Cultura

Leonina Abo: Activista que se opôs e fugiu do regime de Mobutu

Rui Ramos

Jornalista

Wassis Hortense Leonina Abo é uma activista congolesa que teve uma liderança proeminente na revolta Kwilu na República Democrática do Congo.

31/07/2022  Última atualização 13H32
© Fotografia por: DR

Em 1963 juntou-se à revolta armada liderada por Pierre Mulele, o líder, e ex-ministro da Educação no Governo de Patrice Lumumba, movimento que contou com a participação de cerca de 100 mil rebeldes, dos quais cerca de 25% a 30% eram mulheres.

Nasceu em Malungu, nas margens do Rio Kwilu, Bandundu, no então Congo Belga, em 1945. Com a morte da mãe durante o parto, Abo, nome que, na língua Kimbundu significa "Luto”, foi criada por parentes que a adoptaram.

Contra a vontade da sua avó, frequentou a escola primária na aldeia de Lukamba, em 1952, e a secundária na escola missionária de Totshi, quando foi baptizada e renomeada como Léonie Hortense. Em 1957, completou a sua formação como parteira assistente e enfermeira pediatra em Foreami, um estabelecimento apadrinhado pela rainha belga Elisabeth.

Em 1959, viveu um casamento arranjado com Gaspar Mumputu, marcado pela violência doméstica, tendo durante este período tomado contacto com as actividades políticas do Parti Solidaire Africain (Partido Solidário Africano). Contra a sua vontade, foi levada para um acampamento rebelde em 1963 devido aos seus conhecimentos médicos. Lá conheceu e estabeleceu um relacionamento conjugal com Pierre Mulele, ficando ao seu lado até ele ser assassinado em 1968 na cidade de Kinshasa, e ela foi mantida prisioneira pelas forças do Governo de Mobutu Sese Seko até 1969.

Ao sair da prisão, refugiou-se no vizinho Congo Brazzaville, permanecendo em exílio até um pouco antes de Mobutu ser deposto. Léonie Abo trabalhou como enfermeira e deu à luz duas filhas, Eulalie (1971) e Ghislaine (1974). Regressou ao Congo em 1996, no contexto da queda de Mobutu. Ajudou a estabelecer organizações locais de mulheres para crianças desnutridas e geriu uma fazenda na área de Maluku, produzindo produtos destinados aos bairros populares da cidade. Co-fundou a Fraternité des Patriotes Congolais – FRAPAC (Fraternidade dos Patriotas Congoleses), organização que unia os remanescentes dos movimentos rebeldes de Kwilu e Kwango, e foi integrante activa e presidente honorária da Union des Femmes Congolaises pour le Développement – UFCD (União das Mulheres Congolesas para o Desenvolvimento).

Também trabalhou na reconstrução rural no Governo de Abdoulaye Yerodia (2003-2006). Nas eleições de 2006, foi candidata pela Union des Patriotes et des Nationalistes Congolais – UPNAC (União dos Patriotas e dos Nacionalistas Congoleses) na região de Kikwit.

Em dois textos curtos, defendeu o legado contestado de Mulele, enfatizando o seu papel como companheira de luta. Para ela, a luta pelos direitos das mulheres não pode ser separada da luta travada contra o colonialismo, o capitalismo e o imperialismo.

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