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Líder da Junta Militar descarta candidatura

O general Abdel-Fattah Burhan, líder da Junta Militar no poder do Sudão, anunciou, ontem que não concorrerá em futuras eleições para um Governo liderado por civis.

29/09/2022  Última atualização 06H15
General Abdel Fattah Burhan promete que militares vão devolver o poder a um Governo civil © Fotografia por: DR
Antes de sair de Nova Iorque, onde participou na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Abdel-Fattah Burhan disse à Associated Press (AP) que não tinha o desejo de se apresentar como candidato.

Subjacente ao golpe do ano passado estavam as tensões que vinham crescendo entre os partidários do regime militar e aqueles que apoiam um Governo civil, com ambos os lados frustrados pelo agravar das condições económicas do país.

O Sudão está atolado em turbulência política há mais de três anos. A economia oscila e a inflação deve atingir 245 por cento este ano, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Desde o golpe de Outubro passado, manifestantes pró-democracia marcham  pelas ruas para exigir que a Junta Militar devolva o poder aos civis.  As tropas abriram fogo contra manifestantes, matando alguns e prendendo centenas. Embora nenhum polícia ou forças de segurança tenham sido condenados pelas mortes, Burhan disse que cerca de cinco ou seis estão sob investigação.

"Ninguém matou manifestantes da maneira que está a ser retratada”, disse. "Os manifestantes entraram em confronto com a Polícia, e as forças da ordem lidaram com eles de acordo com a lei para proteger o património público”, garantiu, nas declarações à AP.

Burhan disse que, uma vez que um Governo eleito esteja em vigor, as Forças Armadas serão outra instituição desse Governo, em vez de manter um estatuto mais elevado. Enquanto isso, autoridades médicas sudanesas alertaram, na segunda-feira, que mais de 1.500 corpos não identificados empilhados em vários necrotérios do país podem levar a um surto de doenças, havendo acusações de que o Governo está a encobrir as causas de morte.

         Existe a suspeita de que os mortos sejam manifestantes pró-democracia, que activistas dizem ter sido mortos pelas forças governamentais, na repressão às manifestações.

Relatos do atraso de corpos a aguardar autópsia surgiram pela primeira vez em Maio, com vídeos de notícias divulgados no início deste mês a mostrar pilhas de cadáveres mantidos num prédio que parecia não ter refrigeração.

O principal promotor público do país autorizou o enterro em massa dos corpos no mês passado sem uma autópsia.

  15 milhões de pessoas ameaçadas de fome

O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) estima que cerca de 15 milhões de pessoas passam fome diariamente desde que começou a época da miséria, ao mesmo tempo que revela uma avaliação cujos indicadores projectam que o número pode aumentar para 18 milhões no final do mês.

Num apelo à comunidade internacional, a agência da ONU alerta que a crise não se reflecte apenas na falta de alimentos, mas também de serviços de saúde básicos, água potável, saneamento e educação.

"A imunização de rotina, infelizmente, está em queda no Sudão. Entre 2019 e 2021, o número de crianças que não receberam uma única dose de vacinas duplicou, disse aos jornalistas, em Genebra, um dirigente do PAM.

Também o representante no Sudão do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Axel Bisschop, avisou que os refugiados e deslocados internos no país sofreram um enorme aumento dos custos de vida. "O Sudão acolhe actualmente cerca de 1,1 milhões de refugiados”, disse o responsável, acrescentando que a violência comunitária nos Estados de Darfur, Kordofan e Nilo Azul provocaram o deslocamento de 177 mil pessoas este ano, a juntar aos "cerca de 3,7 milhões de deslocados internos”.

As três agências da ONU alertam que o financiamento está muito abaixo do que precisam para fornecer o apoio necessário e temem que, a menos que o financiamento aumente rapidamente, o custo de ter de responder a uma emergência maior será muito mais elevado.

No caso do ACNUR, por exemplo, até 13 de Setembro só tinha recebido um terço dos 348,9 milhões de dólares (o mesmo valor em euros) necessários para este ano.

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