Opinião

Liberdade(s) e identidade(s)

Há 48 anos, os capitães de Abril levaram a cabo uma revolução original em Portugal: sem derramamento de sangue, puseram termo ao regime fascista que se prolongava no país desde 1933 e, além de devolverem a liberdade ao povo português, negociaram com os movimentos de libertação das antigas colónias o fim da guerra colonial, abrindo, assim, o caminho para a independência dos novos países.

27/04/2022  Última atualização 07H55

A relação entre a luta dos povos de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe e Moçambique e o 25 de Abril é, pois, intrínseca: o desejo de acabar a guerra colonial (a que os povos africanos chamavam guerra de libertação nacional) foi o factor determinante que esteve por detrás do 25 de Abril.

Quase cinco décadas depois, o debate sobre a liberdade continua, não apenas em Portugal ou nos novos países surgidos tardiamente na sequência do 25 de Abril, mas em todo o mundo. Para além das manipulações ou dos equívocos inconscientes ou estrategicamente alimentados (vide as intervenções imperiais nos países incómodos, sob a alegação da implantação da democracia à força dos canhões ou das "revoluções híbridas”, com resultados desastrosos), o facto é que a liberdade está a ser posta em causa globalmente, sendo o crescimento da extrema direita apenas um sintoma: a aliança entre o capital financeiro, actual formato do modo de produção capitalista, e as novas tecnologias de comunicação, em que os algoritmos desempenham um papel central, é o grande cenário e factor dos diferentes movimentos "tectónicos”, às vezes aparentemente contrários, que tendem a pôr em causa a liberdade, muitas vezes em seu próprio nome.

Ao mesmo tempo, entretanto, e também em todo o mundo, a luta por novos direitos mantém-se e amplia-se. As lutas sociais contemporâneas (anti-racismo, feminismo, direitos LGBT+, ecologia, linguagem inclusiva e tantas outras), a que alguns chamam "causas fracturantes”, exigem, obviamente, um combate prévio pela liberdade, confirmando que essa intrínseca aspiração humana é permanente e contínua. Os homens precisam da liberdade para lutar pelos seus direitos e pelas suas causas, alguns e algumas das quais, por vezes, precisam de ser renovados e reconquistados, pois a vida em sociedade não é linear, sendo feita de progressos e retrocessos constantes.

No último fim de semana, participei do Festival de Poesia de Leiria, tendo intervido, juntamente com poetas portugueses e brasileiros, numa mesa sobre "poesia e novas liberdades”. Na verdade, algumas dessas novas liberdades, no sentido de novos direitos, já existiram em contextos passados, tendo passado posteriormente a ser reprimidos, razão pela qual faz todo o sentido a luta pela sua actualização. É o caso, por exemplo, de certas práticas sexuais aceites normalmente nas sociedades tradicionais, incluindo africanas, e que mais tarde foram postas fora da lei, sobretudo por influência das religiões de base cristã.

Na minha intervenção, destaquei três tendências das actuais lutas sociais que, no meu entendimento, apenas contribuem para a sua menorização: a ausência de uma perspectiva social de classe, a sua transformação em lutas identitárias fechadas e sectárias e a sua contínua fragmentação, sem um esforço estratégico de unificação.

A ausência de uma perspetiva de classe impede que os grupos oprimidos tenham condições (educação, renda, etc.) para debater em pé de igualdade com os opressores e os grupos dominantes; a transformação das lutas sociais, como o anti-racismo, o feminismo, a luta pelos direitos LGBT+ e outras, em lutas identitárias fechadas e muitas vezes sectárias, de que são exemplo a política de cancelamento e a distorção de conceitos como o de "lugar de fala”, apenas provoca o enclausuramento dos indivíduos envolvidos nessas lutas, impossibilitando alianças necessárias para o sucesso das mesmas; a sua fragmentação contínua serve os interesses dos grupos dominantes e a sua milenar estratégia de "dividir para reinar”.

* Jornalista e escritor

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