Opinião

Lições dos colonos

Sousa Jamba

Jornalista

Durante a minha infância, aqui na Zâmbia, frequentava muito as bibliotecas. Praticamente cada bairro tinha uma biblioteca pública. Eu gostava muito de ler as obras sobre a História da África Central. Uma das figuras que sempre me fascinou é a de Cecil Rhodes, o capitalista e imperialista que, justamente, é visto como um grande vilão. No Katchiungo, minha vila natal, no Huambo, sempre penso em Robert Williams, o engenheiro escocês que trabalhou muito próximo de Rhodes, e que liderou a construção do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB).

17/09/2021  Última atualização 05H45
 Relendo a biografia de Rhodes, passo logo a lembrar que há algumas lições dos colonos que podemos e devemos emular. Sim, Cecil Rhodes foi um racista; como Primeiro-Ministro da colónia do Cabo, na África do Sul, ele tratou muito mal os negros. Há quem diga mesmo que ele foi o pai do Apartheid. Rhodes acreditava, como muitos do seu tempo, na supremacia da raça anglo-saxónica. Ele não podia, por exemplo, com as escolas dos missionários, acreditando, justamente, que estas podiam produzir negros que iriam insistir na igualdade com os brancos.

 No século XIX, em 1896, houve várias revoltas em Matebeleland, hoje Sul do Zimbabwe. Rhodes, usando mercenários  da British South African Company, acabou com as rebeliões dos indígenas, que defendiam as terras dos seus ancestrais, de uma forma muito brutal. Tão brutal que muitos, na própria Inglaterra, manifestaram, na altura, receios do grande projecto de Rhodes. Os mercenários da sua empresa começaram a ocupar as terras dos indígenas — algo cujas repercussões persistem até aos nossos dias. Rhodes conquistou o território do Norte, a que chamou Rodésia. Lá, tudo tinha que operar a favor dos brancos.

 O Colonialismo, naquela altura, operava no quadro de conquistas de povos e terras na base de uma espécie de terceirização. Oficialmente, Rhodes estava envolvido na expansão do Império Britânico — pintar o mapa do mundo vermelho; isto é, com zonas que seriam submissas à Rainha Victória. Em troca, Rhodes e a sua empresa tinham concessões. Cecil Rhodes teve uma infância humilde e também sofria de problemas de saúde. Ele chegou à África do Sul no tempo em que vários aventureiros globais andavam à procura de ouro e diamantes. Trabalhando arduamente e sem escrúpulos, Rhodes fez uma imensa fortuna, que usou para avançar com os seus próprios negócios, sem descurar os interesses do Império Britânico.
 Quais são as lições que podemos retirar de colonos como Cecil Rhodes? Os estudantes de Estratégia aprendem de todos os lados, incluindo de Adolfo Hitler, Rommel, etc. Cecil Rhodes foi um homem altamente disciplinado. Ele faleceu em 1902, com quarenta e nove anos, mas com uma fortuna que continua até hoje. Em Kimberley, onde no século XIX Rhodes fez a sua fortuna, havia muitas distracções: álcool, mulheres, jogos; querer dar nas vistas por causa de muito dinheiro. Rhodes resistiu a tudo isso. Várias biografias dizem que Rhodes tinha uma fortuna que lhe poderia dar uma vida de conforto em qualquer parte do mundo. Ele não se conformou com isso e foi comprando empresas, incluindo jornais; Cecil Rhodes foi um grande propagandista, ou manipulador de opiniões.

 Cecil Rhodes foi um homem de contactos que não hesitava em deixar os outros fazerem milhões, desde que ele fizesse muito mais. Como empresário, trabalhando com a sua De Beers, empresa de diamantes, Cecil Rhodes estava sempre à procura de accionistas, no Ocidente; ele também não hesitava em entreter e fazer ofertas a compradores. Todo o dinheiro que ele conseguia era, porém, reinvestido na realização do seu sonho, que era a construção de um império do Cabo ao Cairo.  Ainda dando ênfase aos seus contactos, Cecil Rhodes foi, ao mesmo tempo, empresário e político. Quando estivesse no Reino Unido, ele fazia tudo para se encontrar com a Rainha Victória. Depois da conquista do território, agora conhecido como Zimbabwe, ele chamou à capital Salisbury; Lord Salisbury foi o influente ministro dos Negócios Estrangeiros da Rainha Victória.

 Uma outra lição chave que podemos tirar de Cecil Rhodes é de nunca perder o foco. Quando os homens de Rhodes instalaram-se no Zimbabwe, o sonho era encontrar diamantes ouro e outros minerais. Na altura não encontraram nada. Rhodes instruiu-lhes logo para dedicarem-se à agricultura. Para ele, os fundos que iriam resultar da agricultura iriam financiar outros projectos para avançar ao Norte.

 Uma outra lição de Rhodes é a importância que ele dava à educação formal. Cecil Rhodes, que nunca tinha antes frequentado uma Universidade, foi para a Universidade de Oxford já milionário. Ele tinha notado que fazer dinheiro sem ter alicerces académicos, para melhor entender o mundo, resultaria em muitas limitações. Na nossa região precisamos, sim, de vários Cecil Rhodes, claro sem o seu lado nefasto.

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