Cultura

Lição de Rumba cantada e contada

Analtino Santos

Jornalista

Sam Mangwana recordou o tempo em que viveu em cidades como Yaoundé e Douala, soltando o peculiar “Yé” para cantar “Ba na Cameron”. Na sequência das “aventuras” pelo continente, tirou a apreciada “Fatimata”, resultado dos nove anos vividos na Côte d’Ivoire.

03/07/2022  Última atualização 08H50
Sam Mangwana no Show do mês © Fotografia por: Cedidas pela organização
A música foi inspirada nas belas funcionárias do centro administrativo de Abidjan com salários modestos, mas vivendo como "princesinhas”, deslocando-se de táxi personalizado, viajando em classe executiva e hospedando-se em hotéis de topo. Ainda do convívio com os irmãos da África Ocidental e da apetência em experimentar  várias línguas, em Bambara apresentou "Afogné”, um tema que aborda o casamento forçado. É uma composição do guitarrista Kanté Mafilla, o principal parceiro musical de Salif Keita. 

O artista falou do valor dos cabelos, assumiu ser um verdadeiro devorador de hábitos e costumes de outros povos  e um "vagabundo cultural”. A música "Amor de Guatemala”, um Rumba à La Mangwana, "latinizado”, que o "Internacional” canta em espanhol e lingala, realça o mais nobre dos sentimentos, o amor. Tudo começou em Los Angeles na companhia de Ricardo Lemvo, quando uma cidadã da Guatemala entrou na vida de Mangwana e fè-lo percorrer várias cidades da América Latina...

 

Músicas da consagração

Sam Mangwana, durante o concerto, lembrou a digressão por Angola em 1979, reflectida em "Georgette”, "Souzane Colibari” e "Maria Tebo”, músicas que mexeram com o continente.  A histórica "Souzane Coulibari” é um sucesso pan-africano concebido em Abdijan, num andamento para competir com Prince Nico Marga e Sonny Okurson, os papões de venda da altura. É a história da infidelidade de Souzane.

O guitarrista Sankara saiu-se bem, executando a malha de Lokassa ya Bombo, mestre do Soukouss e da Rumba Congolesa. Mangwana fechou a saga de 1979 com "Maria Tebo”, um dos principais sucessos da sua carreira. Ao contrário dos espectáculos históricos na Tourada e em Malanje, na Casa das Artes de Talatona a dança e a vibração mais espontânea ficaram condicionadas pelo formalismo do espaço.   

Outras vozes 

Milla, corista e segunda voz na maioria dos temas interpretados por Mangwana, foi chamado a interpretar "Boma L’Heure”, um original da Orquestra TP Ok Jazz de Luambo Makiadi "Francó”. Neste tema Teddy Nsingui foi a segunda voz. O mestre da guitarra angolana, que também viveu os momentos da afirmação da Rumba Congolesa, fez dueto com Mangwana em "Azda” e "Joujou Zena”. A primeira é uma música encomendada pela concessionária de automóveis zairense.

"Azda” foi interpretada em vários países do continente como sendo uma declaração de amor a uma mulher. A segunda recuperou um tema do seu mentor, Tabu Ley Rochereau, no qual se conta a viragem na vida de um indivíduo que passa de sindicalista e guerrilheiro para músico. A história foi uma sugestão do falecido nacionalista Pascoal Luvualu. Neste tema, Chinguma, no trombone, mostrou os dotes de um instrumentista com margem de progressão.

Músicos convidados

A voz feminina convidada por Sam Mangwana foi Diana Kapango, que interpretou temas que se encaixam no enredo da Rumba Congolesa e afluentes. Começou com "Amio” da camaronesa Bebe Manga, uma proposta ao estilo Makossa com influência dos ritmos do Congo. Finalizou com "Esi yo Wapi”, um original de Mbillia Bell, a conhecida Rainha da Rumba Congolesa curiosamente lançada por Mangwana, na altura na orquestra Afrisa International de Tabu Ley Rochereau.

A performance foi bastante apreciada pelo artista e os presentes, que se renderam à combinação das guitarras de Teddy e Sankara. Diana dançou à "musique nangay”.

Lito Graça subiu ao palco e em Kikongo explicou a presença de angolanos na génese da Rumba Congolesa. Um medley revisitando "São Salvador” de Manoel de Oliveira e "Belita Kirikiri” dos Ngoma Jazz deleitou o público com a produção do estilo feita do nosso lado da bacia do Rio Nzadi.

Outro tema que ajuda a conhecer a Rumba Congolesa é "Felicite”, também conhecida por "Parafifi”, do pioneiro da Rumba, Grand Kallé, com o África Jazz. Esta canção fez e continua a fazer furor em Angola e mexe com Mangwana, aliás não foi por acaso que a fez constar do álbum "Lubamba”.

"Lubamba”, tema ausente

Desde Fevereiro do ano passado que Mangwana tem divulgado o álbum "Lubamba”, do qual o tema que dá titulo ao álbum e "Juventude Actual” são os mais executados. Nas duas noites "Lubamba”, um tema que exorta ao trabalho e à unidade nacional, ficou de fora. Melhor sorte teve "Juventude Actual”, uma parceria entre Dodó Miranda e Adão Filipe em que se aconselha os jovens a mudarem de comportamento. Rigoberto foi chamado a solar o que Manu Dibango fez ao saxofone, num momento que suscitou muitos aplausos. Sankara também fez maravilha na guitarra.

  

O patriota não populista

O lado patriota e intervencionista de Sam Mangwana esteve presente em "Querida Pátria”, "Morena” e "Tio António”, canções que apelam ao nacionalismo mas que, de forma inteligente, fogem aos clichês panfletários e populistas muitas vezes aproveitados pelos políticos.  Em "Pátria Querida”, Angola é tratada como uma bela mulher aconselhada a não desbundar. Outro tema na mesma senda é "Morena”, que fala do guerrilheiro apaixonado nas matas, na frente de combate a suplicar pelo amor da companheira.

 Para fechar o concerto, que contou a história de vida de Sam Mangwana, foi escolhida a música dançante e popularíssima "Tio António”, em que se relaciona a vida de um estudante no Zaíre e a época de férias em Angola. O mote do tema é a verdadeira história por ele vivida em 1968.

Fizeram parte da Banda Show do Mês, nos coros, o trio Mila, Raquel Lisboa e Neide. Berlin mostrou segurança no baixo e Sankara quase superou Lokassa Ya Mbombo na guitarra. Omar, baterista de 18 anos, não decepcionou, assim como Yanick na percussão ligeira. A banda teve a direcção artística de Benny Makanzo, que esteve nos teclados. Nos sopros, o trio foi composto por Rigoberto (saxofone), Tchinguma (trompete) e Efraim La Tromba (trombone). Os rejuvenescidos Teddy Nsingui e Xiko Santos, na guitarra e nas congas, completaram a formação, proporcionando a passagem de testemunho que, de forma indelével, a Nova Energia com o Show do Mês tem proporcionado.

"Um músico completo”

"Sem sombra de dúvida, Sam Mangwana é verdadeiro "band leader”, um músico completo! Os que estiveram, sábado à noite, na Casa das Artes, sentiram a pujança de um artista que canta e encanta, não fosse o seu percurso muito diversificado e longo!

Senti, durante o espectáculo, a força do canto suave e melódico de um homem que se comprometeu com a música há mais de cinquenta anos, apesar dos vários constrangimentos.

Mangwana é um monstro, um guru, um mais velho, que está atento ao que se passa à sua volta, que interage e aconselha os mais novos a trilharem caminhos menos tortuosos e, acima de tudo, a trabalharem com determinação e disciplina.

O show de sábado, como sempre, esteve como manda o figurino: tudo certinho! A Rumba foi, de facto, contada e cantada, um conceito que permitiu esbater preconceitos, esclarecer alguns equívocos! Enfim, foi uma noite à maneira, com café, vinho e muita conversa!”

Paulo Mendes de Carvalho, Influenciador Digital

Vida entregue a África

Samuel Mangwana nasceu em Kinshasa aos 21 de Fevereiro de 1945 de pais angolanos. Durante as férias escolares era na terra dos pais onde passava as férias, uma experiência reflectida no tema "Tio António”. A música nele surgiu muito cedo, quando aos 17 anos despertou a atenção de Tabu Ley Roucherau, que em 1963 o levou para o African Fiesta. Depois passou pelo TP OK Jazz de Francó Luambo Makiadi,  Afrisia International e  esteve na origem e liderança das orquestras Festival des Maquisards e African All Stars.

É conhecido como "Pigeon Voyageur” pelas constantes "aventuras” pelos países do continente, como Togo, Gana, Nigéria, Camarões e mais tarde Côte d’Ivoire, onde permaneceu entre a década de 80 e 90 até optar pela França. O seu último álbum de estúdio é "Lubamba”, lançado em 2016 em Luanda. Da sua vasta discografia destacamos: "Matinda”, "Maria Tebo”, "Cooperation”, "Georgette”, "No me digas no”, "Waka Waka”, "Pátria Querida”,  "Galo Negro” e "Cantos de Esperança”, sendo os três últimos muito direccionados para Angola. 

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