentos de terra, zonas montanhosas e morros.
Os membros da Comissão Nacional de Protecção Civil recomendaram, também, o fortalecimento dos investimentos em infra-estruturas de macro drenagem, bem como a necessidade de se intensificarem as campanhas de educação e sensibilização junto da população para abstenção de construções desordenadas.
De acordo com o responsável, em 2019, no decorrer do qual registou uma seca severa em várias províncias do sul do país, que afectou mais de 300 mil famílias, a Comissão Nacional de Protecção Civil deu uma resposta insuficiente, devido à escassez de equipamentos.

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