Opinião

Libertar a nossa criança interior

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

Em várias regiões do Mundo, ser criança hoje é um fardo demasiado pe-sado, tanto para as próprias, quanto para as famílias, as sociedades e os Estados. Talvez seja necessário libertarmos um pouco o pequeno ser que vive dentro de nós.

01/06/2021  Última atualização 07H00
A efeméride hoje assinalada é tudo menos consensual. Alguns países celebram-na noutras alturas e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) considera o 20 de Novembro, Dia Mundial da Criança. Nessa data, foi aprovada, em 1959, a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1989, a Convenção dos Direitos da Criança.  Seja qual for o dia escolhido, reflectir sobre a situação das crianças é sempre actual, em particular agora, com o Planeta a braços com uma pandemia de resultados preocupantes, devido ao número de infectados e de mortos.  
Manter o sonho  
O sonho de voltar a ser criança devia ser uma constante em muitos adultos, sobretudo, aqueles em cujas mãos está o futuro de mi-lhões de seres humanos, quanto mais não seja para recordar que dentro de pouco tempo, a 12 de Junho, se assinala o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, instituído pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2002, quando foi apresentado o primeiro relatório global sobre a matéria na Conferência Anual do Trabalho.  Os números relativos ao trabalho infantil variam todos os anos e de acordo com cada país e região, segundo as mentalidades. Estima-se que cerca de 152 milhões de crianças com idades entre os cinco e os 17 anos desenvolvam algum tipo de actividade remunerada ou apenas para sobreviver e que quase metade delas (73 milhões) desempenhem trabalhos perigosos.  Em 2021, o Mundo assinala o Ano Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil, segundo resolução adoptada por unanimidade pela Assembleia Geral da ONU, que na ocasião pediu à comunidade internacional que intensifique os esforços para erradicar o problema e à Organização Internacional do Trabalho (OIT) que assuma a liderança na sua implementação.   
A criança africana  

Durante o mês de Junho, assinala-se também o Dia da Criança Africana, data em que se presta homenagem às vítimas do massacre de Shaperville, Soweto (África do Sul), em 1976. Dados de antes da pandemia apontavam que, passado todo este tempo (55 anos), milhões de menores africanos vivem ainda atormentados pela fome, doenças e violência de vários tipos, incluindo a sua utilização em situações de conflito armado, como crianças-soldado.  O número de crianças afectadas por esses males no Mundo varia a cada relatório produzido, prova da situação de vulnerabilidade em que vivem, assim como as dificuldades que os Estados têm para lidar com o problema. Um dado assustador é que 690 milhões de crianças, ou seja, uma em cada quatro, têm seus direitos a uma infância segura e saudável desrespeitados, apesar de avanços notáveis em quase todos os países nas últimas duas décadas.  A actual pandemia agravou sobremaneira a situação das famílias e, em particular, das crianças, afastadas até de um direito fundamental: o acesso à educação. Devido ao encerramento das escolas em todo o Mundo, 250 milhões de alunos ficaram sem estudar, assim como foram interrompidos os serviços de vacinação de rotina.  
 Outros problemas  

Enquanto isso, situações antes preocupantes, como os conflitos armados e os problemas climáticos, permanecem uma realidade em várias regiões. Estima-se que 36 milhões de crianças vivam como deslocadas por causa da guerra. Nos últimos 30 anos, triplicou o número de desastres relacionados com o clima.  Em face do quadro actual, importa repetir frases de apelo à reflexão sobre a infância e a adolescência, para manter bem alto a ideia de que elas são a semente do Mundo e o homem de amanhã. Vale também lembrar que a segurança dos adultos depende da forma como são tratadas as crianças.  Para uma mudança geral de comportamentos, talvez seja necessário libertarmos um pouco a nossa criança interior. 

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