Opinião

Ligando os pontos cardeais

Sousa Jamba

Jornalista

Estou nas Américas, mais concretamente no México, para assistir à conferência da UNESCO sobre as culturas do mundo. Dentro de dias estarei na cidade de Jacksonville, estado da Florida, para ver os meus filhos. A minha filha chamou-me muito preocupada, porque há um furacão a vir das Caraíbas, que poderá fazer muitos estragos em Jacksonville.

01/10/2022  Última atualização 05H55

Os furacões estão cada vez mais violentos. Há ilhas e regiões do mundo que estão a ser abandonadas porque passaram a ser inabitáveis.

Aqui, na Cidade do México, encontrei-me com vários cidadãos vindos de ilhas não só das Caraíbas, mas também do Pacífico; eles não estão apenas preocupados com a sua herança cultural, mas com a própria existência dos seus países. Um jovem das Ilhas Marshall, no Pacífico, disse-me, preocupado, que o nível das águas do mar está a subir rapidamente e que as ilhas do seu país vão desaparecer.

 Alguém da ilha de Vanuatu disse-me que há vezes que não há chuva nas suas ilhas e que a água para consumo tem de vir de barco da Austrália para ajudar as comunidades. Segundo ele, as mudanças climáticas estão a fazer com que haja secas prolongadas e isto está também a afectar a vegetação natural.

 Essencialmente, as emissões de carbono estão a resultar num desequilíbrio ambiental que vai resultando em secas em certas regiões do planeta e inundações noutras. Se não forem realizadas mudanças drásticas, o próprio futuro da humanidade estará em perigo.

Mas há partes do mundo que não estão a levar a questão das mudanças climáticas com a seriedade necessária. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve um tempo em que figuras influentes defendiam a tese de que toda a história das mudanças climáticas era um embuste inventado pela China para alterar o desenvolvimento dos Estados Unidos. Havia, por exemplo, o grande amor que o americano tinha pela sua viatura. Depois havia também a indústria do carvão mineral; os promotores da energia verde eram tidos como uns desequilibrados que sabiam pouco de ciência.

Em 1986, um amigo britânico tinha me escrito uma carta a partir da Cidade do México, capital do México, em que ele afirmava que a poluição do ar era tanta que os pássaros caiam ao sobrevoar a cidade.  A Cidade do México era então considerada uma das localidades mais poluídas do mundo. Hoje já não é o caso. Houve iniciativas aqui que deveriam ser replicadas pelo resto do mundo.

Aqui há rotas especiais para autocarros;  quando um motorista comum entra nelas a multa é de duzentos dólares. De manhã, vêm-se longas filas de autocarros articulados a caminho dos centros de trabalho. Isto desencoraja os cidadãos a usar viaturas privadas. Depois há, também, várias linhas para ciclistas; há muita gente que vai ao trabalho de bicicleta.

 Algo que também impressiona são os vários parques e florestas no meio da cidade; nos últimos anos, houve uma campanha agressiva de plantação de árvores. Há estudos que indicam que só nos últimos cinco anos a Cidade do México plantou árvores que somam quase oitocentos quilómetros quadrados.

A questão do desenvolvimento está agora ligada à sustentabilidade. Há quem insiste que o mundo deve deixar de comer tanta carne, porque a criação do gado destrói terras, e também requer muito combustível. Outros insistem que deve haver uma gestão mais rigorosa na preservação de alimentos — muitos produtos agrícolas perdem-se até que cheguem à mesa do consumidor. Mesmo quando se trata do turismo, o ênfase é na sustentabilidade; nas ilhas no Pacífico está a se encorajar muito o turismo ecológico, que tem ajudado na manutenção da biodiversidade.

Espero que o mundo siga o exemplo dos mexicanos. Um dos efeitos da globalização e revolução nas tecnologias de informação é o facto de que as experiências são partilhadas pelo mundo rapidamente. Vimos as terríveis chuvas e inundações  no Bangladesh; os cidadãos foram filmando o acontecimento nos seus celulares e mandando para as redes sociais. Nos discursos aqui no México, um dos temas que era repetido é que  estamos todos ligados; o que acontece no Japão, eventualmente, passa a afectar a vida de quem está em Timbuktu, no Mali, ou então em Montreal, no Canadá.

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