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Lembrei-me deles!

A lembrança é talvez um dos melhores momentos que qualquer um de nós tem para reviver alguns dos melhores e piores momentos da nossa vivência. É da lembrança que conseguimos rebuscar as mágoas, as desilusões e as peripécias que vivemos, para ultrapassar alguns dos momentos que a maravilhosa vida nos dá.

19/09/2021  Última atualização 10H55
Uma das passagens da Bíblia Sagrada diz que a vida é curta, enquanto que o Salmista diz que é rápida. A triste notícia do desaparecimento físico do companheiro Zé Cola, profissional de mão cheia, remeteu-me para uma introspecção sobre algumas figuras com quem privei enquanto escriba do Jornal de Angola.

Parei no tempo para meditar sobre algumas destas figuras cuja imagem e memórias jamais se apagarão da minha consciência. Triste e melancólico, lembrei-me delas.


Dos sorrisos, abraços e por vezes das discordâncias por interesses profissionais. Com o coração ferido e as lágrimas a escorrer pelo rosto lembrei-me do Paulino Damião, o kota Cinquenta.

Embora não tenha nascido na sua época, Paulino Damião tornou-se familiar, por conta da sua passagem pela cadeia de São Nicolau - Namibe, onde muitos dos meus parentes terão vivido alguns dos seus piores momentos da vida. Daí a sua simpatia e amizade que me arrastou até ao seu círculo familiar.

Lembrei-me do Orlando Bento, então Chefe de Redacção por altura da minha admissão como colaborador e mais tarde efectivo no Jornal de Angola. Dono de um sorriso dócil e olhar fixo, familiarizamo-nos por conta das crónicas aos finais de semana em companhia do kota Beto Gourgel, também conhecido como Ngageta.

Por conta da hora tardia do fecho do jornal passávamos horas a conversar, logicamente em companhia de umas bitolas, na antiga Biker, restaurante que se localizava mesmo em frente às instalações do Jornal de Angola, em companhia de vários outros jornalistas desta casa. 


Às vezes dá vontade de rir diante da lembrança de certas situações vivenciadas nestes convívios. Lembrei-me do Paulo Pinha, o homem que conheci por intermédio da leitura na revista "Novembro” e depois no "Correio da Semana”. Como fã, fiz os possíveis para o conhecer pessoalmente.


Quis o destino que anos mais tarde cruzássemos no mesmo edifício e corredores. Como Copy Desk, área responsável por colocar em "letra de forma” os textos provenientes das várias redacções da empresa, Paulo Pinha fazia questão de passar a pente fino tudo que tinha as minhas impressões digitais.

Chamava-me pelo meu sobrenome, e vezes sem conta caímos na noite. Fácil é acusar de saudosismo. Não é. Lembrei-me do Domingos Cadência, o kota Cadência para os profissionais da área da fotografia. Por ser correligionário, o Domingos Cadência estava sempre à minha disposição.

Tornamo-nos amigos ao ponto de partilharmos confidências. Não havia situações no serviço ou familiarmente que o Domingos Cadência deixasse escapar. Era como se fosse um despertador. Ao seu jeito, ralhava e dava dicas de superação. Os problemas familiares arrombaram psicologicamente com o Cadência.

Lembrei-me do Bibi. Foi como eu aprendi a chamar o Albino Camana. Era um verdadeiro homem de arte gráfica. Moldado pelo António Cruz como paginador do caderno Fim-de-Semana, o Albino Camana superou-se profissionalmente até alcançar um lugar de destaque na Edições Novembro.

Muitas das suas criações estão vivas até a presente data. Lembro-me que depois do aturado fecho à madrugada saíamos para algumas batidas. Hoje paro para pensar, e se eu pudesse voltar o tempo para trás e reviver alguns desses momentos, por um instante me sentiria a pessoa mais feliz do mundo.
Agradeço por ter tido a oportunidade de ter uma vivência que poucos saberão o que é, dava tudo para voltar no tempo para trabalhar, brincar e me divertir com essas figuras. Ah… como eram generosas.
Descansa em Paz José Cola!

Ferraz Neto

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